CRÍTICA - The Mandalorian e a potência das mulheres
The Mandalorian e a potência das mulheres: o lado empoderado da força

The Mandalorian e a potência das mulheres: o lado empoderado da força

The Mandalorian foi lançada em 2019, e é a primeira série live-action ambientada no universo Star Wars. Criada por Jon Favreau, concorre ao Emmy 2021 em algumas categorias, incluindo Melhor Série de Drama. Seus acontecimentos ocorrem cerca de cinco anos após os eventos do Episódio VIO Retorno de Jedi (1983). O programa já conta com duas temporadas e está com a terceira confirmada.

A série conquistou um ótimo retorno de público e crítica. E soube adentrar nessa galáxia muito, muito distante. Construiu narrativas empolgantes e rapidamente caiu nas graças dos fãs. Em especial por conta de um certo alguém: The Child/Grogu, popularmente conhecido como Baby Yoda (e será dessa forma que ele será referenciado no decorrer do texto). A fofura da criaturinha que conquistou milhares de espectadores é inegável. Mas para além de sua graciosidade, ele se mostra tão amável quanto poderoso.

Baby Yoda/Grogu
O fofíssimo Baby Yoda. Imagem | Reprodução: Disney+

Em uma galáxia lotada de sujeitos sem leis, Din Djarin (Pedro Pascal) faz parte do clã dos Mandalorianos. O personagem, que é mais conhecido pelos outros como “O Mandaloriano” ou apenas “Mando”, e é um dos mais famosos caçadores de recompensas.

Direcionado a um trabalho para um ex-membro do Império, como desfecho de sua missão, ele encontra o alvo. Assim somos apresentados a nossa amada criatura de pele verde e orelhas grandes, que tem 50 anos, mas ainda é só um bebê. Após entregar a criança ao cliente que o contratou, Mando se arrepende e volta para busca-la. Tornando-se assim seu protetor, mas consequentemente transformam-se nos alvos mais procurados da galáxia.

No desenrolar da série, somos apresentadas a algumas personagens femininas que chamam a atenção e recebem destaque. Mas nem tudo é perfeito, pois nem todas ganham a relevância merecida.

The Mandalorian tem representatividade feminina, mas ela é limitada

A primeira temporada de The Mandalorian pode ser encantadora em vários sentidos, mas poderia ter se esforçado mais no quesito representatividade feminina. O “Capítulo 01: O Mandaloriano” causou algumas polêmicas pelo fato de a única mulher que ganha um pouco mais de destaque no episódio aparecer por poucos minutos.

The Armorer (Emily Swallow) é a líder de um clã de mandalorianos e a responsável por forjar e fazer reparos nas armaduras de seus companheiros. De temperamento diplomático, a personagem é sensata, cautelosa e paciente. Extremamente habilidosa no combate, ela consegue derrotar sozinha um grande grupo de soldados imperiais. Porém, seu tempo de tela costuma ser sempre muito curto nos episódios nos quais aparece. Uma personagem com potencial, mas que é pouco explorada.

The armorer
The Armorer, uma líder mandaloriana. Imagem| Reprodução: Disney+

Cara Dune e a força feminina

É apenas na metade da primeira temporada, “Capítulo 04: Santuário” que conhecemos a primeira personagem feminina de maior destaque da série, Cara Dune (Gina Carano). A atriz é conhecida por interpretar a Pó de Anjo em Deadpool (2016). Dessa vez, ela embarca no papel de uma veterana de guerra que lutou a favor da Aliança pela Restauração da República, contra o Império Galáctico. Cara Dune era a personagem que estava destinada a ser uma força feminina reconhecida desde seus primeiros momentos na série.

Sobretudo, a primeira interação de Dune com o protagonista se dá através de uma luta entre os dois. Com uma cena de combate corpo a corpo, temos uma sequência de planos muito bem coreografados, que nos já fazem simpatizar de imediato com aquela mulher desconhecida.

a introdução de Cara em The Mandalorian
Cara “recepcionando” Mando. Imagem | Reprodução: Disney+

O Mandaloriano e Cara unem forças para tentar salvar os moradores da vila (que ambos estão usando como refúgio para se esconderem dos caçadores de recompensa que os procuram) de ataques criminosos que estão sofrendo. A partir daí ela se torna personagem recorrente na série e se faz presente entre um capítulo e outro das duas temporadas, colaborando com a proteção do Baby Yoda.

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Dune foge da estética mais delicada que costumam conceder às mulheres de Star Wars. Ela segue a linha ousada e determinada, que também vemos na personalidade de Leia (Carrie Fisher) ou Padmé (Natalie Portman), mas não na forma como se vestem.  A imagem delas abraça um estilo mais inocente, beirando o virginal. Já Cara, tem o símbolo da Aliança Rebelde tatuado no rosto. Assim como faz uso de um penteado que também foge ao padrão do que costumamos ver em qualquer filme da franquia. Cara também escapa do molde do corpo magro e esguio. Devido ao fato de a atriz Gina Carano ser uma ex-lutadora de MMA, temos uma personagem musculosa e encorpada, que confere às espectadoras uma identificação mais ampla com a personagem.

Cara Dune se torna uma forte aliada de Mando
Cara Dune se torna uma forte aliada de Mando. Imagem| Reprodução: Disney+

No entanto, apesar de Cara Dune ser incrível, não podemos dizer o mesmo da atriz que a interpreta. Gina Carano, fez uma série de postagens infelizes em suas redes sociais. A atriz comparou o fato de que ser republicano(a) nos EUA, atualmente, era como ser judeu no período do Holocausto. Devido a isso, a Lucasfilm anunciou a sua demissão em fevereiro desse ano, rompendo relações e categorizando suas publicações como “abomináveis e inaceitáveis”.

Fennec Shand: a pistoleira

O “Capítulo 05: A pistoleira” da primeira temporada, nos entrega Fennec Shand (Ming-Na Wen). Conhecida de alguns por dublar a também guerreira Mulan, na animação de 1998. A atiradora de elite inaugura em The Mandalorian como antagonista, uma mercenária famosa por executar muito bem o seu trabalho. Seu nome impõe medo e apreensão nas pessoas e nesse episódio ela se mostra extremamente habilidosa com sua arma, onde podemos compreender melhor o porquê de sua reputação.

Shand é uma personagem com potencial, mas que ainda não foi bem explorada. Ela é um mistério, mal conhecemos sua história e não tivemos acesso às suas motivações. É aquela personagem badass que mete medo em muito homem. Contudo, no fim acaba dependendo de um homem para salvá-la. Dessa maneira, poderiam ter investido na sua autonomia e independência. Seria bem mais interessante se a mantivessem autossuficiente, portanto.

Fennec Shand enfrentando alguns stormtroopers.
Fennec Shand enfrentando alguns stormtroopers. Imagem| Reprodução: Disney+

Ahsoka Tano e sua primeira aparição live-action

Enfim, na segunda temporada de The Mandalorian, no “Capítulo 13: A Jedi”, temos a presença de uma figura galáctica muito querida entre as fãs. Alguém que até então só existia nas animações: Ahsoka Tano (Rosario Dawson), revelando uma versão em live-action da padawan de Anakin. É ela quem nos traz informações sobre o passado do Baby Yoda, pois é a primeira a conseguir se comunicar com ele.

Para quem já assistiu a série animada, The Star Wars: The Clone Wars (2008-2020), sabe que Ahsoka é acusada de algo que não teve culpa. Mesmo sendo absolvida, ela decide se afastar da Ordem Jedi, tornando-se assim uma espécie de usuária rebelde da Força, nem Sith e nem Jedi. Por isso ela reprojeta seus sabres com uma iluminação branca, representando sua nebulosidade. Mas só o fato de podermos ver mais uma mulher de carne e osso, empunhando um sabre de luz, é motivo para ficarmos muito felizes.

Ahsoka é forte, inteligente e se mostra como uma personagem que está a todo instante pronta para lutar. Portanto, ela mantém sempre uma expressão facial de determinação. Já o seu amadurecimento a torna um dos seres mais interessantes não apenas da série, como de toda a saga Star Wars. Ela é uma mulher que nunca parou de lutar, não importa o quão péssimas fossem as circunstâncias. E mesmo que às vezes não tenha tanta esperança, ela continua lutando, pois acredita em uma galáxia melhor. Isso dá a ela uma sabedoria e gentileza que não se via na Ordem Jedi.

Ahsoka se comunicando com Baby Yoda
Ahsoka se comunicando com Baby Yoda. Imagem | Reprodução: Disney+

Mulheres assumindo a direção em The Mandalorian

Star Wars costumeiramente vinha recebendo críticas negativas por não ter cineastas mulheres. Em seu livro autobiográfico, Memórias da Princesa, Carrie Fisher comenta que durante as filmagens da trilogia original, normalmente, ela era a única mulher presente no set. Mas, finalmente, no “Capítulo 03: O Pecado” da primeira temporada quem assume a direção é Deborah Chow (já dirigiu episódios das séries Jessica Jones e Mr. Robot). Ela tornou-se a primeira mulher a dirigir um live-action de Star Wars, e até então a franquia já tinha seus 42 anos de história. Levou algum tempo, hein? Deborah também dirigiu o “Capítulo 07: O Acerto de Contas”.

O capítulo 03 entrega o dilema de Mando: seguir a vida como caçador de recompensas ou arriscar tudo para salvar Baby Yoda? Tal decisão gera confronto suficiente para levar adiante um episódio ocupado por muita ação e tomado por uma narrativa visual, através de muitos conflitos e poucos diálogos. A direção de Chow consegue trabalhar tão bem com as nossas emoções, que o fato dos personagens tomarem atitudes previsíveis não é algo que torna os acontecimentos menos interessantes.

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Chow se mostra muito competente no comando das sequências, que ao mesmo tempo que são tensas também emocionam. E o capítulo 07 também segue essa linha, porém, desta vez, é incluído na narrativa monstros voadores. Por consequência disso ouvimos muitos tiros de blasters, gritos desesperados das vítimas em meio a escuridão e criaturas estranhas furiosas. Chow realmente sabe como atrair nosso entusiasmo.

Deborah Chow no set da série
Deborah Chow no set da série. Imagem | Reprodução: Disney+

Temos também Bryce Dallas Howard, famosa por protagonizar filmes como A vila (2004), de M. Night Shyamalan e porque faz parte da franquia Jurassic World. Dallas Howard ficou responsável por dirigir o “Capítulo: 04: Santuário” da primeira temporada, que chamou a atenção por ser uma referência ao longa Os Sete Samurais (1954), de Akira Kurosawa.

Em The Mandalorian temos um vilarejo tranquilo que é alvo de ataques constantes de bandidos – que ameaçam a população com um veículo imperial melhorado. Assim, os moradores da vila contratam Mando e Cara para os ajudarem. Na obra de Kurosawa, como o próprio nome indica, são contratados sete guerreiros e na série são apenas dois. Mas assim como no filme, eles treinam os moradores da vila para poderem resistir as invasões.

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Bryce, ainda com pouca experiência na função de diretora, se compromete com confiança ao cargo. Ela lança um olhar sensível sobre a realidade dos personagens, em especial de Mando. É extraído uma entrega dele, que o faz revelar mais camadas ao seu respeito. Já o estilo, o tom e a trama lembram filmes de faroeste. Todavia, a diretora usa isso a seu favor, buscando desenvolver melhor a humanidade do enredo. Assim, ela relaciona os moradores locais a um propósito: o de defenderem seu planeta.

Bryce Dallas Howard, uma das diretoras de The Mandalorian.
Bryce Dallas Howard, uma das diretoras de The Mandalorian. Imagem | Reprodução
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A diretora também assume o “Capítulo 11: A Herdeira” da segunda temporada, no qual ela se mostra ainda melhor ao oferecer resultados superiores. Seus dois episódios contam histórias bem diferentes, mas ela institui muito da mesma essência em ambos os capítulos: a mistura de algo significativo e emocionante. Desse jeito, instantes que trazem suspense ou tranquilidade são capturados com aptidão. Bryce também busca priorizar filmagens que envolvam Baby Yoda, pois os encantos do personagem fazem as pessoas se sensibilizarem mais com os acontecimentos.

Outro ponto alto do episódio é que ele traz uma outra personagem feminina, que só era conhecida através das séries de animação da saga. Bo-Katan Kryze (Katee Sackhoff) é uma mulher que também veste a armadura mandaloriana e junto com seus colegas, Kosha Reeves (Sasha Banks) e Axe Woves (Simon Kassianides), ela salva Mando e Baby Yoda de serem atacados por um grupo de Quarren. Kryze se mostra uma guerreira destemida e astuta, que se mantém firme contra os adversários. Ela retorna no “Capítulo 16: O Resgate” destacando-se ainda mais com suas habilidades de combate.

Kosha Reeves, Bo-Katan Kryze e Axe Woves em The Mandalorian
Kosha Reeves, Bo-Katan Kryze e Axe Woves após salvarem Mando e Baby Yoda. Imagem | Reprodução: Disney+

Está bom, mas ainda pode melhorar

Além das personagens femininas citadas, The Mandalorian traz algumas outras que também se mostram mulheres empoderadas. Como Peli Motto (Amy Sedaris), a mecânica espacial divertida que conserta naves em Tatooine; a Dona Sapo, uma mulher determinada a enfrentar qualquer coisa para poder salvar seus futuros filhos; ou Xi’na (Natalia Tena), uma vilã mercenária muito habilidosa. Já Deborah Chow e Bryce Dallas Howard indicam que a Lucasfilm deveria ter vozes e olhares ainda mais diversificados, principalmente em seus bastidores.

Dessa forma, a representatividade feminina em The Mandalorian ainda pode melhorar tanto na frente, quanto por trás das câmeras. A concentração de personagens masculinos continua superior e nós, mulheres, queremos nos ver bem representadas e na mesma proporção. Principalmente quando temos entre os fãs de Star Wars um dos públicos mais tóxicos. Afinal, quem não lembra da chuva de comentários racistas e machistas que surgiram com o lançamento do teaser do Episódio VII: O Despertar da Força (2015)? Algumas pessoas simplesmente não queriam aceitar o fato de a saga ter como protagonistas um homem negro (John Boyega) e uma mulher (Daisy Ridley), que tudo levava a crer que seria uma Jedi.

Como resultado, a franquia Star Wars levou tempo para fazer progresso com a diversidade. The Mandalorian é um exemplo de que as coisas melhoraram, mas não na medida em que deveria. Esperamos, portanto, que as temporadas seguintes da série tragam mais empoderamento feminino, pois nós merecemos e o mundo precisa muito disso.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Denise é bacharela em cinema e tem amor incondicional por tal arte. Pesquisa e escreve sobre feminismo e a representação das mulheres na área do audiovisual. É colecionadora de DVDs, fã da Audrey Hepburn, apaixonada por Rock n' Roll e cultura pop. Adora os agitos dos shows de rock, mas tem nas salas de cinema seu local de refúgio e aconchego.
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