Síndrome de Arlequina: o perigo por trás da identificação com a personagem

Síndrome de Arlequina: o perigo por trás da identificação com a personagem

A Arlequina (Harley Quinn) não é um personagem novo. Assim como o próprio Batman e o Coringa, passou por várias mudanças de visual ao longo dos anos e, junto com a Mulher Gato e Hera Venenosa, compõe o núcleo feminino de vilãs conhecidas da saga. No entanto, é impossível negar que foi com o filme Esquadrão Suicida que a população em geral, fã ou não da HQ, passou a conhecer a história da Dra. Harleen Frances Quinzel.

Deixando de lado a questão da hipersexualização da personagem, nosso foco aqui é problematizar o próprio romance, se assim o podemos chamar, entre a Arlequina e o Coringa.

Poucas pessoas sabem, mas antes de ser Arlequina (Harley Quinn), a personagem era uma psiquiatra, Dr.ª Harleen Frances Quinzel, que passou a tratar o Coringa (Joker) no hospício de Arkham, em Gotham. Ao longo do tratamento, por esperança ou por ego (de “curar” um dos criminosos mais insanos), a Dr.ª Harleen Frances Quinzel acreditava que estava conseguindo resultados positivos. Um engodo.

O que na verdade estava acontecendo era que o Coringa estava sutilmente a manipulando, até que finalmente a enlouqueceu –  a história, com suas variações, é contada na HQ Mad Love. Essa manipulação, a certo ponto e devido às características que tomou, poderia até ser entendida como uma síndrome de estocolmo.

O Coringa consegue fazer uma lavagem cerebral tão forte na Dr.ª Harleen ao ponto de transformá-la na persona Arlequina, uma mulher insana e completamente apaixonada por seu algoz. Paixão (ou amor?) essa, representada pela sua total e incondicional dedicação e submissão às vontades e planos dele.

Arlequina

Arlequina é o pacote completo: Linda, extremamente sexy, incondicionalmente apaixonada e totalmente submissa. Ela não se importa em ser tratada como um objeto por ele, tanto sexualmente falando, quanto nos planos maníacos dele para derrotar o “morcego”. O problema aqui é que ela não é apenas um modelo que os homens (machistas) em geral desejam ou idealizam. As mulheres também querem ser a Arlequina e, como se isso não bastasse, procuram para si um Puddin, nos mesmos moldes do original.

Puddin

Antes de prosseguirmos, me sinto na responsabilidade de esclarecer algumas coisas: o problema não é ela ser bonita, sexy, vestir roupas curtas, ser passiva ou ter enlouquecido. O problema é o que se faz com todos esses tônicos na mesma fórmula: a romantização de um relacionamento abusivo.

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Inclusive, entendo que fique difícil, em certo ponto, conseguir fazer uma análise crítica e sóbria dos personagens em separado do ator e atriz que os interpretam, visto que representam estereótipos de beleza. Não estamos discutindo se você gostaria de se relacionar com o Jared Leto, mas sim com o Coringa, um maníaco que abusaria psicologicamente de você. Ou seja, romantizar um relacionamento abusivo.

Arlequina
O relacionamento abusivo da Arlequina é tão sintomático que a ilustradora Kaol Porfírio criou, em novembro de 2016, uma série chamada “Relacionamentos abusivos – identificando e enfrentando“, onde ela tratou do que seria um relacionamento abusivo, como identificar um e o que fazer para sair e/ou ajudar alguém a sair de um.

Escolhi a Harley Quinn ou Arlequina para ilustrar essa série porque é uma personagem muito querida mas, como todos sabem, apaixonada e em relacionamento bem conturbado e abusivo. (Kaol Porfírio)

Arlequina

Claro que sabemos que com o combo: atores /atrizes bonitos, fantasia, ação, ciúmes doentios e possessivos disfarçados de cuidado e um roteiro persuasivo, fica difícil não torcer pelo “casal” ou não querer ser um casal como aquele. E é assim que as coisas são introjetadas e normatizadas em nosso cotidiano. Contam -nos uma história horrível, de forma bonita, até acharmos que ela é, de fato, bonita.

O alerta, nessa história toda, não é que as mulheres e meninas não podem mais gostar ou fazer cosplay da Harley Quinn, ou ainda dizer que quem faz / gosta, está abrindo portas para um relacionamento abusivo.

A questão aqui é alertar para o perigo da romantização desse tipo de relacionamento.

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Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É viciada em Lego, apaixonada por ficção científica/terror/horror, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif’s e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada.
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