[FESTIVAL DO RIO] Aos Teus Olhos: sobre o tribunal das redes sociais (crítica)

[FESTIVAL DO RIO] Aos Teus Olhos: sobre o tribunal das redes sociais (crítica)

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Muito tem se falado e teorizado sobre o conceito de “pós-verdade”. As redes sociais entram neste contexto justamente para adensar e contribuir com a histeria coletiva decorrente de pré-julgamentos de qualquer nível, uma vez que uma notícia se espalha em velocidade espantosa devido à alta conectividade das pessoas. Aos Teus Olhos, o novo longa-metragem de Carolina Jabor incide neste debate. O cenário é um clube da zona sul carioca em que Rubens (Daniel de Oliveira), professor de natação infantil, é acusado pelos pais de Alex (Luís Felipe Melo) de beijar o filho deles na boca enquanto estavam sozinhos no vestiário. Curiosamente, o vestiário é o único local do clube em que não há câmeras de segurança.

O roteiro de Lucas Paraizo é baseado na peça teatral espanhola O Princípio de Arquimedes e anda na corda bamba, pendendo ora para a condenação de Rubens, ora para a dúvida sobre a ocorrência ou não do fato que lhe fora imputado. O clima de tensão construído com um excelente desenho de som é o melhor aspecto de Aos Teus Olhos. A montagem frenética também colabora no desenrolar da trama que ganha ares de Thriller.

Mas, só a elaboração de uma eficiente atmosfera sustenta uma narrativa e dá conta de abarcar um assunto tão delicado que perpassa pela pedofilia? Diferente do que é visto no excelente longa-metragem dinamarquês A caça (Jagten, 2012), de Thomas Vinterberg, que de fato levanta um debate consubstanciado sobre paranoia social e pré-julgamento partindo da mesma premissa, no filme de Carolina Jabor, o que temos é um esqueleto sem substância que ao criticar a forma, abandona o conteúdo.

Aos Teus Olhos
Daniel de Oliveira e Marco Ricca em cena de “Aos Teus Olhos”.

Percebe-se que há algo de questionável na abordagem dada pelo roteiro, quando nota-se que na recepção do filme, o debate gira em torno do que cada pessoa suspeita que acontecera. Rubens ter cometido algum ato abusivo, é irrelevante para o filme, pois isso é abandonado no decorrer de seus 90 minutos. A existência ou não do abuso perpassa na narrativa quase que como um mero detalhe, já que os sentimentos da criança e suas reações passam ao largo do que é apresentado na tela. E desta forma, é bastante complicado vermos um dos crimes mais difíceis de serem provados na nossa sociedade sendo trabalhado de forma tão leviana. Escalar um galã consagrado em novelas, por exemplo, para protagonizar o filme, facilita com que o público tenha fácil e imediata empatia por ele, sendo um dos muitos vieses maniqueístas de condução da narrativa.

Some-se a tudo isso, a repetição de velhos estereótipos que não se atualizam aqui, fazendo com que as personagens sejam uma colcha de clichês. A mãe (Stela Rabelo) tem um arco narrativo que a encaminha para a histeria, enquanto o pai (Marco Ricca) lida de forma plácida com a situação. A namorada de Rubens (Luisa Arraes) muito mais nova que ele, e o menino que tinha sido seu aluno, insinuando a descoberta da homossexualidade, são outros clichês que servem apenas para moldar a personalidade do protagonista. Aliás, tem-se um discurso meio patológico acerca da homossexualidade, que é repetida a exaustão na fala das personagens, quase que inocentando homens heterossexuais de qualquer sombra que os coloque na figura de um pedófilo.

Apesar de toda esta miscelânea, é inegável reconhecer a direção segura de Carolina Jabor na condução de Aos Teus Olhos, bem como a direção de fotografia de Azul Serra. Merece destaque também a ótima atuação de Malu Galli como diretora do clube, uma das personagens mais interessantes e com melhor desenvolvimento de arco narrativo do filme.


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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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