Niketche – Uma história de poligamia: o que acontece quando as mulheres se unem

Niketche – Uma história de poligamia: o que acontece quando as mulheres se unem

Niketche – Uma história de poligamia, quarto livro da escritora Paulina Chiziane, é narrado em primeira pessoa por Rami e representa não apenas um mergulho na vida dessa personagem, mas principalmente um panorama complexo sobre a difícil situação feminina na sociedade moçambicana. A orelha do livro, editado pela Companhia das Letras, apresenta a narrativa da seguinte forma:

Niketche conta a história de Tony, um alto funcionário da polícia, e sua mulher, Rami, casados há vinte anos. Certo dia, Rami descobre que o marido é polígamo: tem outras quatro mulheres e vários filhos com cada uma. As esposas de Tony estão espalhadas pelo país: em Maputo, em Inhambane, na Zambézia, em Nampula, em Cabo Delgado. Numa decisão surpreendente, Rami decide ir atrás de cada uma dessas mulheres.

Antes de prosseguirmos, é fundamental fazermos uma inversão importante: Niketche não conta a história de Tony, mas sim a de Rami. É a sua voz e as suas palavras que constroem a narrativa, apresentam-nos todas situações e as personagens e é através de sua mediação que conhecemos o marido infiel e as outras mulheres: Julieta, Lu, Saly e Mauá.

Niketche – Uma história de poligamia (resenha)

O livro se abre com uma situação problemática: o filho de Rami é acusado, injustamente, de danificar o vidro de um carro. Ao tentar resolver a situação com o proprietário do veículo e também com a criança, a personagem se vê confrontada, conscientemente, com a ausência constante do marido.

Ao precisar justificar publicamente a ausência de Tony, Rami percebe também a situação dolorosa de suas vizinhas. O primeiro movimento da personagem é, no entanto, de buscar a culpa. Quem eram os responsáveis dessas “fugas” e dessas ausências? Apesar de cogitar culpar o marido pelo seu sofrimento, Rami volta-se para si mesma, examina-se ao espelho, culpa-se.

“Vou ao espelho tentar descobrir o que há de errado em mim. Vejo olheiras negras no meu rosto, meu Deus, grandes olheiras! Tenho andado a chorar muito por estes dias, choro até demais! Olho bem para a minha imagem. Com esta máscara de tristeza, pareço um fantasma, essa aí não sou eu.”

Porém, apesar da tristeza e do cansaço, a personagem consegue, de alguma forma, entrever um vislumbre da sua força e de sua beleza. Pacifica-se, por ora. Mais tarde na narrativa, a personagem explica, em um diálogo com outra mulher, que, desde sua infância, ela nunca havia sido ensinada a ter amor-próprio, a amar-se e respeitar-se. Pelo contrário, foi-lhe ensinado a subserviência, a obediência, a naturalização das hierarquias que colocam as mulheres à margem de tudo, em um segundo plano onde são permanentemente coadjuvantes de suas próprias vidas.

De forma gradual, o exercício de olhar-se ao espelho, de dialogar consigo própria, de apropriar-se de sua própria voz e de sua própria história vão restituindo a confiança de Rami. Entretanto, a busca por culpados prossegue ainda, por um tempo, e a personagem vai confrontar suas rivais, cada uma das mulheres com quem Tony mantém uma vida paralela. Essas outras mulheres, a princípio, são vistas como inimigas, como rivais que devem ser destruídas.

“Penso muito nessa tal Julieta ou Juliana. Mulher bonita, ouvi dizer. Tem com o meu Tony muitos filhos, não sei quantos. É um segundo lar, sólido e fixo. Na minha mente correm ideias macabras. De repente, apetece-me ferver um pote de óleo e derramar na cara dessa Julieta ou Juliana, para eliminá-la do meu caminho. Apetece-me andar à pancadaria com uma peixeira. Rezo. Rezo com todo o fervor para que essa mulher morra e vá para o inferno. Mas ela não morre e nem o romance acaba.”

Na primeira vez que se encontram, Rami e Ju brigam, agridem-se fisicamente, trocam insultos. Porém, quando se veem diante da possibilidade de uma conversa franca, as duas mulheres percebem que compartilham tristezas muito semelhantes. Há meses que Ju não vê Tony, ele é agressivo, pouco contribui para o sustento da casa e dos filhos. Além disso, Rami percebe que a situação de Ju é ainda mais precária.

Diferentemente dela, que está amparada, de certa forma, pela formalidade de seu casamento, Ju não apenas é hostilizada pela sociedade, por ser a “concubina”, mas não tem nenhuma proteção jurídica, nem para si, nem para seus filhos. Para piorar a situação das duas mulheres, Ju anuncia a Rami que Tony tem uma terceira mulher que, além de tudo, apresenta uma questão cultural. Enquanto Rami e Ju são mulheres do sul, a terceira, Lu, é uma mulher do norte, onde a poligamia ainda é uma prática aceitável.

Da mesma forma como fizera com Ju, Rami procura Lu. As duas confrontam-se, agridem-se, vão parar na delegacia. E, assim como acontecera com Ju, é através do diálogo – que não é, no entanto, pacífico ou passivo – que as duas mulheres se reconhecem, apesar das grandes diferenças culturais. Nesse momento do livro, pouco importa a qual cultura se refere, a do norte ou a do sul, o estatuto da mulher nessa sociedade é claro: é coadjuvante, satélite, subjugada, de modos diversos, para atender as necessidades e os caprichos de pais, maridos, amantes. A romaria de Rami não se encerra com Luísa, restam ainda outras mulheres que compartilham fragilidades e precariedades em seus relacionamentos com Tony.

Progressivamente, Rami aproxima-se das quatro mulheres, para conhecê-las e, sobretudo, para uni-las. Em paralelo, a protagonista faz uma verdadeira enquete com as outras mulheres que conhece, familiares, vizinhas, frequentadoras dos mercados, a respeito da poligamia. Diante do quadro em que se encontra, Rami acredita que a melhor forma de garantir alguns direitos, para si e para as outras quatro mulheres, é a adoção desse regime. Após uma longa conversa, as cinco fazem uma decisão coletiva.

“– Julieta, minha Ju, foste enganada. Arrancada da adolescência para a velhice, sem meio-termo. A tua vida é um verão eterno. E tu, Luísa, minha Lu, serás desejada enquanto tiveres fogo nesse belo corpo. A vida é uma eterna mudança, um dia quente, outro dia frio. O que será de ti, quando o inverno chegar? Saly, tu és as usada nos momentos de pausa, és um petisco, uma refeição ligeira, intermédia, para quebrar a monotonia na ementa de amor. A Mauá é a mais amada, apenas de momento. Os amores do Tony são efêmeros, sabemos disso.

Esta conclusão revolve uma torrente de sentimentos escondidos. Vejo lágrimas correndo, frustrações avolumando-se em cachos, incertezas espelhando-se no silêncio, a esperança ténue tremelicando nos horizontes do mundo.

– Somos éguas perdidas galopando a vida, recebendo migalhas, suportando intempéries, guerreando-nos umas às outras. O tempo passa, e um dia todas seremos esquecidas. Cada uma de nós é um ramo solto, uma folha morta, ao sabor do vento – explico. – Somos cinco. Unamo-nos num feixe e formemos uma mão. Cada uma de nós será um dedo, e as grandes linhas da mão a vida, o coração, a sorte, o destino e o amor. Não estaremos tão desprotegidas e poderemos segurar o leme da vida a traçar o destino.”

Paulina Chiziane
Paulina Chiziane. Imagem: Reprodução.

Ao decidirem aderir ao regime da poligamia, temos a impressão que as personagens estão apenas passando de uma forma patriarcal de opressão a outra. No entanto, esse primeiro momento, de garantia miníma de certos direitos, é apenas o início de uma revolução na vida dessas mulheres – que acontece graças à força e à empatia de Rami.

Percebendo a penúria em que ainda viviam as outras quatro mulheres, principalmente em relação ao sustento de seus lares, a protagonista vai percebendo que o caminho para a autonomia é longo, demandando atividades que possam liberá-las economicamente, rompendo com a relação de dependência financeira que as prendem a Tony.

“Um dia disse às minhas rivais: venham, venham todas exigir o pão quando vos falta, despertar o Tony à noite se por acaso aqui estiver quando as crianças têm febre, e quando, na escola, os professores exigem a presença do encarregado da educação. Venham todas em desfile, ele costuma estar e casa só à hora do almoço. Vocês são as suas mulheres e os vossos filhos são irmãos dos meus filhos.

Começou a procissão das mães e das crianças. O Tony já não aguentava, fugia deles. Rami, aguenta tu com essa gentalha. Aguentei com elas até onde pude, até que lhes disse: Isto acontece porque não trabalham. Em cada sol têm que mendigar uma migalha. Se cada uma de nós tivesse uma fonte de rendimento, um emprego, estaríamos livres dessa situação. É humilhante para uma mulher adulta pedir dinheiro para sal e carvão. A Saly diiz que já teve negócios que faliram, porque usou todo o dinheiro que tinha na cura do filho que andou doente. A Lu diz que gostaria de ter uma loja de modas, que fora sempre esse o seu sonho. A Ju gosta de crianças. Diz que, no dia que procurar um emprego, vai ser para lidar com crianças. A Mauá diz que não tem jeito para nada. Foi educada para ser esposa e dar carinho. Que não se imagina a trabalhar e nem quer envolver em tal situação.

– Temos que trabalhar – diz a Lu –, ainda temos um pedaço de pão porque o Tony ainda está vivo. E quando ele morrer? Do luto até encontrar um novo parceiro vai um longo período de fome. É preciso prevenir o futuro.

– O que vamos fazer? – diz a Mauá. – Eu nem tenho estudos e não sei fazer nada!

– Ah, Mauá – diz a Saly –, todas as pessoas vendendo na esquina são mulheres como nós. Se alguém me emprestasse um dinheirinho iria começar já o meu negócio.

– Mesmo eu – diz a Lu. – Venderia roupa, mesmo que fosse usada. Sempre sonhei ter uma loja de modas.

Peguei num dinheiro que tinha guardado e emprestei a Saly. Comprava cereais em sacos e vendia em copos nos mercados suburbanos. Dois meses depois, ela devolvia-me o dinheiro com juros e uma prenda. Uma capulana, um lenço de seda, e uma rosa vermelha comprada na esquina. A Lu disse-me: estou inspirada. Se a Salu conseguiu fazer o seu negócio render, também posso. Rami, emprestas-me algum dinheiro? Passei os fundos devolvidos pela Saly para as mãos dela. E começou a vender roupa em segunda mão. E começou a engordar, a sua voz a adoçar, o seu sorriso a crescer, o dinheiro nas mãos a correr. Três semanas depois devolvia-me o dinheiro com mais juros, um carinho e um bouquet de rodas. A Ju e a Mauá revoltaram-se.

– Rami, por que não nos tratas de forma igual? – perguntou a Mauá. – Somos também mulheres pobres como a Lu e a Saly. Ajudaste-as. Por que não nos ajudas a nós também?

Transferi o dinheiro das mãos da Lu para a Mauá e dei a Ju um dinheiro que o Tony me dera um dia para guardar. A Mauá começou a tratar dos cabelos, a desfrisar cabelos, coisa que ela entende muito bem. Começou na varanda da sua casa. Conseguiu angariar clientes. Aumentou o volume de trabalho e contratou duas ajudantes. A varanda era pequena e passou a usar a garagem da sua casa. Agora tem uma multidão de clientes, a Mauá.

A Ju vai aos armazéns, compra bebida em caixa e vende a retalho. Dá muito lucro. Nesta terra as pessoas consomem álcool como camelos. Ela começou a sorrir um pouco e a ganhar mais confiança em si própria. O Tony reage mãe às nossas iniciativas mas nós fechamos os ouvidos e fazemos a nossa vida.”

Esse trecho é um ótimo exemplo do que pode acontecer quando as mulheres ousam deixar de lado a rivalidade, que nos é ensinada desde muito jovens, para apoiarem-se umas nas outras, unindo-se contra aquilo que as oprime. O percurso de Rami, narrado de forma magistral por Paulina Chiziane, ilustra com muito lirismo, mas sem ocultar a violência desse processo, o poder revolucionário da sororidade. E não, o livro não é sobre o Tony e suas cinco mulheres, mas sim sobre cinco mulheres que conseguiram corajosamente (juntas!) se desprender de dois regimes que, de formas diferentes, oprimem – e continuam oprimindo – mulheres.

Leia também:
>> Paulina Chiziane: “Não vou responder o que é literatura feminina”
>> A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil: a importância da diversidade na Sci-Fi!
>> Sem gentileza: Futhi Ntshingila é a guardiã da memória das mulheres sul-africanas

Sobre a autora

Paulina Chiziane

Paulina Chiziane é um escritora moçambicana, nascida em 4 de junho de 1955, na vila de Manjacaze, no sul de Moçambique. Durante a sua juventude, participou ativamente da militância como membro da Frente de Libertação de Moçambique. Durante a Guerra Civil que assolou o país, Paulina atuou como enfermeira na organização Cruz Vermelha. A escrita foi a saída que encontrou para lutar, para ressignificar suas experiências enquanto mulher negra em um país dividido, marcado pela violência da colonização europeia.

A literatura de Paulina Chiziane é não apenas um manifesto, mas também um marco. Ela foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, em 1990, “Balado de amor ao vento”. Graças à força de sua escrita, Paulina Chiziane foi nomeada, em 2005, como uma das vozes do movimento One Thousand Peace Women – movimento que foi indicado, no mesmo ano, ao Prêmio Nobel da Paz.

A sua obra, que contempla romances, livros de contos, de poemas e ensaios, é composta pelos seguintes títulos: “Ventos do apocalipse” (1992, romance), “O sétimo juramento” (2000, romance), “Niketche – uma história de poligamia” (2002, romance), “O alegre canto da perdiz” (2007, romance), “As andorinhas” (2008, contos), “As heroínas sem nome”, em coautoria com Dya Kassembe (2008, entrevistas), “Quero ser alguém” (2011, entrevistas), “Na mão de Deus” (2012, ensaio), em coautoria com Maria do Carmo da Silva, “Por quem vibram os tambores do Além” (2013, ensaio), em coautoria com Rasta Pita, “Ngoma Yethu” (2015, ensaio), em coautoria Mariana Martins, “Ocupali” (2016, drama), “O canto dos escravos” (2017, poesia).

Apesar de ter uma obra consolidada e respeitável, de ter sido homenageada com prêmios literários importantes ao longo de sua carreira enquanto escritora, quase todos os seus livros não contam com edições brasileiras, tornando difícil o acesso à sua escrita que é, no entanto, cada vez mais atual e necessária.


NiketcheNiketche: Uma história de Poligamia

Autora: Paulina Chiziane

Companhia das Letras

Se interessou? Compre aqui o eBook!

Comprando através do link acima, você ajuda a manter o Delirium Nerd no ar, além de ganhar nossa eterna gratidão por apreciar e apoiar o nosso trabalho!

Escrito por:

11 Textos

Professora, feminista, pesquisadora em literatura, engajada na missão de ler sempre mais mulheres. É viciada em livros & séries. Tem sempre um lugar especial no coração para Star Wars, filmes da Ghibli & gatos.
Todos os textos
Follow Me :