“Cadê Você, Bernadette?” é um retrato irresponsável das doenças mentais

“Cadê Você, Bernadette?” é um retrato irresponsável das doenças mentais

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O novo filme do diretor Richard Linklater é uma adição um pouco atípica em seu catálogo. Adaptado do livro de mesmo nome, “Cadê Você, Bernadette?” começa como uma espécie de comédia, antes de se tornar um filme de família açucarado. No livro, da autora Maria Semple, a filha de Bernadette busca pela mãe desaparecida reunindo vestígios como e-mails, recibos bancários, e coisas do tipo que possam indicar seu paradeiro. No filme de Linklater, Bernadette nunca desaparece, e sabemos a todo momento onde ela está.

O enredo de “Cadê Você, Bernadette?”

Acompanhamos de perto Cate Blanchett no papel da protagonista, com uma atuação mais caricata que o normal para a atriz. Bernadette largou sua brilhante carreira como arquiteta após um trauma que sofreu de um cliente, e há 20 anos se sente fracassada, reservando sua vida apenas para cuidar da filha. Com o tempo, ela começou a desenvolver neuroses e fobias, e agora passa os dias brigando com suas vizinhas, que também aparecem com atuações cartunescas. 

Esse início se propõe a ser uma espécie de comédia, então, ao invés de investigar mais a fundo o que levou a personagem a esse estado, o filme aposta em fazer piada da caricatura que ela se tornou, e as causas são mostradas didaticamente (há um vídeo inserido na tela em determinado momento, contando o passado de Bernadette), e apenas de forma superficial. 

Cadê Você, Bernadette? (2019) crítica
Cena de “Cadê Você, Bernadette?”, novo filme de Richard Linklater. (Imagem: reprodução)

Bernadette começa a se meter em confusões tão grandes que seu marido semi-ausente finalmente se toca de que há algo errado com ela. A solução que ele encontra, entretanto, é procurar uma espécie de psiquiatra, que o convence que a esposa precisa de internação. Essa cena é um dos maiores erros do filme, pois é montada de forma paralela a um monólogo de Bernadette se abrindo para seu ex-mentor e amigo.

A montagem passa a ideia de que tudo que o marido e a psiquiatra estão dizendo é corroborado pelas falas dela, o que é algo bastante cruel com a personagem. Em vez de podermos nos conectar com a perspectiva da protagonista, somos levadas a enxergá-la com os olhos alheios, justo na cena de maior revelação emocional dela. 

Cate Blanchett em Cadê Você, Bernadette? (2019) crítica
Cate Blanchett em “Cadê Você, Bernadette?” (Imagem: reprodução)
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O filme acaba querendo se redimir logo em seguida, e toma rumos opostos imediatamente, finalmente responsabilizando o marido por sua negligência e se aproximando da perspectiva de Bernadette. Porém, essa parte é ainda mais fraca narrativamente, apostando em diálogos formulaicos e situações inverossímeis, o que distancia as espectadoras do drama que estaria se passando ali. 

Super Linklater contra o Baixo Astral

Linklater certamente não queria que esse filme se tornasse melancólico, porém, parece acreditar que para isso tem que se distanciar de discussões importantes sobre doença mental e responsabilidade afetiva. O marido de Bernadette é infiel no livro, mas isso é mudado no filme, para que o clima de família feliz possa prevalecer.

Cadê Você, Bernadette? (2019) crítica
Cena de “Cadê Você, Bernadette?”. (Imagem: reprodução)

Os transtornos mentais de Bernadette são trivializados, e, ainda por cima, a “cura” aparece receitada por seu mentor de forma extremamente simplista, algo bastante irrealista e frustrante. Toda pessoa que já passou pelas experiencias de ter que lidar com doenças mentais sabe que nada é tão simples. Ainda mais para uma personagem que viveu com isso por 20 anos.

Outro ponto negativo é vermos tão pouco da relação entre mãe e filha, que é uma das poucas saudáveis no filme. Bernadette até tem a oportunidade de criar um laço com suas vizinhas inimigas, mas a cena também é cortada em montagem elíptica, e temos que inferir muito mais coisas do que realmente vê-las se desenvolvendo.

Para um diretor que é tão hábil em filmar o cotidiano, especialmente conversas entre pessoas, é uma pena que este novo filme peque justamente em tais momentos. Seria especialmente proveitoso poder ver as relações femininas se desenvolvendo melhor na tela. 

Cadê Você, Bernadette?” estreia dia 7 de novembro nos cinemas.


Edição e revisão realizada por Isabelle Simões.

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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