Filho-Mãe: como o machismo também afeta os meninos no Irã

Filho-Mãe: como o machismo também afeta os meninos no Irã

Em Filho-Mãe, longa da diretora Mahnaz Mohammadi, acompanhamos a história de Leila (Raha Khodayari), uma viúva iraniana que cria seus dois filhos pequenos. Ela é mal falada na fábrica em que trabalha pelo motivo de não ter um homem em casa. Porém, quando a fábrica a demite, uma das únicas opções para sustentar a família passa a ser aceitar o pedido de casamento do motorista Kazem. Contudo, ele exige que ela não leve junto seu filho Amir (Mahan Nasiri), pois também tem uma filha da mesma idade e a tradição desaprova uma menina viver na mesma casa que seu meio-irmão.

Desesperada, Leila acaba aceitando o casamento e deixa Amir sob os cuidados de um internato para meninos surdos. A partir de então, Filho-Mãe passa a focar exclusivamente na perspectiva do menino, tendo que sobreviver em um ambiente em que não conhece ninguém, enquanto finge ser surdo como os demais para não ser descoberto.

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Leila (Raha Khodayari) em “Filho-Mãe”. | Imagem: Imovision / divulgação

Filho-Mãe responsabiliza a sociedade pelo problema

A diretora aposta numa perspectiva interessante ao não criar nenhum vilão individual para a história. Com isso, ela mostra que Kazem não é necessariamente um homem ruim. Ele parece respeitoso com Leila e quando encontra Amir o trata bem, sempre enfatizando que não haveria problema levá-lo para casa, mas que o restante das pessoas olhariam muito mal para a família.

Além disso, o filme também mostra que há pessoas que lucram com a situação, como a funcionária do internato que recebe dinheiro para manter vários meninos como Amir lá. No geral, o problema é causado pela sociedade como um todo, não por pessoas mal intencionadas.

Leila e Amir (Mahan Nasiri) em “Filho-Mâe”. | Imagem: Imovision / divulgação

Perspectiva do menino mostra como machismo afeta a todos

Na primeira metade do longa, conseguimos ter noção da difícil situação financeira de Leila e entender suas motivações para tomar a drástica decisão de se casar novamente e afastar o filho. A solução é colocada como uma medida temporária, pois Leila fala para o filho que irá buscá-lo em algumas semanas.

Já na segunda metade de Filho-Mãe, passamos a acompanhar apenas a perspectiva do menino. Nessa parte, não sabemos mais o que aconteceu com a mãe. Kazem diz que ela está feliz, mas não temos como ter certeza do que realmente está acontecendo com ela, e porque ela não apareceu para buscar Amir no tempo combinado.

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Com essa ausência da mãe no resto do filme, passamos a entender o sentimento de desamparo e abandono vivido por Amir. Filho-Mãe retrata bem como o machismo afeta a sociedade inteira, pois não há perspectiva de como será a vida de Amir dali pra frente, afastado da família e sem ter conhecimento do que está acontecendo.

Ao vermos outros meninos no internato que vivem sob as mesmas condições de Amir, notamos o quanto o machismo imposto às mães afeta seus descendentes também, inclusive os meninos. Filho-Mãe, portanto, retrata uma questão específica para ilustrar um problema muito maior sofrido pelas mulheres no Irã. Trata-se de um poderoso filme, embora triste.

O longa é distribuído pela Imovision e está em cartaz nos cinemas.

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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