[ANIME]  Kill la Kill: quem disse que mulher não sabe lutar?

[ANIME] Kill la Kill: quem disse que mulher não sabe lutar?

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Em um primeiro momento, a história de Kill la Kill se mostra um pouco comum, tratando da busca por vingança da protagonista. O anime, porém, consegue apresentar uma epopeia com um pano de fundo original, conseguindo envolver a linha central de vingança apresentada com o suspense contido nas demais figuras da animação.

Nos primeiros minutos de Kill la Kil já somos apresentadas à natureza fascista – com direito a analogia à Alemanha nazista – do “governo” que reina não apenas na cidade de Hannou, mas principalmente na Academia Hinnouji, que é o cenário principal dos embates presentes no anime. Analogia esta que se repete ao longo do anime, já deixando claro ao telespectador a atuação totalitária que se encontra no centro da história.

O controle exercido pelo “governo” da Academia é tão grande que ele controla o restante da cidade de Hannou inteira – com planos de expansão nacional – de forma a interferir e gerir todos os aspectos da vida do estudante. Esse controle se dá, principalmente, na figura dos Uniformes Goku – uniformes que dão poderes especiais àqueles que os vestem – que são distribuídos aos estudantes de acordo com os interesses de quem controla a Academia; assim, dividindo os alunos entre aqueles da elite – possuidores de Uniforme Goku – e aqueles marginalizados, os sem-estrela.

 Kill la Kill

Tão amplo é o controle, que a classificação do aluno como sem-estrela ou possuidor de um Uniforme Goku determina até mesmo a área da cidade em que o mesmo morará, estando a parte alta destinada aos alunos da elite (com estrela) e a favela, destinada aos sem-estrela.

Os cenários são o que primeiro nos chamam a atenção no anime, havendo um destaque óbvio, mas não exclusivo, para a Academia Hinnouji; em relação a esta, porém, percebe-se que o objetivo da sua construção foi gritar poder e superioridade – algo parecido com as construções faraônicas da ditadura militar brasileira – servindo para passar a imagem de um governo forte e completamente no controle de seus cidadãos, no caso, alunos.

 Kill la Kill

O regime da Academia não poderia estar mais próximo de um militar e totalitário, com doses cavalares de sangue e violência. Desde o primeiro dia, os alunos vivem sobre um regime de total terror e submissão às regras impostas pelo “governo”, tendo que apresentar um estado de subserviência completo a autoridade e, especialmente, ao líder da Academia. Até mesmo os professores estão sujeitos ao que o alto “governo” da Academia Hinnouji determina.

Mesmo com o estado de submissão que os corpos docentes e discentes apresentam, eles foram influenciados pelo regime de tal forma que agem como se as ações do “governo” fossem normais (quase um “1984” mais violento). O totalitarismo imposto já está tão arraigado em suas mentes, que não há questionamento dos métodos empregados em nenhum momento, havendo, pelo contrário, um desejo dos habitantes – aqui incluindo os não estudantes da Academia – de alcançarem poder dentro daquele sistema. Mas como esse sistema se instalou? Quem é a mente maligna (ou brilhante?) no controle da Academia?

“O medo é a liberdade. A submissão é a libertação. A contradição é a verdade. Estas são as verdades deste mundo! ”

 Kill la Kill

É com estas palavras que somos apresentados à Satsuki Kiryuin, antagonista de “Kill la Kill”. Ela é a filha da presidente da Academia Hinnouji e está no controle da mesma, sendo isso reconhecido por alunos, professores e até pelo diretor da escola. Através dos Uniformes Goku, ela cria uma espécie de exército estudantil, sendo acompanhada e protegida – mesmo que sem necessidade – por membros do Conselho Estudantil (“Os Quatro Maiores”) que também disciplinam possíveis desordeiros.

 Kill la Kill
Satsuki e os Quatro Maiores

É nela que a protagonista do anime, Ryuko Matoi, vê a sua grande inimiga, responsabilizando Satsuki pela morte de seu pai e jurando se vingar da mesma. O primeiro encontro entre as duas já marca esse confronto, sendo seguido pelo encontro de Ryuko com um tipo de Uniforme Goku – um Kamui – feito especialmente para ela por seu pai, um inventor.

 Kill la Kill
Ryuko Matoi

Até agora parece uma premissa de anime bem comum, não é? Mas aí é que está. Trata-se sim, de um enredo geral comum e clássico, mas, além da busca de Ryuko por vingança, a história do anime se desenvolve ao redor da questão do que são os Uniformes Goku, principalmente, os Kamui, e o que os compõem. Questão esta que é aprofundada a cada capítulo, sem se perder o objetivo inicial da protagonista de vingar a morte de seu pai, com cenas de luta a cada episódio que fazem questão de preencher a ação proposta.

 Kill la Kill

Mais tarde é entendido que o mistério em volta dos Kamui e das fibras de tecido que os compõem – fibras de vida – é tão grande, que é essencial a história da própria vingança de Ryuko, havendo um círculo perfeito entre os arcos presentes na história e no final eletrizante composto por seguidos plot twists. Além disso, Kill la Kill consegue fazer observações pertinentes quanto a sociedade em que se passa a sua história, antes mesmo da criação da Academia Hinnouji, assemelhando-se até à nossa.

Antes de haver a Academia, o Japão retratado vivia sob um manto de violência e descrença – fazendo com que Kyriuin comparasse os humanos a porcos – de forma que a Academia é, na verdade, uma consequência (não ideal) disso. Ela apenas retrata o que já acontecia – e permanece acontecendo – fora dos muros da escola, havendo, em seu caso, a figura clara de uma líder de ferro.

Questões de nepotismo (relacionado a própria Kyriuin), totalitarismo, militarismo, hegemonia, entre outros, são abordados durante o anime, fazendo os telespectadores questionarem as consequências dessas ações e as semelhanças das cenas com a vida real. E mais: as críticas do anime são feitas entre doses momentâneas de humor, revezando-se estas entre o humor paspalhão e o humor negro relacionado a situações que poderiam acontecer no dia a dia real.

 Kill la Kill
“A estampa do meu pijama favorito é uma do Monte Fuji, três gaviões e três plantas.”

A história de Kill la Kill é primordialmente estruturada de forma a não haverem furos entre um acontecimento e outro. Vemos a questão sobre as fibras de vida se aprofundar a cada episódio, intrincando mais seu papel no desenvolvimento do anime até chegar ao desfecho.

 Kill la Kill

Kill la Kill é inteiramente um anime de ação, misturando o mote do anime das fibras de vida com cenas de luta espetaculares. As lutas são essenciais ao anime, assim como a história em si, podendo, assim, ser comparado com animes clássicos de luta como Dragon Ball e Naruto. O que o difere destes, contudo, é o fato do anime ser protagonizado por mulheres. A protagonista, a antagonista, a vilã, a amiga da protagonista/mocinha: todas são mulheres! E o melhor é que cada uma delas apresenta uma personalidade e características distintas, apresentando diferentes pontos de vista e camadas para a história de Kill la Kill. Toda a história do anime é trabalhada e construída por elas, de forma que elas são essenciais não apenas para a camada de vingança de Ryuko, mas para a questão das fibras de vida; de tal modo, a relação das mulheres com as fibras – incluindo em sua aparição e uso – são a coluna vertebral de Kill la Kill.

 Kill la Kill
Ragyo
 Kill la Kill
Nui Harime

É refrescante – e bem-vindo – ver um anime protagonizado majoritariamente por mulheres que não trata de assuntos socialmente tidos como  femininos, como romance, contos de fada e etc. Kill la Kill está completamente fora desse gênero. Ao contrário, além do desejo de Ryuko de encontrar quem matou seu pai, Kill la Kill traz à tona assuntos como totalitarismo, militarização e ganância.

Nele, apesar de haverem diversos personagens masculinos importantes, o protagonismo fica mesmo com as mulheres, já que são elas que tratam das questões importantes do anime, servindo como as verdadeiras heroínas e vilãs da história, e não simples acessórios, como normalmente acontece em animes do gênero de ação.

Mas há um porém.

Kill la Kill, infelizmente, não consegue fugir da velha sexualização do corpo feminino. Um ponto interessante disso, entretanto, é que Kill la Kill tenta apresentar essa sexualização – em muitos momentos – como uma escolha das mulheres. Isso se dá, por exemplo, no uso dos Kamui por Matoi e Kyriuin, em que para conseguirem usar todo o poder da roupa elas precisam abraçar essa sexualização e estarem seguras nessa situação.

“Que tipo de roupa depravada é essa?”

A questão da sexualização se torna mais evidente no fato de certos personagens masculinos serem bastante conscientes das roupas “sensuais” usadas pelas mulheres, tratando-as como indecentes ou tentando se aproveitar da situação.

 Kill la Kill
“Uma garota quase nua!”

O anime não tenta esconder que as roupas são sensuais ou o efeito que elas causam nos personagens masculinos presentes na história, porém, ele tenta apresentar a questão das roupas sensuais como algo que foi escolhido pelas mulheres que as usam, trazendo até mesmo um diálogo de Matoi com seu Kamui (Senketsu) sobre essa questão.

Já que o anime trata de roupas – fibras de vida – não é muito surpreendente ver como elas tem um papel importante na história, sendo isso demonstrado na relação das pessoas com as mesmas e no que elas representam para a sociedade em questão.

Se esse quesito de Kill la Kill for analisado sob um ponto de vista para a libertação do corpo feminino daquilo que lhe é determinado pela “moral e bons costumes”, trata-se de uma história progressista; porém, ainda é difícil aceitar em totalidade esse aspecto do anime na estrutura social em que vivemos, especialmente na indústria japonesa de desenhos, em que alguns dos mesmos são usados como pornografia misógina e sexista.

 Kill la Kill

É importante frisar também que apesar de homens também andarem quase nus no anime, a sexualização masculina e feminina não são a mesma coisa.

No geral, Kill la Kill consegue apresentar uma história original e com muito girl power, sendo o protagonismo feminino natural e essencial para o desenvolvimento da história. O anime traz também, infelizmente, questões de sexualização do corpo da mulher e de eventuais episódios de queerbaiting, sendo isso um ponto negativo da história. Entretanto, o fato do anime trazer o empoderamento feminino de forma tão natural e não como algo inovador e novo, é de se tirar o chapéu.


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