[LIVROS] Da poesia: As vozes femininas na obra de Hilda Hilst

[LIVROS] Da poesia: As vozes femininas na obra de Hilda Hilst

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Hilda Hilst foi uma das mais brilhantes poetisas brasileiras do século XX. Nascida em 21 de abril de 1930 (Jaú, São Paulo) e falecendo em 4 de fevereiro de 2004 (Campinas, São Paulo), a autora reuniu, ao longo de 45 anos, diversos escritos que se ramificaram em dramaturgia, prosa, tradução e poesia – e, para esta última, a editora Companhia das Letras atentou-se em compilar seus mais de vinte livros em uma única antologia, Da poesia, cuja temática desvenda a predominância do amor, morte, desejo e erotismo nos questionamentos e inquietações das mulheres.

Por 40 anos, Hilda foi, como ela mesma diz em entrevistas, uma “escritora séria”. Tantos eu líricos cantaram as dores e as delícias do amor, as angústias de sentir saudades da pessoa amada, as nuances e curvas do corpo desejado na hora do sexo, a morte como uma criatura amigável, familiar, causadora do fim de tudo; porém, mesmo sendo publicada por editoras independentes e aclamada pela crítica, a autora não possuía atenção suficiente dos editores que a publicavam. Esta era uma de suas grandes mágoas, que Hilda provavelmente carregou até o leito de morte (se estivesse viva, talvez se animasse mais com a propagação de sua obra nos anos 2000, que inspira novos escritores e apaixona “à primeira lida”). 

Da poesia Hilda Hilst

Hilda não teve o mesmo reconhecimento que Drummond ou Vinicius de Moraes, por exemplo, mesmo sendo igualmente genial e prolífica. A o quê (ou a quem) se direciona esse verdadeiro problema, se não ao machismo que silencia diversas escritoras ao longo de tantos séculos (e, infelizmente, até os dias de hoje)?

Foi com O Caderno Rosa de Lory Lamby (1990), livro em prosa de ficção pornográfica, que a autora buscou dar um basta em sua condição de anonimato e chacoalhar os editores que não a permitiam difundir mais seus escritos – um grande marco na literatura feminina brasileira, não apenas pela temática vista por muitos como ousada, como também na postura firme e decidida da autora, dando voz a tantas outras escritoras menosprezadas por seus trabalhos belíssimos. Ao fazê-lo, foi denominada “louca”. Em entrevista à TV Cultura, extremamente lúcida Hilda diz que o livro era “uma banana para os editores”. Bufólicas (1992), livro de poesia narrativa, também traz o tema erótico e “transgressor de regras” ao desconstruir os contos de fadas e adaptá-los para versões adultas.

Além do tema do desejo carnal e desenfreado, a morte também é um dos mais recorrentes nas obras da autora. O fascínio pela partida, pelo fim de tudo, fez com que ela estudasse a técnica de captura de vozes (EVP – Fenômeno da Voz Eletrônica, do inglês), inspirada nos estudos de Friedrich Jürgenson, um pintor sueco. Para tanto, Hilda instalou diversos microfones e gravadores pela Casa do Sol, seu sítio em Campinas, conectados a um intervalo de duas estações de rádio, a fim de capturar mensagens de pessoas que se foram.

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Em uma dessas experiências, Hilda diz ter ouvido claramente a voz da mãe falecida durante a transmissão de uma música francesa. A mãe sussurrara seu nome de forma muito emotiva e resguardada, mas suficientemente audível, o que serviu de base para uma entrevista de dez minutos, em 1979, para o programa Fantástico, da Rede Globo. Mesmo não seguindo uma religião, a autora transfere para sua poesia este misticismo instigante, capaz de levar a leitora ao questionamento da existência de um “Além”. 

A edição da Companhia também traz textos de críticos e amigos de Hilda sobre a vida e a obra da autora, como Lygia Fagundes Telles, célebre escritora brasileira, autora de Antes do Baile Verde e As Meninas

Da poesia Hilda Hilst

Um dos últimos feitos de Hilda em vida, foi se reunir na Casa do Sol com o músico Zeca Baleiro para permitir que o artista musicasse alguns de seus poemas, interpretados por cantoras como Maria Bethânia, que deu origem ao disco Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé, lançado em 2005. As canções cantam a história de amor de Ariana e Dionísio, personagens da obra Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974). 

III

A minha Casa é guardiã do meu corpo

E protetora de todas minhas ardências.

E transmuta em palavra

Paixão e veemência

E minha boca se faz fonte de prata

Ainda que eu grite à Casa que só existo

Para sorver a água da tua boca.

A minha Casa, Dionísio, te lamenta

E manda que eu te pergunte assim de frente:

À uma mulher que canta ensolarada

E que é sonora, múltipla, argonauta

Por que recusas amor e permanência?

***

Sendo de forma escrita, ouvida, dramatizada: leia Hilda Hilst. Leia mulheres! 


Da poesia Hilda Hilst Da Poesia

Autora: Hilda Hilst

Ano: 2017

581 páginas

Companhia das Letras

Este livro foi cedido para resenha pela editora

Onde comprar: Amazon

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Autora

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É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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