[LIVROS] A Vida Imortal de Henrietta Lacks: Racismo, invisibilidade e violência

[LIVROS] A Vida Imortal de Henrietta Lacks: Racismo, invisibilidade e violência

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A vida imortal de Henrietta Lacks é uma biografia narrada em primeira pessoa, pela autora Rebecca Skloot, que tenta resgatar a história da mulher que deu origem à linhagem de células HeLa, sem as quais muitos dos maiores avanços da ciência talvez nunca tivessem acontecido.

Suas células fizeram parte de pesquisas de genes que causam câncer e daqueles que o suprimem. Ajudam a desenvolver remédios para tratamento de herpes, leucemia, gripe, hemofilia e mal de Parkinson, e têm sido usadas para estudar a digestão da lactose, doenças sexualmente transmissíveis, apendicite, longevidade humana, acasalamento dos mosquitos e os efeitos celulares negativos de trabalhar em esgotos.[…]

Rebecca começa o livro nos contando quando e como começou a se interessar por Henrietta (que primeiro conheceu como apenas HeLa) e acaba nos envolvendo em sua jornada investigativa atrás da história daquela mulher negra, que viveu em plena segregação racial nos EUA, com a Lei Jim Crow* em pleno vigor, e morreu de câncer em 1951, deixando um legado imensurável para a humanidade e milionário para indústria farmacêutica.

Desta forma, a obra é um respeitoso resgate histórico da vida de Henrietta Lacks, mas que não se limita a apenas isto, pois se propõe a explorar também o contexto histórico, científico e legal dos Estados Unidos – daquela época em que a segregação racial estava em seu ápice.

Henrietta Lacks

Outro fator interessante é que a todo momento percebemos o cuidado que a autora teve em não se apropriar nem do discurso e nem da história de Henrietta e seus parentes. Isto porque, diferentemente de grande parcela da população privilegiada – majoritariamente branca, Rebecca tinha noção da sua condição de mulher branca e de classe média. Inclusive, narra sem pudor os conflitos e estranhamentos que isso causou durante a sua pesquisa, já que ela, em um primeiro momento, não passava de mais uma pessoa branca que vinha atrás de respostas, mas que em nada contribuía para a vida da família Lacks, que sequer sabia ou entendia o que eram as tais células HeLa.

[…] “Sim”, respondi, achando que ele estava perguntando se Deborah sabia que eu estava ligando.

“Então vai conversar com as células da minha mulher e me deixa em paz”, ele disparou. “Já me enchi de vocês.” E desligou.

Ao longo do livro vamos conhecendo a história de Henrietta e das suas células que, coletadas sem sua permissão ou ciência, revolucionaram a medicina.

Cabe destacar que para além do debate ético ou jurídico sobre a coleta e propriedade das células HeLa, o que a autora aborda com maestria e didática, fica pungente o debate racial. Principalmente porque estamos falando de um país que não possui um Sistema Único de Saúde (SUS) e cujo atendimento e tratamento médico é ou remunerado ou filantrópico. E nós sabemos pela nossa história racista e escravagista quem mais sofreu e sofre com a falta e/ou escassez de acesso à saúde básica e gratuita.

Além disto, como bem mostra o livro, é também o país que, a exemplo da Alemanha nazista, fez vários testes e experimentos desumanos em pessoas negras, muitas vezes de forma forçada ou sem a ciência dessas (quando tratavam gratuitamente determinada doença e injetavam outras para estudar seus efeitos). O que nos leva a questionar o preço dos avanços tecnológicos e científicos da medicina dita moderna.

A carne mais barata do mercado é a carne negra 

Fazendo uma analogia, se pudéssemos resumir a vida de Henrietta e de sua  família em uma música, não poderia ser outra senão A carne, da cantora Elza Soares:

https://youtu.be/1YmBHAu-oeg

Do ponto de vista clínico, a sra. Lacks nunca se deu bem. […] Como Charles Dickens disse no princípio de Um conto de duas cidades: “Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos”. Mas foi o melhor dos tempos para a ciência pelo fato de que aquele tumor tão peculiar deu origem à linhagem de células HeLa.[…] Para a sra. Lacks e a família que ela deixou, foi o pior dos tempos. O progresso científico e, aliás, qualquer espécie de progresso, geralmente se dá a um custo alto, como o sacrifício feito por Henrietta Lacks. (Trecho do artigo escrito por Howard Jones, um dos médicos que diagnosticou o tumor de Henrietta)

Não bastasse o racismo, a segregação, a pobreza e demais marcadores de violência e exclusão social, vemos na vida de Henrietta uma vida marcada pela violência doméstica (física, psicológica e sexual) desde a primeira infância até a sua morte. No entanto, apesar dessas serem informações importantes para entendermos diversos desdobramentos da vida dela e de sua família, principalmente depois de seu falecimento, a autora tentou também nos mostrar uma Henrietta que não se definia apenas pela violência contra ela projetada. Vemos uma jovem que gostava de dançar, uma mãe presente, uma prima/amiga fiel, uma mulher forte e batalhadora.

Vemos, acima de tudo, um ser humano e não apenas um conjunto de células que a medicina fez questão de “apagar” da sua história através da invisibilidade. Assim, deveria ser uma obrigação social e histórica das Universidades de Medicina, resgatar a origem das células HeLa e da mulher que as originou: Henrietta Lacks.

Henrietta Lacks
Henrietta Lacks por volta de 1945/1950. Foto: Reprodução.

A história de Henrietta é uma história que merece e precisa ser contada, não só pelo seu valor cultural, mas principalmente pelo seu valor simbólico, pois precisamos lembrar e aprender com o nosso passado, sob pena de repeti-lo ou pior, perpetuá-lo.

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POR DENTRO DO LIVRO

A biografia de 464 páginas conta com uma introdução da autora, explicando, de forma resumida, como o livro se deu. Logo em seguida temos o prólogo onde ela relata sobre “a mulher na fotografia”, e por fim, os capítulos. Vocês podem conferir um trecho do livro clicando aqui.

Outra parte interessante de A Vida Imortal de Henrietta Lacks são as fotografias de importantes fatos históricos, bem como da própria Henrietta e sua família, o que agrega um valor muito grande à obra e enriquece a leitura. E por fim, o livro traz um apêndice chamado “onde estão eles agora”, onde Rebecca conta um pouco da vida presente de todas as pessoas citadas no livro.

CURIOSIDADES

Rebecca Skloot criou uma fundação chamada Henrietta Lacks Foundation, para reverter parte dos lucros com o livro e receber doações. A Fundação tem como papel primordial auxiliar as pessoas que tiveram as suas vidas direta e indiretamente impactadas com os mais diversos experimentos realizados, principalmente, com a população negra e pobre. Outra curiosidade é que a biografia foi adaptada pela HBO em 2017, e parece ser tão forte quanto o livro.

  • *Lei Jim Crow é o apelido pejorativo dado ao sistema formal e informal de segregação racial, que por muito tempo vigorou nos EUA, legitimando todo o tipo de violência simbólica e física contra a população negra, o que, muitas vezes, resultava no assassinato e genocídio da mesma. Leitura recomendada: O pesadelo americano.

Henrietta Lacks A Vida Imortal de Henrietta Lacks

Autora: Rebecca Skloot

Companhia das Letras

464 páginas

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Autora

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É viciada em Lego, apaixonada por ficção científica/terror/horror, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif’s e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada.
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