[CINEMA] O Animal Cordial: O medo e seus desdobramentos (crítica)

[CINEMA] O Animal Cordial: O medo e seus desdobramentos (crítica)

As regras sociais e de conduta existem como forma de controle para que possamos viver em sociedade de forma civilizada. O que fazer quando o medo e o abandono social se transformam em revolta e nos levam à nossa condição mais primitiva? O Animal Cordial nos convida a descobrir até onde somos capazes de chegar quando somos colocados à prova.

O Animal Cordial, longa de Gabriela Amaral Almeida, teve sua estreia nos cinemas dia 09 de agosto. Gabriela Amaral (“Uma Primavera”, “A mão que afaga” e “Estátua”), jovem roteirista, dramaturga e diretora, estreia com êxito seu primeiro longa, um thriller ou slasher – como a diretora prefere se referir ao gênero de seu filme – um filme que explora a condição humana de forma mais primitiva. O restaurante de Inácio (Murilo Benício), um espaço acanhado e com ares de bistrô francês, é invadido por dois homens atrás do dinheiro do caixa. O que parecia um simples assalto, sai de controle, e o inimaginável acontece.

Provocando a espectadora com cenas fortes e excessivas, O Animal Cordial consegue entregar um filme que desnuda seus personagens de suas amarras sociais e práticas de boa convivência (cruciais numa sociedade), permitindo que comportamentos inesperados e irracionais submerjam e, dessa forma, proporcionem à diretora a possibilidade de explorar – de forma bem impactante – questões relativas às relações de trabalho (patrão e empregado), gênero e até abusos em relacionamentos entre homens e mulheres. Preparem-se para um filme com muito sangue, altamente agressivo, mas que provoca reflexão sobre os limites de cada indivíduo e de suas expectativas em relação ao outro.

O Animal Cordial

Inácio (Murilo Benício) é o catalizador das emoções que surgem ao longo do thriller, o grande provocador desse filme. Seu restaurante sobrevive às custas de seu chefe de cozinha Djair (o sempre brilhante Irandhir Santos) e sua equipe, que trabalha em turnos intermináveis e sem reconhecimento de Inácio, que exige sempre receitas criativas e realizadas com primor.

Djair é um homem que se traveste de mulher, mas que revela certa ambiguidade de gênero. Sujeito forte, justo e decidido, cozinha as receitas de sua família e os pratos que habitam sua memória afetiva. Parece liderar sua equipe de cozinha e se coloca entre Inácio e os demais funcionários, lutando por melhores condições de trabalho. Patrão e empregado (Inácio e Djair) vivem uma relação que parece ambígua e sugestiva; Inácio não cozinha e seu restaurante depende completamente dos pratos deliciosos que seu chefe de cozinha prepara.

Num olhar mais atento é possível observar que, por conta dessa dependência, uma relação de controle e poder se estabelece entre eles, o que os deixa numa situação limite e o confronto fica inevitável. A aparência física de Djair – que se veste como mulher e carrega com orgulho uma linda cabeleira comprida – só aumenta o desconforto entre patrão e empregado. Além dos funcionários da cozinha, trabalha no restaurante Sara (Luciana Paes – que já trabalhou com Gabriela no curta “A mão que afaga”, 2012).

Sara mantém um amor platônico por Inácio. Este, por sua vez, não parece notar ou se importar muito com a moça e acaba se valendo da disposição e presença constante dela em seu favor. Numa relação que parece simplesmente de trabalho, Sara vai construindo a fantasia de que Inácio pode se interessar por ela e aproveita cada situação para demonstrar sua lealdade ao patrão.

O Animal Cordial

Na noite em que acontece o assalto, está no restaurante um cliente bastante incomum e que suscita certo desconforto em todos. Trata-se de Amadeu (Ernani Moraes), homem com ar austero e solitário, que escolhe um coelho para seu jantar. Por tratar-se de um prato sofisticado e demorado, toda a equipe da cozinha fica contrariada, mas acaba se rendendo por ser esse o último cliente da noite. Porém, antes que Inácio tivesse a chance de fechar o restaurante, entra no estabelecimento um casal – Verônica (Camila Morgado) e Bruno (Jiddú Pinheiro), o que enlouquece a todos.

Verônica e Bruno formam um casal barulhento, exibicionista e esnobe, desses que humilham o pessoal do serviço e deixam claro que entre eles e os que o servem há uma clara diferença. A partir daí tudo sai de controle. Inácio mantém o tempo todo uma fachada de tranquilidade e controle, age com cordialidade com todos, inclusive com seus funcionários, mas em seu íntimo e nos momentos em que se encontra sozinho tem grandes oscilações de humor e descontrole, está à beira de um colapso. A coisa toda fica descontrolada e beirando o surreal quando os dois assaltantes entram no restaurante.

O Animal Cordial

Nuno (Ariclenes Barroso) e Magno (Humberto Carrão) invadem o local e anunciam o assalto, agem com truculência e atacam Verônica sexualmente. Toda uma sucessão de reações absurdas e emoções impensáveis sucedem daí para frente. Nesse estágio, o filme já construiu seus personagens e suas motivações. Temos agora um “empresário” numa situação delicada com seu negócio e que gerencia muito mal seus recursos humanos; por outro lado, uma equipe de funcionários exaustos e totalmente desmotivados. Já entendemos que Sara é capaz de qualquer coisa por reconhecimento e atenção, e que os clientes se encontram agora despidos de seus “poderes” baseados em preconceitos sociais e de classe.

Inácio e Sara agora deixam de lado toda a polidez e cordialidade necessárias para um convívio social – esperado para quem gerencia um negócio como um restaurante – e assumem as rédeas desse cenário improvável que se construiu. Por algumas horas, os dois deixam de lado tudo aquilo que convenciona o ser humano em ser social.

O Animal Cordial nos convida a presenciar essa cena, onde tudo que é podre e desprezível no ser humano está literalmente posto à mesa. Não há regras, dinheiro, posição social, classe, orientação sexual e abusos que passem desapercebidos, é como se a diretora tivesse propositadamente colocado todos esses temas no mesmo espaço. O resultado é quase catártico. Todos vivem aquelas horas de horror como se não houvesse moral, consequências ou regras, somente essas pessoas sofridas e desesperadas com suas vidas infelizes, além de confusas sobre quem são.

O Animal Cordial

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Filmes do gênero slasher podem ser uma ótima ocasião para tratar de assuntos tão atuais e absurdos, como os que vivemos e presenciamos em nossa sociedade. O grotesco e o absurdo permeiam nosso cotidiano. Nos noticiários vemos crimes hediondos e inimagináveis e em nosso redor conhecemos histórias ou pessoas que aparentemente levam uma vida “normal”, como qualquer outro indivíduo, mas que em seu íntimo sofrem sem encontrar solução para seus problemas. Mas o “normal” tem muito mais relação com o que é socialmente aceitável e construído para vivermos em comunidade, do que para nos mantermos sãos em meio ao caos.

E é no meio do caos político social (econômico, educacional, de direitos humanos e de igualdade de gênero) que nossa sociedade se encontra. As instituições faliram e a ideia de um sujeito absurdo que se comporta de forma irracional, como consequência desse abandono do Estado, é uma excelente forma de discutir o comportamento atual de nossa comunidade. A ausência de um Estado que garanta direitos à sua população gera medo, e o medo é o celeiro para ideias estapafúrdias. O Animal Cordial fala de uma sociedade que tem medo. Por isso, vale mencionar que nesse momento em que as eleições se aproximam devemos agir com cuidado e com atenção aos discursos de alguns candidatos mal intencionados, que se valem do medo para conseguir votos e ter êxito em seus propósitos eleitoreiros. Violência e intolerância são sintomas a serem combatidos, não caiam nessa cilada! 

Já publicamos no site um texto sobre um filme do mesmo gênero slasher e que aborda de forma absurda, mas bem clara, a questão do patriarcado e o abuso sofrido por milhares de mulheres diariamente. Leia aqui.

O Animal Cordial estreou dia 09 de agosto nos cinemas.

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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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