O Professor Substituto: até que ponto vai a apatia?

O Professor Substituto: até que ponto vai a apatia?

A escola é onde todas as experiências começam. É nesse lugar que vivenciamos as primeiras experimentações de alegria e frustração, seja por causa daquela prova em que você não foi muito bem até o crush não correspondido do coleguinha. No ensino médio, algumas experiências adquirem um caráter mais sombrio com a chegada da adolescência. A escola passa, então, a ser um inferno na terra. Do bullying até a sensação de pertencimento a um grupo, a escola não está preparada para entender uma das fases mais difíceis da vida.

O Professor Substituto, filme em cartaz na edição 2019 do Festival Varilux de Cinema Francês, mostra todo o lado sombrio da adolescência pela perspectiva do professor de francês, Pierre (Laurent Lafitte), que acaba chegando à escola depois de um professor de geografia cometer suicídio na frente de seus alunos.

A partir da chegada do professor substituto, a espectadora mergulha em um thriller envolvente que, além de muito bem desenvolvido psicologicamente, a ponto de quase duvidarmos do narrador principal, Pierre, discute a pressão a qual os adolescentes estão submetidos – e as soluções encontradas por eles para sair dela.

filme de Sébastian Marnier
Cena de “O Professor Substituto” (Imagem: reprodução)

“O Professor Substituto” é o segundo filme de Sébastien Marnier e foi inspirado no livro homônimo de Christopher Dufossé. O interessante é que o título em francês evoca uma música homônima dos anos 60, interpretada pela cantora Sheila, mas ao contrário da escola descrita pela intérprete na música, a do filme é um ambiente hostil e de muita hipocrisia.

Após o suicídio do professor de geografia, a primeira medida do diretor Poncin (Pascal Greggory) é chamar imediatamente alguém para substitui-lo. Isso porque a turma afetada pelo suicídio do professor é a mais inteligente da escola, com alunos intelectualmente precoces. Estavam sendo preparados para o BAC, a mais importante prova francesa, que garante o ingresso na universidade.

Como a escola preza muito por sua reputação, diretamente ligada ao desempenho dos alunos, Pierre é chamado às pressas. Aqui, já podemos perceber a postura displicente do estabelecimento, algo que perpassa o filme. Os professores são apáticos e indiferentes ao que acontece aos alunos; é como se estivessem vivendo como zumbis, como se a morte fosse algo muito banal, indigna de luto.

Adolescentes dizendo algo sobre a época em que não viverão

Cena de "O Professor Substituto"
Cena de “O Professor Substituto” (Imagem: reprodução)

Ao começar a dar aula para os adolescentes dotados intelectualmente, Pierre começa a perceber que há algo errado com eles. À primeira vista, soam arrogantes por saberem mais do que o professor, mas ele percebe que não é bem isso. Começa, então, a busca de Pierre para entender o que está acontecendo a seus alunos. O diretor insere detalhes bastante interessantes para ilustrar a busca que acaba virando uma obsessão por seus alunos. Um deles é a tese sobre Kafka que Pierre está escrevendo.

É difícil não associar o livro “A Metamorfose ao que acontece a Pierre, porque, do dia para a noite, ele se enxerga outra pessoa. Ao longo do filme, baratas invadem (ou será que foram colocadas lá?) sua casa, uma clara analogia ao livro também. Além disso, há algo na mise-en-scène que lembra a atmosfera claustrofóbica de “Repulsa ao Sexo“, filme de Roman Polanski, mas diferentemente das paredes que se desintegram do diretor polonês, temos a natureza e os animais que sofrem esse processo ao longo da trama.

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Em “O Professor Substituto”, por trás do ar de superioridade dos alunos, esconde-se um profundo descaso pela vida, empatia e uma consciência dolorosa do mundo que está sendo deixado para eles. Isso é evidenciado através da descoberta de uma caixa preta, quando Pierre segue seus alunos até uma pedreira, perto da escola. A caixa preta é onde estão registradas todas as gravações de um avião e ela é usada para solucionar causas de acidentes aéreos. Já na caixa preta dos alunos, também existem gravações, mas em DVD. Pierre acaba roubando um dos volumes, a fim de assistir em casa.

O Professor Substituto
Cena de “O Professor Substituto” (Imagem: reprodução)

Distopia, a aceitação de mundo dos adolescentes e a indiferença dos adultos

O que os DVDs mostram são imagens de desastres, de animais morrendo pela indústria da carne, intercaladas com cenas dos jovens em situações autodestrutivas, como levando socos e tentando se afogar. As imagens têm poder e elas deixam uma mensagem sobre a era em que esses jovens estão vivendo: uma distopia em um mundo dilacerado por desastres ambientais e atentados. Como bem coloca Eliane Brum em seu artigo O Suicídio dos que Não Viram Adultos neste Mundo Corroído:

“Os adolescentes de hoje herdarão um mundo corroído pela mudança climática provocada pelas gerações anteriores, incluindo a de seus pais, onde a água vem se tornando o grande desafio e a paisagem já começa a ser desfigurada. As séries de TV, principal produto cultural e também de entretenimento, expressam o sentimento dessa época: um presente que já é uma distopia e a impossibilidade de imaginar um futuro que não seja apocalíptico.”

Há, da parte dos jovens de “O Professor Substituto”, uma incapacidade de imaginar um futuro bonito, pois o mundo é um lugar hostil. Uma fala de Pierre é muito elucidativa nesse sentido: ele pergunta aos seus alunos por que eles não podem ser leves. Sabemos que o mundo dos adultos não é fácil e muitas vezes nos abstemos do que acontece lá fora justamente para não entrarmos em colapso. Não é o caso dos nossos adolescentes.

A adolescência é uma fase de questionamentos e descobertas e não é à toa que eles são os únicos a carregarem essa visão pessimista sobre o mundo. Os adultos do longa “O Professor Substituto” vivem como zumbis, andando pela vida e a aproveitando como dá. É como se já tivessem aceitado que as coisas devem ser assim.

O comportamento autodestrutivo dos alunos fala muito sobre nós enquanto sociedade. Em uma das cenas, Clara (Adèle Castion) é enrolada em plástico-filme e atirada dentro de uma piscina. O objetivo é que ela teste seus limites e fique embaixo d’água o maior tempo possível. Esse comportamento evidencia que os adolescentes tentam chegar a um patamar em que não sintam dor, porque adultos têm um comportamento muitas vezes apático em relação às coisas – e é isso que os adolescentes tentam copiar.

O Professor Substituto
Cena de “O Professor Substituto” (Imagem: reprodução)

Autodestruição e a tecnologia

Outro ponto interessante das gravações dos adolescentes em “O Professor Substituto” é a autodestruição enquanto narrativa. Além de vivermos na sociedade do espetáculo, que transforma tudo em circo, as redes sociais também estão aí, ou seja, a regra é registrar tudo no celular por meio de vídeos ou fotos. Deixamos traços nas redes todos os dias. Há uma ideia romântica e brutal em deixar tudo registrado; a tecnologia inflou todas as possibilidades de alcance. Embora a internet não seja abordada no filme, criar os DVDs para registrar toda a autodestruição é uma forma de se apropriar das narrativas das mídias sociais.

Não ensinamos os jovens a conviver com o fracasso e nem com a dor. São criados para serem campeões, como é o caso dos superdotados do longa “O Professor Substituto”. Comportamentos competitivos são incitados pela escola do filme e ninguém se importa com as consequências de pressionar a turma especial para ser a melhor.

O Professor Substituto” é um thriller muito bem construído, com uma virada bastante inesperada. O que poderia ser uma simples obsessão de um professor acaba virando uma crítica contundente em relação a nossa postura no mundo e à apatia com a qual aceitamos tudo de ruim que acontece ao planeta.


Edição realizada por Gabriela Prado.

Autora:

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Tradutora e noveleira. Criou, em 2014, o canal sobre cinema clássico no YouTube, o Cine Espresso, para espalhar na Internet o amor pelos filmes esquecidos. Gosta de chá preto acompanhado de um bom livro.
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