Big Little Lies – 2ª temporada: todas unidas contra a violência cotidiana

Big Little Lies – 2ª temporada: todas unidas contra a violência cotidiana

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Uma vez o músico Cazuza disse “só as mães são felizes”. Será? As mães são o tipo de entidade a quem o imaginário coletivo romantiza. Elas necessariamente precisam ser felizes, porque têm a sua família, porque seus filhos e sua família as completam. À mãe, não é concedido o benefício do prazer ou do erro. A segunda temporada de “Big Little Lies“, série da HBO, mostrou essa questão de forma sensível e dura ao retratar o cotidiano de cinco diferentes mães.

Através das trajetórias dessas cinco mães que vivem em Monterey, na Califórnia, percebemos como as mulheres são desacreditadas socialmente. Desacreditadas por não serem perfeitas. Aliás, essa cobrança irreal que se estabelece às mães é uma crítica importantíssima na atual sociedade do desempenho; cobram das mães que elas devem dar conta de tudo, que devem se dedicar exclusivamente para a família e que devem sentir culpa se querem ter uma carreira.

As mães são cobradas por tudo, inclusive pela sobrecarga da vida não escolheram; são exclusivamente elas as culpadas pelo seu desequilíbrio emocional e a segunda temporada de “Big Little Lies” deixa bem evidente, de uma forma cruel, a realidade das mulheres que são culpabilizadas por tudo que acontece com elas, seja qual for o contexto.

Vidas entrelaçadas e apoio entre mulheres na segunda temporada de “Big Little Lies”

Big Little Lies
Cena da segunda temporada de “Big Little Lies” (Imagem: HBO/reprodução)

Na segunda temporada de “Big Little Lies“, mais do que tratar dos desdobramentos da morte do personagem Perry Wright (Alexander Skarsgård), a série fala sobre violência, em grande parte sobre as marcas que a violência cotidiana imprime na vida das mulheres e em como essa violência pode ser abafada pelo cotidiano, pela vergonha e pela culpa, em como o despreparo emocional pode marcar a vida inteira de uma pessoa e em como ela se amplifica visto pelo olhar de uma criança.

Contudo, a violência, quando praticada desde a infância, pode trazer consequências inimagináveis na vida de uma pessoa. Vemos através da história da segunda temporada de “Big Little Lies” as trajetórias de mulheres fortes, que, apesar da ferida exposta e do trauma sofrido, seguiram em frente, tentando buscar motivação para suas vidas, e através de um episódio catártico, que reuniu a história de vida das cinco protagonistas, a morte ressignificou o trauma e as libertou do sofrimento.

O fato é que o que aconteceu na Festa da Trivia mudou completamente a vida de Celeste (Nicole Kidman), Madeline (Reese Witherspoon), Bonnie (Zoe Kravitz), Jane (Shailene Woodley) e Renata (Laura Dern). Essas cinco mulheres, depois de terem suas vidas entrelaçadas neste fatídico episódio, aprendem a compreender o sofrimento da outra, desenvolvendo uma relação empática que seria improvável de conceber durante a primeira temporada da série.

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Cena da abertura da segunda temporada de “Big Little Lies” (Imagem: HBO/reprodução)

Portanto, a partir da mentira que inventaram, provocada pelo medo de serem julgadas, uma reação frente aos traumas que sofreram à vida inteira, essa insólita amizade se transformou entre elas em um grupo de apoio. Todas elas, que sofreram por serem violentadas por quem um dia confiaram, encontraram uma nas outras o apoio que se fazia necessário e assim conseguiram quebrar os círculos viciosos de abuso em suas vidas, e embora a morte de Perry tenha sido realmente um ato de legítima defesa, esse acontecimento assombra a vida das “cinco de Monterey” através do ingresso de uma nova personagem na trama. A atriz Meryl Streep entra em cena numa atuação avassaladora como a sogra de Celeste, Mary Louise Wright.

Quando o trauma se torna motivo de opressão

Mary Louise (Meryl Streep)
Mary Louise (Meryl Streep) na “Big Little Lies”. Imagem: HBO (reprodução)

Primeiramente, a mãe de Perry se mostra uma mulher sofrida, marcada pelo trauma de perder os dois filhos prematuramente, um deles ainda criança. Ela viaja para a cidade inicialmente com o pretexto de ajudar Celeste com os gêmeos, porém sua atitude sorrateira evidencia que ela está na verdade decidida a descobrir o que de fato aconteceu naquela noite. Contudo, ao longo da trama sua presença se atravessa em outras narrativas que envolvem todas as cinco mulheres presentes no dia da morte do filho.

Dessa forma, Mary Louise tem como objetivo único resgatar a imagem de Perry, a quem recusa o passado violento de forma enérgica, tentando desacreditar Celeste e suas quatro amigas, e isso se torna ainda mais indigesto quando ela coloca em dúvida o estupro sofrido pela personagem Jane (Shailene Woodley); uma prática, aliás, muito comum, quando uma vítima de estupro decide denunciar o crime.

Big Little Lies
Ziggy (Iain Armitage) e Jane (Shailene Woodley) em “Big Little Lies” (Imagem: HBO/reprodução)

Nesse sentido, a falta de humanidade em banalizar um ato tão hediondo, culpabilizando a vítima, é exatamente o que faz com que as mulheres não denunciem seus agressores, e embora tenha assumido em muitos momentos na série atitudes vilanescas, também enxergamos em Mary Louise a amargura de uma mãe que não superou as perdas que sofreu.

Apesar de ter em Mary Louise um elemento novo no enredo, a culpa com relação à mentira que inventaram recai sobre as cinco protagonistas. A partir da narrativa de Bonnie (Zoe Kravitz), podemos perceber a trajetória do ciclo da violência. Na segunda temporada conhecemos um pouco mais de sua história e através dela entendemos o quanto fez sentido ela ter empurrado Perry naquela noite. Porque aquele empurrão significava um basta. Um basta na violência contra todas as mulheres, contra a violência que ela mesma sofreu. E a partir do momento que descobrimos sobre o relacionamento abusivo que Bonnie nutria com a sua mãe, mais uma questão importante sobre a relação entre mães e filhos é abordada em “Big Little Lies”: a maternidade tóxica.

Como já dissemos, há uma idealização romântica sobre a maternidade, que permeia o imaginário coletivo, sobretudo no que diz respeito à doçura e afeto com que as mães transmitem aos filhos. Sabemos que, por diversas questões, há diversos tipos de maternidade, porém talvez a mais nociva seja a maternidade tóxica; seja pela importância que a figura materna tem na formação do caráter de uma pessoa, ou simplesmente pela desumanidade da capacidade de ser cruel – não somente com uma criança, mas com uma criança que deposita na figura da mãe todas as expectativas possíveis, porque ela é o seu próprio universo.

A relação de agressividade da mãe de Bonnie com ela mostra bem essa questão, também desnudada através da própria relação de Mary Louise com o filho o Perry, a quem culpou agressivamente pela morte do irmão. Portanto, a relação violenta que Mary nutriu com o filho, acabou resultando na formação de um adulto agressivo com as mulheres. Seria essa relação, talvez, algo inconsciente de uma agressão que sofreu na infância?

As lutas de uma mãe após o caos

Celeste (Nicole Kidman)
Celeste (Nicole Kidman) com seus filhos durante a icônica cena do tribunal em “Big Little Lies”. Imagem: HBO (reprodução)

Todavia, quem sofreu diretamente com essa consequência foi Celeste (Nicole Kidman), cuja história centraliza o enredo da série. Seus conflitos internos evidenciavam a relação de culpa que nutre uma mulher por ter feito algumas escolhas na vida; uma delas, a opção entre família e carreira ou, talvez, entre abnegação e prazer. Embora dividida entre a sentimento e a dor, Celeste acabou sendo atraída para um ciclo abusivo que a arrastou para a autodestruição e foi exclusivamente culpada por isso, de forma desumana.

É comovente a maneira honesta em que ela assumiu o porquê de permanecer em um casamento abusivo. “Eu sempre achava que ele ia melhorar.”  E essa fala é tão poderosa, se pensarmos que essa realidade é tão comum às mulheres – e isso não deveria ser aceito. Mas, se no início da série Celeste se mostrava passiva, a disputa contra Mary Louise a tornou gigante, e foi justamente como advogada, defendendo seus filhos, que ela reencontra seu caminho.

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Contudo, também é preciso destacar o quanto a personagem Renata brilhou nessa temporada, interpretada de forma magistral por Laura Dern. A mulher arrogante e impositiva acaba por sofrer um inferno astral na continuação da série e é esse caos que faz surgir a versão mais autêntica da personagem. A partir das inúmeras traições sofridas pelo marido, falida e sem perspectiva, mesmo assim ela decide seguir em frente, acreditando em si mesma, não importa o que aconteça.

Um basta nas mentiras e a mensagem de “Big Little Lies”

Big Little Lies
Cena final da segunda temporada de “Big Little Lies” (Imagem: HBO/reprodução)

A segunda temporada de “Big Little Lies” fecha a história das cinco de Monterey com um final real. Juntas, elas decidem acabar com a mentira, não somente “a mentira” que inventaram na noite beneficente, mas a mentira que permeava suas vidas. É melhor viver um mundo de aparências ou viver a vida de forma autêntica? Embora marcadas pelas consequências dos traumas que sofreram, todas perceberam que precisavam dar um basta, precisavam tomar a rédea de suas próprias vidas.

Não se sabe se “Big Little Lies” terá, de fato, uma terceira temporada, embora as atrizes Reese Witherspoon e Nicole Kidman tenham deixado essa possibilidade em aberto. Porém, a série cumpriu a sua missão até o momento: mostrar uma história que questiona sobre uma visão opressiva do feminino na sociedade e em como esse imaginário precisa ser desconstruído.

Por fim, mais do que os traumas e os conflitos que elas carregam, a mensagem principal de “Big Little Lies” é sobre a amizade entre mulheres. Nós, mulheres, precisamos nos apoiar mais, nos unir e acreditarmos mais umas nas outras. A união dessas cinco mulheres de Monterey as transformaram. Não para melhor ou pior, mas para o que elas queriam ser.

Renata Klein (Laura Dern)
Renata Klein = tudo pra mim (GIF: HBO/reprodução)

Edição realizada por Gabriela Prado.


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Autora

Jornalista, escritora e pesquisadora em comunicação. Cultua bons livros e adora conversar sobre música, filmes e series, ainda mais se for acompanhada de uma taça de vinho ou uma xícara de café.
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