Papicha: a aliança feminina contra a opressão

Papicha: a aliança feminina contra a opressão

Papicha” (gíria argelina para “jovem bonita”) conta a história de Nedjma (Lyna Khoudri), uma jovem universitária que se recusa a deixar de levar uma vida normal em meio à guerra civil na Argélia dos anos 90. Apaixonada por design de moda, ela ganha dinheiro costurando e vendendo vestidos para outras jovens, combinando a entrega em boates pela cidade. Para chegar nos locais, ela sai escondido da universidade onde mora, subornando o porteiro e escapando por fendas na grade de metal junto com sua amiga Wassila (Shirine Boutella). 

A resistência feminina no cotidiano

Tudo que Nedjma quer é se divertir, estudar, e exercer o ofício que tanto gosta. Ela vive numa família bem ajustada, com uma irmã e mãe amorosas. Esse afeto também se estende a suas amigas na universidade, que estão sempre juntas e se apoiando, tanto nos momentos de alegria quanto nos de dificuldade.

Papicha é um filme de Mounia Meddour
Cena do filme “Papicha”, dirigido por Mounia Meddour. (Imagem: reprodução)

Esse é o ponto mais reconfortante de “Papicha“: o foco na sororidade feminina. A diretora Mounia Meddour não está interessada em fazer um contexto histórico da guerra civil, mas sim em retratar a experiência feminina em meio a um ambiente de crescente conservadorismo e radicalização, algo que infelizmente ainda ecoa nos dias de hoje.

Trazendo elementos autobiográficos para compor a história de sua protagonista, a diretora aposta muito mais em construir uma narrativa sensorial e emotiva das situações vividas, e isso pode até mesmo causar algum desnorteamento em relação à trama. Por exemplo, não temos certeza de quanto tempo se passa entre alguns acontecimentos no filme, para entender melhor como os personagens estão reagindo a eles. 

A cultura influencia a leitura do filme

Há também o risco de que uma espectadora que não tenha lido a sinopse possa achar que se trata de mais um caso de ataques radicais islâmicos atuais, já que essa é a narrativa dominante que vemos sobre o Oriente Médio nos jornais, e o filme não faz nada para contextualizar os eventos ocorridos.

A leitura invariavelmente também será impactada pela cultura em que a espectadora vive. De acordo com o professor Salem Nasser, no debate sobre o filme, ocorrido no Petra Belas Artes em São Paulo, as cenas de “Papicha” em que temeríamos, enquanto ocidentais, uma violência sexual, no mundo árabe não oferecem perigo, como quando um homem insistente segue Nedjma pela escadaria jogando cantadas, ou quando ela está dentro de um táxi fechado com outro homem.

A leitura que cada espectadora fará, sem esse conhecimento prévio, vai depender então da familiaridade dela com esse contexto. No Brasil, no entanto, ficaríamos extremamente apreensivas com algumas das situações pelas quais a protagonista passa.

A atriz Lyna Khoudri em cena de “Papicha”. (Imagem: reprodução)

A ressignificação da identidade em “Papicha”

Há momentos em que Nedjma é apresentada à oportunidade de fugir da guerra e se exilar na França. De fato, a família da diretora buscou o exílio após ameaças, naquela época. No filme, entretanto, Mounia imagina como teria sido resistir e ficar. Não seria um caminho fácil ou pouco perigoso, como o filme sugere, devido a crescente escalada da violência. Porém, como ela diz através de sua protagonista, é onde toda sua vida existia. “É aqui que estão minha família e minhas amigas.”

De qualquer forma, a beleza de “Papicha” está em retratar como a força para resistir reside na união das mulheres. Nedjma é uma jovem rebelde, que não está isenta das consequências de sua ousadia. Ela desafia diretamente os opressores e suas aliadas (muitas mulheres, infelizmente). Além disso, também resolve se impor através de um desfile de moda que organiza na universidade. Nele, ela pretende apresentar justamente cortes modernizados de um traje tradicional, o haik, simbolizando a busca por uma identidade que possa aliar suas aspirações progressistas com o amor pela sua terra natal.

Cena do filme "Papicha"
Cena de “Papicha”. (Imagem: reprodução)

Apesar das claras influências ocidentais, Nedjma não busca fugir de suas origens, mas sim se reconectar com elas a partir de seus próprios princípios, mais liberados e progressistas. É lindo ver em “Papicha” o desfile feito para um público exclusivo de mulheres, ressignificando as vestimentas tradicionais. São as mulheres buscando um caminho do meio, que abarque todas as questões complexas que estão inseridas, e as contemple enquanto protagonistas. O ato de escolher como se vestir é simbolicamente o mais desafiador e rebelde de todos. É exigir o reconhecimento de si enquanto sujeitas autônomas, que tem o direito de tomar suas próprias decisões.

Afeto entre mulheres e a recusa em ceder à melancolia

As cenas mais bonitas envolvem o afeto trocado entre as mulheres do filme, tanto em momentos de diversão e alegria, tanto quando consolam umas às outras. O toque é um elemento de destaque, retratado em closes e embalado por uma bela trilha sonora. É um alívio ver o corpo feminino retratado de forma não sexualizada. O afeto também é possível sem a erotização.

O afeto entre mulheres retratado no filme "Papicha"
O afeto entre mulheres retratado em “Papicha”. (Imagem: reprodução)
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A estética intimista, da mesma forma, é usada também como forma de aumentar a tensão nos momentos críticos. Apesar dos belos momentos de respiro, o filme vai ficando cada vez mais claustrofóbico, e a fotografia segue de acordo, emulando essa sensação com closes cada vez mais fechados no rosto aflito de Nedjma. 

O elemento mais subversivo de “Papicha“, por outro lado, é o fato de recusar o tom da derrota e do sofrimento. A diretora sempre se nega a ceder ao clima deprimente e devastador, visto o que suas personagens têm de enfrentar na história. Mesmo com todos os ataques, elas estão sempre insistindo em não largar seus princípios, não deixar de resistir nunca, por mais que em determinados momentos tenham que se recolher para se salvar. O tom que permanece é o de que nada poderá detê-las, mesmo com todo o poder que os opressores possam ter naquele momento. Haverá um futuro, e elas estarão nele

Olhar ocidentalizado sobre a Argélia 

A única ressalva que devemos ter com “Papicha“, entretanto, é o fato dele possuir um olhar bastante ocidentalizado, provavelmente devido à grande proximidade da diretora com a França, para onde sua família se mudou. De fato, nos vídeos de entrevistas sobre o filme é possível encontrar comentários de mulheres argelinas que acusam a diretora de não representar corretamente as mulheres do país. 

Mesmo se tratando de uma história bastante pessoal, com elementos autobiográficos, “Papicha” pode ser lido por estrangeiros como um retrato da Argélia (que já não recebe tanta cobertura na mídia internacional) e passar uma imagem pior ainda do Islã. É preciso fazer essa ressalva e ter tais questões em mente ao assistir o longa-metragem. E como o filme foi o escolhido da Argélia para uma indicação ao Oscar 2020, a obra continuará representando o país no meio cinematográfico por um tempo. Por fim, vamos nos lembrar que trata-se de uma bela história do ponto de vista de uma mulher argelina, mas que existem outras milhões também a serem contadas.

Papicha” está em cartaz nos cinemas desde 31 de outubro.


Edição realizada por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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