Me Poupe: educação financeira limitada e sem consciência de classe

Me Poupe: educação financeira limitada e sem consciência de classe

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Como anda a sua vida financeira?” É com essa pergunta que o reality show “Me Poupe“, que estreou em setembro na Band, abre a vinheta que inicia todos os seus episódios. Nela, a apresentadora Nathalia Arcuri faz uma série de outros questionamentos ao espectador: “As contas estão tirando o seu sono? Tá com dívidas até o pescoço? A sua conta é uma bomba-relógio?

Em poucos momentos, torna-se clara, então, a proposta do que você está prestes a assistir. Esse é um programa sobre dinheiro, diz a abertura, feito para quem está no vermelho. No Brasil, não falta audiência para a pauta: A porcentagem de famílias endividadas chega a 64,7%, de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), e 40,4% da população adulta está com nome sujo.

O tema da educação financeira é, portanto, fértil e pertinente. E isso não é novidade nenhuma para Arcuri, que é conhecida pelo seu canal no Youtube do mesmo nome, no qual ela compartilha dicas e esclarecimentos sobre finanças com a missão de “desfuder a nação”. Adotando uma linguagem fácil e descontraída, a antes repórter decolou na plataforma, acumulando mais de 4 milhões de inscritos desde que começou o canal.

O mundo dos influenciadores financeiros

Arcuri certamente não é a única youtuber a se debruçar sobre a desorganização e dificuldades financeiras brasileiras. A proposta de uma educação financeira que se mistura ao coaching é compartilhada por diversos influenciadores. Embora tenham diferenças de formato e abordagem, a larga maioria deles concorda na necessidade de uma educação financeira que leve os brasileiros rumo à independência e ao mundo dos investimentos.

Arcuri certamente não é a única youtuber a se debruçar sobre a desorganização e dificuldades financeiras brasileiras. Na foto, Thiago Nigro, conhecido por seu canal "Primo Rico".
Arcuri certamente não é a única youtuber a se debruçar sobre a desorganização e dificuldades financeiras brasileiras. Na foto, Thiago Nigro, conhecido por seu canal “Primo Rico”.

Muitas pessoas encaram de forma positiva esses criadores de conteúdo. Em qualquer vídeo de Arcuri é possível ler comentários de pessoas que dizem ter aplicado suas dicas para organizar suas vidas financeiras. Mas o sucesso não vem sem críticas. O contraponto que costuma ser levantado contra esse tipo de influenciadores é a falta de conexão com a realidade de boa parte dos brasileiros, que não têm condições de pôr em prática muitas das dicas. Isso, somado a promessas sensacionalistas de riquezas imensas, resulta em sugestões que são vistas como irresponsáveis.

Uma das sugestões de Nathalia para quem está desempregado, por exemplo, é se oferecer para trabalhar de graça por quatro horas ao dia por duas semanas, na esperança de, no final desse período, ser contratado pela empresa. Além disso ser uma clara violação das leis trabalhistas, a dica não explica de onde uma pessoa que está desempregada vai tirar o dinheiro necessário para se alimentar e se deslocar para o trabalho gratuito durante essas duas semanas.

Incoerência com a realidade dos brasileiros

Em outro vídeo igualmente polêmico, Arcuri oferece dicas para sair de um salário mínimo para o primeiro milhão. Uma das sugestões é passar a ganhar 300 reais a mais do que o salário mínimo todos os meses e investir esse dinheiro. Ela também recomenda que a pessoa “viva um degrau abaixo”, expressão que significa, basicamente, controlar o seu orçamento mensal para que seus gastos fixos não consumam todo o seu salário.

A sugestão, que não é tão ruim para quem recebe R$2.000 por mês e mora com os pais, chega a ser uma piada quando apresentada para pessoas que sustentam famílias com um salário mínimo. Arcuri, como muitos outros influenciadores que seguem a mesma linha, parece ignorar o que há “um degrau abaixo” para quem já está tendo que escolher entre comprar remédio ou comida para os filhos é, na verdade, um poço de miséria absoluta.

Me Poupe - Nathalia Arcuri
Em vídeo polêmico, Nathalia Arcuri dá a dica de trabalhar de graça para conseguir um emprego. (Imagem: reprodução)

A lógica que sustenta todo esse discurso é meritocrática: Paradoxalmente, mesmo com títulos sensacionalistas como “ganhei R$2.000 em um dia sem trabalhar”, Arcuri mantém a filosofia de que, com trabalho duro e inteligência, qualquer pessoa pode enriquecer. Somado a isso vem a culpabilização dos que não atingem a riqueza, através de dicas de “chicoaching”, como diz Nathalia, que carregam a mensagem de que, se você está numa situação financeira ruim, é por falta de responsabilidade e esforço.

Nesse aspecto, o reality show pode ser considerado apenas uma mudança de veículo. Seu conteúdo não difere muito do que é pregado por Arcuri em seu canal, repetindo muitas das dicas que já aparecem em diversos vídeos dela. O que cada episódio demonstra, no entanto, é mais interessante: Em meio a um entretenimento que visa ter um viés educativo, o realityMe Poupe” exalta uma lógica meritocrática e culpabilizadora que acaba, quase sem querer, expondo as próprias lacunas.

“Me Poupe” e a culpabilização do indivíduo

O programa é estruturado como um reality show de transformação típico: Em cada episódio, é apresentado um participante que carrega uma versão extrema do problema que o programa se dispõe a resolver. Então, se em “Pesadelo na Cozinha” assistimos o chef Jacquin gritar com donos de restaurantes por suas práticas anti-higiênicas, em “Me Poupe” vemos Nathalia Arcuri assistir, horrorizada, a vídeos nos quais os participantes falam sobre suas dívidas, que vão de R$20.000 até R$500.000.

É na própria estrutura que o programa abraça a ideia do mérito pelo mérito e da responsabilidade do participante sobre seu próprio sucesso. Arcuri deixa claro que o programa “não dá o peixe, mas ensina a pescar”. Por isso, não há prêmios além de uma insígnia simbólica de uma colher, marca da apresentadora, que vem nas notas bronze, prata, ouro e pau. Nathalia explica desde o início que as notas são dadas pelo sucesso e esforço do participante. Passados os cinco primeiros episódios, ninguém conseguiu a colher de pau, e apenas uma participante conseguiu bater todas as metas estipuladas por Nathalia.

Nathalia Arcuri
Arcuri e a colher de pau, sua “fiel escudeira”. (Imagem: reprodução)

Esbarra-se, então, em um dos primeiros problemas de “Me Poupe“: Para um programa que tem como meta ser educacional, há pouco aprendizado. Chega a ser difícil entender o que exatamente Arcuri faz de especial para ajudar os participantes, além de confiscar seus cartões de crédito e estabelecer um orçamento semanal e metas de renda para a pessoa atingir em um mês.

A partir daí, um programa que se propõe a ser sobre educação financeira acaba sendo um programa sobre indivíduos desesperados tentando conseguir dinheiro a qualquer custo. Para isso, os participantes contam com intervenções ocasionais de Arcuri e uma ajuda simbólica da “Liga Me Poupeira”, a equipe de profissionais que ajuda os participantes a organizar a casa e o guarda-roupa para desapegar de coisas que não usam mais e a criar caminhos para conseguir renda extra que raramente fogem do óbvio, como, por exemplo, vender brigadeiro.

Como consequência, é complicado entender o que os participantes realmente aprendem no programa. E fica claro que há o que aprender: Todos os selecionados para o “Me Poupe” são, sem dúvida, pessoas que, para além de classe social, não sabem administrar o dinheiro. Mesmo assim, nenhum deles, desde o casal que decidiu criar uma empresa sem capital até o baladeiro que mora com a mãe e acumula dívidas por causa de festas, parece realmente ter mudado sua relação com o dinheiro no fim do programa.

A impressão que passa é que, na frente das câmeras, essas pessoas passam um mês de controle rigoroso e muito trabalho – um regime que, a longo prazo, dificilmente será mantido – e que não há uma mudança real da perspectiva com relação às finanças. Quase todos, com exceção do casal (que, com uma renda mensal total de R$2000, condição financeira mais precária do que os outros participantes, não tem o que vender), vendem objetos pessoais para alcançar a renda que precisam. Duas participantes vendem seus carros para tentar se aproximar mais da meta. Isso é claro, infla o montante de renda extra, mas o faz de maneira quase artificial, sendo uma fonte de renda que por razões óbvias, não se sustenta.

Me Poupe, reality da Band
A liga Me Poupeira. (Imagem: reprodução)

Mas tudo isso está dentro da lógica estipulada pelo “Me Poupe“, que se baseia inteiramente na culpabilização do indivíduo. A mensagem do trabalho de Arcuri é evidente: Se, com esforço e inteligência, todo mundo pode ficar rico, então é culpa sua se você está pobre, e, se você não alcança as metas do programa, é porque faltou dedicação. Com isso, o programa faz uma ginástica lógica que chega a ser impressionante: A culpa pelo fracasso está sempre com o participante, mas o mérito, se houver, deve ser compartilhado com o programa.

Me Poupe: uma perda de oportunidade

A confusão com a vida financeira, assim, é reduzida a uma questão de esforço, ignorando os diversos outros fatores que perpassam a questão da má administração do dinheiro – inclusive a questão psicológica e emocional. Participantes como Marinês, que, com um salário de R$4.000, se definia como “viciada em comprar apartamentos”, ou o já mencionado “rei do camarote falido” Rafael, claramente têm questões internas que os levam a gastar muito mais do podem ou precisam, mas isso não é abordado em “Me Poupe“. Nos comentários dos episódios no Youtube, Natalia afirma que o reality conta com uma psicóloga que trabalha essas questões com os participantes, mas isso não é mostrado para os telespectadores.

Me Poupe
Nathalia conversa com Marinês, a “viciada em comprar apartamentos”. (Imagem: reprodução)
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Com isso, um programa sobre educação financeira acaba perdendo a oportunidade de falar de um problema muito real relacionado a esse assunto. A compulsão por gastar, atualmente, já é considerada um vício tal como o alcoolismo, e vai muito além de uma mera “falta de vergonha na cara”. Vivemos em uma sociedade do consumo, onde bens equivalem a status, e comprar se converte em um ato de prazer.

Tentar lidar com um vício em gastos sem falar disso é como tentar curar uma compulsão alimentar colocando um cadeado na geladeira: De primeira, pode até ter resultados, mas em alguma hora a porta vai ter abrir, e a pessoa terá que se controlar por si mesma.

Educação financeira sem conscientização de classe

Tudo isso culmina em uma única questão: Até que ponto adianta uma educação financeira que, ao focar somente no indivíduo, esquece que a economia é uma questão estrutural? Em um contexto de extrema desigualdade social, em que metade dos brasileiros vive com uma renda mensal de R$413, é possível resumir tudo a uma questão de esforço?

Me Poupe exalta uma lógica meritocrática e culpabilizadora que acaba, quase sem querer, expondo as próprias lacunas.

É claro que não se deve esperar que um reality show na Band vá resolver os problemas financeiros da população brasileira, independentemente da sua qualidade. Mas se a questão da educação financeira se torna cada vez mais relevante e discutida, é preciso também buscar uma educação que vá além de uma lógica meritocrática simplista. Há uma necessidade real de uma educação que entenda que a sociedade tem uma estrutura hierárquica por conta de um sistema econômico que se sustenta nessa hierarquia, e que possa ajudar pessoas que se veem presas desse sistema.

Uma educação realista, que leve pessoas a refletirem sobre sua relação com dinheiro de forma sensata. Uma educação que entende que o pobre não está nessa situação por não saber poupar, como insinuou recentemente o ministro da Economia Paulo Guedes, mas porque as amarras da desigualdade social vão muito além da capacidade individual de controle ou esforço. Infelizmente, “Me Poupe” não parece ser a resposta para essa demanda.


Edição e revisão realizada por Isabelle Simões.

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Formada em História, Fernanda é escritora e trabalha com tradução, legendagem e produção de conteúdo. Gosta de games, quadrinhos e filmes. Passa a maior parte do tempo falando do seu cachorro ou do MCU.
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