“Até o fim” propõe o diálogo em tempos de ódio (23ª Mostra de Tiradentes)

“Até o fim” propõe o diálogo em tempos de ódio (23ª Mostra de Tiradentes)

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Família é um vaso que quebra até por excesso de flores.” Essa frase está no belíssimo e melancólico livro “Se deus me chamar eu não vou“, da autora Mariana Salomão Carrara. Toda família é um grande caldeirão que a qualquer momento pode desandar e explodir. Não à toa, “Até o fim“, novo filme da dupla do Recôncavo Baiano Glenda Nicácio e Ary Rosa, começa enquadrando grandes panelas nas quais uma apetitosa refeição está sendo preparada. O desfoque das imagens e a fumaça que envolve o quadro, já prenuncia que nem tudo é o que parece ser. Um passado enevoado está prestes a emergir.

Quatro mulheres vão se reencontrar após quinze anos afastadas. Laços familiares que foram rompidos desde a morte da mãe. Geralda (Wal Diaz), a mais velha, foi a única a ficar no Recôncavo da Bahia. As panelas borbulhantes vistas no começo do filme são do bar que ela é proprietária. As outras três irmãs são convocadas a retornar por conta do prenúncio da morte do patriarca. O tempo narrativo é um só: o da noite que passarão juntas.

Ao longo do filme, vamos conhecendo um pouco mais de cada uma, seus motivos de partida, seus segredos e suas conquistas. Geralda ficou cuidando desse homem que está prestes a parte dessa vida e, com isso, libertar essas mulheres das violências físicas e simbólicas que ele as impingiu. Incrível o poder destrutivo encarnado na figura do patriarcado que jamais aparece em cena, mas que permeia toda a trama.

Na cinematografia brasileira não temos uma grande tradição de filmes que se alicercem numa enorme verborragia, confinado num único espaço, sendo a potência dos diálogos seu eixo central. Em “Até o fim” os diretores retomam o tema da reconfiguração familiar, já explorado em “Café com canela” (2017), com maestria. O roteiro de Ary Rosa é soberbo, na medida em que mescla com precisão relatos de amor, horror, mágoa, dúvida, gratidão e ressentimento num ritmo por vezes frenético, outras vezes cadenciado, com uma confluência que jamais resvala no artificial ou caricato.

Cena de "Até o fim" em projeção no cine-tenda da 23ª Mostra de Tiradentes
Cena de “Até o fim” em projeção no cine-tenda da 23ª Mostra de Tiradentes (Foto: Jackson Romanelli/Universo Produção)

As irmãs vão sendo apresentadas uma a uma, por ordem de nascimento, tendo maior tempo de tela a dupla mais velha formada por Geralda e Rose (Arlete Dias, atriz assinatura da dupla de diretores). A câmera na mão, nervosa, trêmula, pulsante, com enfoque nas mãos das personagens, nos rostos, nas pernas, nos bruscos movimentos de corpos, nos olhares das irmãs dá a dimensão da tensão que esse encontro sugere.

A locação é uma só: o bar da primogênita. É nele que a roupa suja vai ser lavada. O elenco formado ainda por Maíra Azevedo, que interpreta Bel — a bem sucedida produtora de cinema que acaba de voltar de Los Angeles com um Oscar na bagagem — e Jenny Muller, que encena a misteriosa Vilmar. Cabe ressaltar a ótima direção de atrizes que conduz um elenco de mulheres que atuam no cinema pela primeira vez (a exceção de Arlete Dias) com a força e o vigor de veteranas.

Dessa forma, “Até o fim” consegue dar conta, através dessas quatro interessantíssimas personagens, de um inventário de mulheres múltiplas e plurais com suas alegrias, agruras e opressões experimentadas ao longo da vida, mesmo sendo completamente diferentes entre si. A plateia lotada do cine-tenda da 23ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes aplaudiu de pé durante longos minutos nos créditos finais do filme. A emoção das personagens transbordou a tela e a comoção tomou conta dos espectadores.

O cinema brasileiro contemporâneo do alto do seu vigor estético e narrativo segue brilhando dentro e fora do país. Em um momento de desvalorização da sétima arte por parte das instituições governamentais, filmes como esse servem de norte para uma nova onda cinematográfica brasileira em curso.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

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Autora

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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