25 anos de Evangelion: o que mudou e o que continua igual?

25 anos de Evangelion: o que mudou e o que continua igual?

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Objeto de aclamações e polêmicas pelas últimas 3 décadas, foi somente em junho do ano passado que Neon Genesis Evangelion se tornou acessível (legalmente) para grande parte do público ocidental, quando foi lançado na Netflix. No entanto, assim que apertamos o play e assistimos aos primeiros episódios, considerando o contexto da cultura pop (e político) em que estamos, é difícil de acreditar que este anime foi feito há mais de 25 anos.

Chega a ser impressionante o quão bem Evangelion se mistura e passa incólume em meio a uma série de filmes e seriados dos dias de hoje, presentes na plataforma, povoados por monstros megalomaníacos em meio a cenários pós-apocalípticos. Apesar de todas as controvérsias e problemas, a verdade é que Evangelion não envelheceu um só dia desde que foi lançado. O que significa que muitos dos problemas e dilemas que o anime apontava (ou mesmo preconizava) em 1995 continuam relevantes hoje. 

Neon Genesis Evangelion - anime
Cena de “Neon Genesis Evangelion”. Imagem: reprodução

Muito além de 2015

A temática que o aproxima logo de cara ao que é feito na cultura pop hoje em dia é a relação entre homem e tecnologia. No cenário futurista longínquo de 2015 (risos), o mundo é assolado por criaturas gigantes e poderosas denominadas Anjos. Para enfrentá-los, a humanidade se utiliza de ciborgues igualmente grandes, chamados EVA’s, pilotados por adolescentes “escolhidos”. A princípio, um exemplar clássico do gênero mecha (que em japonês, significa “robô gigante”), mas que ao longo da série se revela algo mais complexo. Aliás, – é importante dizer – em Evangelion, nada é simples. 

A começar pelos personagens. O protagonista é ninguém menos do que um dos adolescentes-pilotos dos robôs gigantes, um menino de 14 anos chamado Shinji. Ele é também o filho único do comandante da organização “criadora” dos EVAs, a NERV. Um homem duro e frio, que não poderia ligar menos para sua prole, a não ser quando este se revelou um dos pilotos.

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Não seria exagero dizer que Shinji é um dos protagonistas mais problemáticos já criados. De início, ele atende à maioria dos estereótipos de protagonistas adolescentes shounen: inseguro, franzino, mas inexplicavelmente talentoso naquilo que é pretendido dele. Aqui, no caso, pilotar o EVA. No entanto, ao contrário da maioria, Shinji não encontra nenhuma redenção ou recompensa nisso. Ao longo da narrativa de Evangelion, ele só se afunda cada vez mais em suas inseguranças.

As mulheres em Neon Genesis Evangelion

Primeiramente, grande parte do que aflige Shinji gira em torno de sua relação com as três mulheres principais da série. Uma delas é Misato, diretora de operações da NERV que assume o papel de tutora dos pilotos adolescentes. Competente e altiva em sua vida profissional, ela se mostra desajeitada e inadequada em sua vida pessoal. As outras duas são Rei e Asuka, colegas de Shinji, pilotas dos dois outros EVA’s que existem – sendo 3 ao todo.

Todas as três são retratadas como mais fortes, poderosas e decididas do que Shinji. E cada uma a seu modo, o desafiam de alguma maneira. Seja em sua incapacidade de estabelecer alguma intimidade, em sua auto-aversão extrema ou em sua busca por entender sua sexualidade, uma delas é sempre referência em seus devaneios. Aliás, é possível dizer que ele as odeia e as venera ao mesmo tempo. E como a história é contada sob a perspectiva de Shinji, na maioria dos episódios elas são muitas vezes objetificadas e sexualizadas ao extremo.

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Neon Genesis Evangelion - anime - Netflix

Porém, isso não significa que elas não sejam excelentes personagens por si só. Em vários momentos, elas são inclusive mais acessíveis e coerentes do que o próprio Shinji. Mesmo Asuka, que é retratada como absolutamente intratável na maioria das vezes, tem um arco dramático. Descobre-se, aliás, relativamente parecido e igualmente triste ao do protagonista.

Entretanto, o comportamento raivoso e desbocado de Asuka se revela no espectro oposto ao de Shinji, pois ela é retratada bem menos apática e mais reativa. Ela, todavia, é notoriamente objeto de ódio de grande parte do público. Em um momento emblemático, ela é enforcada pelo protagonista, o que faz muitas vezes Shinji ser colocado por alguns como um dos mais proeminentes Incels (“celibatários involuntários”) da cultura pop.

Shinji é um incel?

Mas antes de classifica-lo como tal, é mais importante perguntar o porquê da associação dele a um arquétipo que nem era mainstream quando o personagem foi criado – e que hoje em dia ganhou tanta relevância política. Portanto, é necessário lembrar que a denominação Incel, como forma de subcultura misógina, ainda não existia em 1995. A verdade é que a existência de Shinji e a retratação da sua visão de mundo – sempre como vítima, como o rejeitado – naqueles anos foi quase que um presságio para o fenômeno que ganharia força nas décadas seguintes. 

Neon Genesis Evangelion

Shinji, de fato, é um menino de 14 anos que sofre de depressão e questiona sua sexualidade e masculinidade sem conseguir achar respostas. Por isso, ele se sente ameaçado pelas figuras femininas de sua vida e não sabe cultivar relacionamentos pessoais. Basicamente a descrição de uma legião de homens que, anos depois de Shinji aparecer nas telas, iriam criar o movimento Incel em reação ao empoderamento feminino dos anos 2000. O que em si, torna a perspectiva de Shinji – e a de Evangelion como um todo – problemática.

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Mas como afirmamos acima, nada aqui é simples. O que redime a narrativa de um certa forma é que ela não se exime ao apontar as falhas das perspectiva que ela assume. E Shinji se mostra falho e incoerente a todo momento, chegando ao ponto de ser irritante. Ele é um daqueles personagens com quem você se identifica em um momento, e no outro está abominando. Assim como em Taxi Driver, Breaking Bad e Madame Bovary (disclaimer: esta não é uma comparação qualitativa, tá bem? CALMA!), ele é um protagonista que nos leva da empatia à raiva absoluta em segundos.

Homem x Tecnologia

A própria mitologia de Neon Genesis Evangelion acompanha essa “incoerência” e a degeneração do personagem à medida que a história avança. Os EVA’s, que a princípio eram somente robôs gigantes, vão ganhando humanidade aos poucos. Até que nos últimos episódios fica claro que, na verdade, eles são criaturas vivas e sua simbiose com os pilotos humanos (que tem efeitos nos dois sentidos) se torna cada vez mais proeminente. Dessa forma, quanto mais perturbado o/a piloto(a) se torna, mais a relação com o seu EVA se torna fora de controle e imprevisível.

anime clássico

A simbologia presente na narrativa de Evangelion, para além de referenciar a relação entre homem e tecnologia, possui referências a religiões ocidentais – como o próprio nome sugere. Os sucedidos embates entre EVA’s e Anjos, como é evidente em um dos finais alternativos da saga (sim, tem mais de um…), é uma alegoria a Adão e Eva, na Bíblia. Aliás, os próprios EVA’s tem em si uma faceta maternal: os pilotos ficam situados dentro deles, envoltos em uma espécie de líquido amniótico. Seus corpos se conectam por cabos e, além de seguirem comandos, eles emulam as emoções dos pilotos. Em um dos finais, os únicos sobreviventes após a destruição da Terra são justamente Shinji e Asuka, novamente referenciando ao primeiro casal humano bíblico.

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No fim, é sobre essa relação, homem e mulher, que a mitologia, simbologia e dramas psicológicos dos personagens tratam, assim como descobrir suas nuances durante a adolescência. No final da série original para a TV, isso fica ainda mais evidente. Neon Genesis Evangelion é, entre outra coisas, um tratado sobre isso, contado predominantemente sob a perspectiva masculina e, sim, beirando à misoginia. Mas como todo clássico que sobrevive ao tempo, a honestidade com que assume esse ponto de vista, sem se acovardar ao expor todos os seus problemas, o fazem digno de uma miríade de interpretações, além desta exposta aqui. Portanto, você pode até ver e não gostar, mas não tem como não conferir por si mesmo. 


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Criança que queria ser bailarina, depois foi querer virar oceanógrafa, que depois sonhou em ser fotógrafa da National Geografic, para depois querer ser escritora. Acabou virando jornalista (no diploma) e professora (na carteira de trabalho – RIP). Adulta, só daqui uns anos.
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