O horror social no cinema de Gabriela Amaral Almeida

O horror social no cinema de Gabriela Amaral Almeida

É inegável que momentos de crise fomentam novas histórias no cinema, principalmente as narrativas horríficas, pois beneficiam-se do contexto social para criar novos pesadelos e assim assustar novas gerações de espectadores. Os exemplos são variados, desde o expressionismo alemão no pós-Primeira Guerra, considerado o berço do horror para alguns pesquisadores, até a onda do subgênero slasher americano nas décadas de 70 e 80, acompanhando a volta do conservadorismo e dos valores dos anos 50, uma resposta aos movimentos sociais e a contracultura que surgem com força.

Desse modo, é possível afirmar que pensar a produção do cinema de horror é pensar as problemáticas da contemporaneidade, sejam elas em uma esfera macro, como nos filmes do diretor Jordan Peele, que trabalha com as questões raciais, ou micro, abordando as pequenas dificuldades das relações interpessoais.

Horror social e o cinema de Gabriela Amaral Almeida

Falando da produção brasileira, de acordo com a pesquisadora Laura Cánepa, o horror artístico passa por uma retomada desde a metade dos anos 2000, onde ela delimita duas vertentes de obras que utilizam o terror e o medo.

A primeira seria uma aplicação mais clássica dos elementos do gênero e a segunda, um flerte do horror com outros gêneros cinematográficos, criando um hibridismo na hora de abordar as ansiedades e as tensões nacionais. Essa segunda tendência também parece refletir as questões da nossa sociedade, contestando as dinâmicas sociais e culturais tão fortemente enraizadas por meio de uma linguagem do horror, sendo assim chamada de “horror social”.

Uma realizadora brasileira que trabalha tais tensões com maestria é Gabriela Amaral Almeida. Nascida em 1980, Gabriela é formada em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia e em Roteiro pela Escola Internacional de Cinema e TV de Cuba, além de se dedicar a pesquisar a relação entre o cinema de horror e a literatura, debruçando-se principalmente sobre o  autor americano Stephen King, que foi tema da sua dissertação de mestrado.

Diretora Gabriela Amaral Almeida
Gabriela Amaral Almeida | Imagem: reprodução

Tanto os curtas de Gabriela Amaral quanto seus longas foram reconhecidos pelo público e crítica, consolidando o nome da cineasta como um dos mais potentes não somente do horror, mas do audiovisual nacional como um todo.

Por dentro da filmografia

Como curta-metragista, Gabriela Amaral Almeida tem um currículo extenso. Em 2010, junto com Matheus Rocha, ela dirigiu Náufragos, que foi selecionado por mais de 10 mostras e festivais. O curta já mostrava afinidades com uma linguagem que remete ao medo e ao horror. Em 2011 foi a vez de Uma primavera, desta vez dirigido apenas por Gabriela e que constrói uma atmosfera de tensão após o sumiço de uma jovem num parque no dia do seu aniversário de 13 anos.

Os maiores destaques da carreira da cineasta dentro do mundo do curta-metragem vieram em 2012 e 2014, com A mão que afaga e Estátua!, respectivamente. Ambos tematizam a maternidade, apesar de caminharem por lugares bem distintos. O primeiro remonta a festa de aniversário do filho de Estela (Luciana Paes), uma solitária atendente de telemarketing, enquanto o segundo expõe a dinâmica entre uma babá grávida e a menina que é cuidada por ela.

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Cena de A Mão que Afaga, curta de Gabriela Amaral Almeida.
Cena de A Mão que Afaga, curta de Gabriela Amaral Almeida | Imagem: reprodução

Além de diretora, Gabriela assina o roteiro de outras obras como os três primeiros episódios da série ficcional sobre a vida de Bruna Surfistinha, chamada Me chama de Bruna, em 2016. Um filme que a deixou conhecida por ser roteirista foi Quando eu era vivo, de 2014, parceria com o diretor Marco Dutra, outro realizador que explora o gênero do horror. Ela escreveu também para Walter Salles no segmento Quando a Terra treme, parte do longa internacional Em que tempo vivemos, de 2017.

A estreia de Gabriela Amaral Almeida na direção de um longa-metragem ocorreu com O Animal Cordial, apresentado em alguns festivais em 2017 e chegando ao circuito exibidor nacional em agosto do ano seguinte. Com pouco mais de 1h30, o filme desenvolve-se dentro de um restaurante num bairro paulistano de classe alta, durante o fim do expediente. Enquanto a última mesa é atendida, os clientes e funcionários são rendidos por bandidos, mas a tentativa de assalto fracassa e o que era esperado logo se inverte: é o dono do estabelecimento quem faz os presentes de reféns.

A própria Gabriela localiza os desdobramentos da trama dentro do espectro do slasher, levando em conta as aproximações e os afastamentos do cânone do subgênero. Subvertendo alguns códigos, principalmente no que tange a representação do ato sexual e as personagens femininas, a diretora cria uma obra que tensiona gênero e classe dentro da estrutura social brasileira, sem deixar de lado a violência e o gore quando revela a face mais conservadora e cruel do ser humano.

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Cena de O Animal Cordial, longa de Gabriela Amaral Almeida.
Cena de O Animal Cordial, longa de Gabriela Amaral Almeida | Imagem: reprodução

Ainda em 2018, foi a vez do segundo longa de Amaral Almeida chegar aos festivais. Intitulado A Sombra do Pai, sua estreia também se deu 1 ano após a exibição para um público restrito, em 2019. O roteiro fez parte de um laboratório atrelado ao festival de Sundance e a história que ganha forma no filme é a de Dalva, uma menina de 9 anos, órfã de mãe e que se vê na necessidade de cuidar do pai durante o luto.

Após a saída da tia da casa onde moravam os 3 e da inversão dos papéis entre a filha e a figura paterna, a garota recorre a magia para reconstruir seu núcleo familiar, trazendo a mãe dos mortos e o pai de um estado psíquico deteriorado. Observando o microcosmo social e a formação da menina, as expectativas e o relacionamento de uma família estão no cerne da trama, onde a cineasta acrescenta toques de horror e de fantasia ao drama vivido por Dalva.

Cena de A Sombra do Pai, segundo longa da diretora.
Cena de A Sombra do Pai, segundo longa de Gabriela Amaral Almeida | Imagem: reprodução

O que vem por aí

O próximo longa de Gabriela já está em desenvolvimento. Mais um filme dentro do “cinema de medo”, como ela mesma gosta de chamar, A cadeira escondida será uma obra que trará o exorcismo e a religiosidade para o debate.

Avaliando apenas a filmografia já construída pela realizadora ao longo dos anos, é perceptível como o lado crítico do horror aflora em seus filmes, trazendo um olhar cuidadoso sobre as questões de uma sociedade que vive em conflito como a nossa, mas sem ignorar os aspectos que fazem um filme de horror um componente do gênero.

Seja numa análise mais estrutural de um Brasil em pedaços ou nos pequenos gestos de um dia-a-dia familiar, Gabriela Amaral Almeida consegue fazer o seu espectador se deparar com o lado horrífico de algo que parece cotidiano.

Escrito por:

Carioca, estudante de Cinema e Audiovisual, flamenguista e gateira em tempo integral. Em seus momentos livres, pode ser encontrada nas redes sociais comentando sobre literatura escrita por mulheres, cinema de horror ou a última corrida da Fórmula 1.
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