[LIVROS] Contos de Horror do Século XIX: O medo nosso de cada dia (resenha)

[LIVROS] Contos de Horror do Século XIX: O medo nosso de cada dia (resenha)

O escritor H. P. Lovecraft certa vez disse que “o mais antigo e mais forte sentimento humano é o medo (…)“. O medo projeta-se no cotidiano das pessoas, de formas sobrenaturais ou não, e sempre os ronda e espreita como um predador faminto. Há quem tenha medo de avião ou do que espera na escuridão; outros creem que assombrações existem; nós, mulheres, por exemplo, somos vítimas de atrocidades vindas do patriarcado e somos assombradas por violências dos mais diversos tipos, constantemente. Na antologia Contos de Horror do Século XIX, organizada por Alberto Manguel, vislumbramos diversas facetas deste tão conhecido – e aterrador – aspecto da existência humana.

“Por medo ao desconhecido construímos sociedades com muralhas e fronteiras mas, nostálgicos, contamos histórias para não esquecer sua pálida presença. Regras científicas, leis, filosofias empíricas, nossa própria linguagem que, com absurda fé, acreditamos que haverá de definir para nós o incompreensível universo, tentam convencer-nos de que somos seres racionais cuja inteligência acabará por compreender tudo. Não nos convencem. Basta uma noite escura, um ruído insuspeitado, um momento de descuido em que percebemos com o rabo de olho uma sombra passageira, para que nossos pesadelos nos pareçam possíveis e para que busquemos na literatura a dupla satisfação de saber que o medo existe e que ele tem forma de conto.” (Introdução, pág. 9)

A introdução às obras compiladas por Manguel traz um resgate histórico do surgimento das histórias de terror – desde que o mundo é mundo -, relembrando os mitos de povos ancestrais e fábulas contadas à beira da fogueira como forma primordial de se espelhar o medo e moralizar através de relatos (não por acaso os contos de fadas possuem em seu berço histórias horripilantes envolvendo canibalismo, assédios e mortes grotescas). À partir disto, e através dos anos, tais histórias foram refinadas, ajustadas e deram origem ao que de fato, nos dias atuais, entendem-se por histórias de terror. Edgar Allan Poe foi o nome que, mesmo tardiamente, deu visibilidade ao gênero, vindo a se tornar um fenômeno primeiramente na França, traduzido pelo poeta Charles Baudelaire.

Há ainda a discussão entre as nomenclaturas “terror” e “horror”. O terror, voltado mais para o sobrenatural, é o que caracteriza a obra de Poe e seus cadáveres que ressurgem do mundo dos mortos. Já o horror, presente na mitologia cósmica de Lovecraft, toma forma no cotidiano e em aspectos que muitas vezes passam por despercebido, como no conto A Cor que Caiu do Espaço, no qual um um vilarejo inteiro é amaldiçoado pela água contaminada por uma cor misteriosa que vem do céu, ou no mangá Uzumaki, de Junji Ito, no qual uma cidade é assombrada pela forma de uma espiral.

Ann Radcliffe, escritora inglesa que inspirou a literatura gótica, cita que “(terror e horror) possuem características tão claramente opostas que um dilata a alma e suscita uma atividade intensa de todas as nossas faculdades, enquanto o outro as contrai, congela-as, e de alguma forma as aniquila.”

Ao longo do livro Contos de Horror do Século XIX, encontram-se diversas facetas do medo: de navios assassinos, passando pelo medo da traição conjugal ou da morte, diversos autores consagrados, como W. W. Jacobs, H. G. Wells, Ambrose Bierce, Jack London, Walt Whitman e o próprio Poe são homenageados e transmitem ao leitor a pluralidade e genialidade de histórias que, mesmo tão diferentes, possuem o mesmo fio condutor. Porém, algo que chama a atenção dentre as escolhas dos contos é a quase ausência de escritoras; a única mulher selecionada foi Edith Nesbit e seu conto A Casa Mal-Assombrada.

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Há também uma preocupação constante dos autores da maioria dos contos em deixarem as mulheres em segundo plano ou dedicar à elas as mazelas ocorridas a eles, como é o caso do protagonista de Os Lábios, conto de Henry St. Clair Whitehead, no qual o capitão grosseiro relaciona seu estado de profunda doença a uma mulher negra que cruza seu caminho ao adentrar um navio negreiro – um retrato fidedigno do olhar preconceituoso, intolerante e perverso do homem branco para com o povo negro. 

A edição esgotadíssima de Contos de Horror do Século XIX voltou às livrarias ao final do ano passado, e é peça fundamental na coleção de todo fã do gênero.


Contos de Horror Contos de Horror do Século XIX

Organizador: Alberto Manguel

Companhia das Letras

547 páginas

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86 Textos

É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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