Loja de Unicórnios: Sobre crescer sem deixar de sonhar como uma criança

Loja de Unicórnios: Sobre crescer sem deixar de sonhar como uma criança

Escrito por Samantha McIntyre e estrelado, dirigido e co-produzido por Brie Larson, “Loja de Unicórnios” foi lançado originalmente em 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto e estreou na Netflix em 5 de abril. Apesar de dividir opiniões, o filme emociona aqueles que ainda insistem em sonhar. Com certeza você conhece alguém assim; se não, é a própria pessoa que exala inocência, que sonha alto e quer viver de sonho, alguém que simplesmente não consegue lidar com a realidade padronizada, fria e cinza imposta a nós todos os dias. Com críticas pertinentes e pontuais, “Loja de Unicórnios” vai além e mostra-se muito mais que um lúdico clichê sobre amadurecimento e correr atrás de seus sonhos.

Loja de Unicórnios
Brie como Kit em “Loja de Unicórnios” (Imagem: Netflix/divulgação)

Em “Loja de Unicórnios”, Brie Larson é Kit, uma jovem artista expulsa da faculdade por ter um estilo bem diferente do comum. Em um mundo em que um graveto dentro de uma caixa é considerado o mais alto nível de arte, pintar unicórnios coloridos e brilhantes parece não ter sido uma boa ideia. Além da incompreensão da academia, Kit também sofre com a relação desgastada com os pais, Gladys (Joan Cusack) e Gene (Bradley Whitford).

Quando se vê obrigada a encontrar um novo rumo na vida, Kit começa a trabalhar como copiadora em uma grande corporação. Ao mesmo tempo, passa a receber convites estranhamente coloridos para conhecer A Loja, o lugar onde encontrará o que mais deseja e precisa, e assim começa a saga para comprar seu unicórnio, mas somente quando provar que está pronta para tal aquisição!

Loja de Unicórnios
Imagem: Netflix/divulgação

Então, o que parece apenas um filme mágico sobre uma artista incompreendida, surpreende com muitas críticas sobre a forma como vivemos hoje, sobre a necessidade constante de aprovação e a ansiedade gerada por não se encaixar em padrões (inalcançáveis), sobre a dicotomia entre ser “você mesmo” e ser “como os outros”, mas, principalmente, sobre o tipo de relações tóxicas e abusivas a que nos submetemos apenas por aceitação.

É nítido que os pais de Kit se preocupam com ela, mas parece óbvio também que tanta preocupação vem disfarçada de cobrança. A impressão é que eles não sabem demonstrar o excesso de cuidado com o futuro da filha sem parecer frustrados com as escolhas dela, que sente ser uma decepção por não ter um emprego, um namorado, por ser uma artista e não focar em algo mais “produtivo”.

Loja de Unicórnios
Gene e Gladys, pais de Kit (Imagem: Netflix/divulgação)
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As interações com os homens também são problemáticas, ainda mais por representarem situações nada saudáveis (e tão cotidianas). Há uma tentativa de fazê-la olhar de outra forma para Kevin (Karan Soni), um vizinho de infância que agora trabalha com os pais de Kit, seja como interesse romântico ou como exemplo a ser seguido. Em seu novo emprego, é assediada pelo chefe Gary (Hamish Linklater), em cenas que deixam desconfortável a protagonista e também a espectadora, e é nítido que ela fica incomodada, mas que não sabe bem como reagir, e isso é compreensível: Kit acredita que precisa manter-se no emprego e demonstrar sua capacidade e também não quer decepcionar os pais, os colegas de trabalho, com quem tenta interagir sem sucesso, e nem a si mesma.

Loja de Unicórnios
Brie e Mamoudou gravando cena de “Loja de Unicórnios” (Imagem: Netflix/divulgação)

Em meio a tantas relações conturbadas, temos Virgil (Mamoudou Athie), que ajuda Kit a construir o lar de seu futuro unicórnio. Ainda que haja uma desnecessária tensão romântica, a abordagem é boa e sensível, que demonstra mais amizade e comprometimento do que tensão sexual entre um casal. Também merece destaque a colega de trabalho Sabrina (Martha MacIsaac). Tão fofa e excêntrica quanto a própria Kit, ela apoia e incentiva a amiga mesmo sem saber dos unicórnios ou apesar de tantas ideias malucas que saem da cabeça da protagonista.

E é claro, não podemos esquecer do O Vendedor, interpretado por Samuel L. Jackson! É ele quem faz o filme andar ao apresentar as missões que permitirão a Kit, enfim, ter seu amado unicórnio. Eles têm uma química muito boa, vista inclusive em Capitã Marvel, com momentos engraçados entre conversas profundas sobre a infância, o amor de Kit por unicórnios e seus problemas pessoais. Mas o que chama a atenção é como O Vendedor consegue entrar na mente da protagonista e fazê-la refletir sobre a vida e a forma como se relaciona com quem ela acredita ter decepcionado.

Loja de Unicórnios
O Vendedor e Kit (Imagem: Netflix/divulgação)

Muito do brilhantismo de “Loja de Unicórnios” deve-se à evolução de Brie Larson enquanto Kit. Além do talento para dirigir e co-produzir um filme com narrativa e visual tão bonitos, ela prova que não tem nada de apática e transborda sensibilidade e entrega apenas pelo olhar. A atriz faz comédia sem parecer caricata e transparece emoção quando o momento exige, ao ponto de nos fazer rir e chorar com a personagem.

Como Kit, uma adulta sonhadora que ama unicórnios desde sempre, assim como arte, cores e muito glitter, ela mostra que cultivar essa inocência infantil é somente uma transgressão necessária em um mundo que exige sobriedade e os pés bem fincados no chão. O unicórnio que ela tanto anseia poderia ser qualquer outra coisa, mística ou não. Porque a moral da história é, no fim das contas, sobre sonhar e construir um caminho para tornar o sonho realidade, sem esquecer daqueles que acompanharam a jornada.

Loja de Unicórnios
Imagem: Netflix/divulgação

Loja de Unicórnios” é uma história sensível, com um tom levemente dramático e pitadas de um humor inteligente muito bem distribuídas. Apesar de alguns clichês, faz uma crítica pertinente à nossa sociedade, que cultua o “seja você mesmo”, mas que condena tudo o que é diferente do padrão, e traz uma mensagem importante, ainda que nas entrelinhas, sobre as relações cultivadas com quem é importante em nossas vidas, sobre crescer e aprender a lidar com as expectativas e frustrações que acumulamos pelo caminho, sobre colocar-se em primeiro lugar, sem esquecer daqueles que compõem nosso círculo afetivo mais próximo. “Loja de Unicórnios” merece ser visto – se não pela narrativa ou pela maravilhosa Brie Larson, com certeza pelos incríveis unicórnios!


Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.

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No momento gamer casual. Em tempo (quase) integral Comunicadora, Relações Públicas e Pesquisadora. Pisciana e sonhadora, meio louca dos signos, meio louca dos gatos. Fã de tecnologia, games, e-sports e outras nerdices.
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