Watchmen – 1×08: A God Walks into Abar

Watchmen – 1×08: A God Walks into Abar

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A um episódio perto do final, Watchmen apresenta uma verdadeira carta de amor a seu material de origem em seu oitavo episódio, “A God walks into Abar”, da maneira mais tradicional possível: através de um romance trágico, fadado à ruína. Dividindo opiniões pelas redes sociais e entre espectadoras assíduas, contudo, o capítulo conta com uma das narrativas mais bem executadas da série até o presente momento.

AVISO: o texto contém spoilers do oitavo episódio de “Watchmen”

A bordo do túnel do amor em Watchmen

O episódio anterior, “An Almost Religious Awe”, deixou a audiência sem fôlego algum ao despejar uma revelação a poucos minutos do final: Dr. Manhattan (Yahya Abdul-Mateen II) não apenas nunca esteve em Marte, como também viveu os últimos dez anos em Tulsa como um homem humano, Cal Abar, marido de Angela Abar (Regina King).

Enquanto isso, a Sétima Kavalaria, encabeçada pelo senador Joe Keene (James Wolk), está em seu encalço, a fim de absorver os poderes da entidade. Mas nada é tão simples. Fiel ao padrão instituído pelos episódios anteriores, entre picos de tensão e introspecção entrelaçados, a série deixa de lado o ritmo acelerado por alguns instantes, e somos convidadas a conhecer o início do improvável romance entre Angela e Jon Osterman, na perspectiva de ninguém menos que o próprio Jon.

Cena do oitavo episódio de Watchmen
Cena do oitavo episódio de Watchmen (Imagem: HBO / reprodução)

Iniciamos com a tão falada cena do trailer exibido na SDCC (San Diego Comic Con) deste ano, na qual Manhattan se materializa no Vietnã de 2009, durante as comemorações do dia da vitória dos EUA, em direção a um bar no qual Abar, ainda uma oficial da polícia de Saigon, bebe sua cerveja e rememora o dia em que os pais morreram.

Oculto por uma das várias máscaras de Dr. Manhattan espalhadas pela cidade, Jon se senta junto à policial, com dois novos copos de cerveja nas mãos (espelhando sua própria história na HQ, na qual sua antiga namorada, Janey, fora a primeira mulher a lhe pagar uma cerveja em um bar). Ele sabe que está apaixonado e também sabe como tudo termina, mas não pode se impedir de colocar em curso a roda da fortuna, tomando parte em acontecimentos que já ocorreram e sempre ocorrerão.

Intrigada pelo desconhecido, Angela tenta manter a postura. Fiel à premissa de que o melhor lugar para se esconder algo é diante dos olhos, a entidade já se apresenta como Dr. Manhattan desde o princípio, relatando o que fez e o que fará nos últimos anos: como criara vida em Europa, uma das luas de Júpiter, inspirado em um acontecimento de sua infância; como passaria seis meses ao lado de Angela; como uma briga entre ambos o faria repensar no que fazer; como viveria os próximos dez anos casado com a policial, junto de três crianças. Angela ri. Ela nunca vai se casar ou ter filhos. E, no entanto, uma família é tudo o que sempre quis.

O fantoche que enxerga suas cordas

A narrativa de Watchmen oscila entre diversos momentos na vida de Manhattan: sua infância refugiando-se junto com outros imigrantes judeus em uma mansão na Inglaterra; após 1985, em Europa; em 2009, no bar com Angela; e então em 2019, quando a entidade desperta, após anos vivendo como Cal Abar. Não se trata de meros flashbacks, mas de uma cuidadosa construção para que entendamos sua visão do tempo e do espaço, à semelhança de seu capítulo na graphic novel.

Dr. Manhattan em Watchmen
Dr. Manhattan em Watchmen (Imagem: HBO / reprodução)

Desde o acidente nuclear em 1959, Jon Osterman experimenta simultaneamente o passado, o presente e o futuro: não há conceitos de “antes” ou “depois”. É sempre aqui e agora, e Manhattan vive toda a sua existência ao mesmo tempo. Os cortes das cenas e os diálogos intercalados nos passam a sensação de que estamos com Angela, mas também estamos em Europa, ou na Antártida com Adrian Veidt (Jeremy Irons).

Em se tratando de Dr. Manhattan, não são poucas as menções a seu status de deus: como é capaz de criar qualquer coisa do pó, e ao pó tragá-la de volta; sua percepção de tempo como um construto inteiro e simultâneo. Pouco se fala, contudo, de sua própria jornada dentro da trama, de como seu âmbito de escolhas e decisões está perpetuamente aprisionado por sua onisciência. Sempre sabendo o que vai acontecer e o que está acontecendo, Jon toma decisões porque sabe que já as tomou e vai tomá-las, eternamente imobilizado pelas engrenagens do tempo.

À semelhança dos protagonistas de tragédias gregas, desprovidos de livre arbítrio e sempre à mercê da vontade dos deuses, Dr. Manhattan caminha passivamente através dos tempo pois (em sua visão) não há outra escolha. Em um dado momento do quadrinho, descreve a si mesmo como “um fantoche capaz de enxergar as cordas” — simbologia, não por acaso, resgatada no episódio anterior na figura do marionetista.

Angela Abar e Dr. Manhattan em Watchmen
Angela Abar e Dr. Manhattan em Watchmen (Imagem: HBO / reprodução)

Este aspecto se evidencia neste episódio. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, Damon Lindelof comenta que refletiu longamente sobre como inserir a entidade na série da HBO – como um dos personagens mais icônicos da graphic novel estaria a serviço do protagonismo e da história de Angela? A resposta: pelo amor. Continuamente cometendo o erro de se esquecer das emoções humanas que ainda guarda consigo, Manhattan não apenas é um prisioneiro do tempo, como também do amor. É este sentimento que o leva a recuperar o fascínio pela humanidade no quadrinho; também é o amor que o faz retornar à Terra para se encontrar com Angela.

A policial, por sua vez, se apaixona pela certeza e segurança que Manhattan, por conhecer o futuro, lhe passa. Após ter toda a sua ancestralidade e seu passado retirados de si, Abar encontra conforto e abrigo no amor de um deus eterno. E assim, mesmo que adotemos a perspectiva de Dr. Manhattan por alguns minutos da série, entendemos que sua presença é apenas uma faceta menor da jornada involuntária de Angela Abar na reconquista de suas raízes.

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A compreensão se ratifica quando Abar liberta os poderes do marido. Quando este lhe relata que está conversando com Will Reeves (Louis Gossett Jr.) em 2009, a fim de formar uma aliança com o ex policial, Angela pede, em 2019, que Manhattan pergunte como seu avô sabe da ligação de Judd Crawford (Don Johnson) com os Ciclopes, bem como do capuz escondido no armário do chefe de polícia. A entidade leva estas informações a Reeves, que não as conhecia até aquele momento, e Abar então entende ter sido ela mesma a causadora da cadeia de eventos que trouxe o ex-Justiça Encapuzada de volta a Tulsa.

Cena de Watchmen - HBO
Cena de Watchmen (Imagem: HBO / reprodução)

Quem veio primeiro, afinal? O ovo ou a galinha? Instaura-se um paradoxo temporal, mas os detalhes pouco importam. Resta evidente, de uma vez por todas, que esta é a narrativa de Angela Abar, e que Manhattan é, antes de tudo, um instrumento para sua progressão.

O paraíso perdido de Ozymandias em Watchmen

Descobrimos, afinal, o elo perdido entre Adrian Veidt e o restante da trama. Durante sua estada em Europa, Manhattan prestou uma singela homenagem ao senhor e a senhora da mansão que o abrigou quando criança, criando duas formas de vida à imagem e semelhança destes, os primeiros habitantes do paraíso isolado na Lua. Projetados como seres dóceis, a adoração destas criaturas por Manhattan rapidamente o cansou, levando-o a abandoná-los à espera de um novo mestre para amar e servir.

Em 2009, visitando o palácio de Karnak na Antártida, antiga moradia de Ozymandias, em busca de ajuda para viver ao lado de Angela como um homem comum, Jon se depara com uma joia criada pelo magnata, capaz de bloquear seus poderes e memórias. Em troca, Veidt pede apenas para ser amado como o salvador que impediu o fim do mundo anos antes, e que a humanidade jamais conheceu.

O homem mais inteligente do mundo não encontrará a utopia de seus sonhos na Terra, diz Manhattan, mas em Europa. E assim, Adrian é teletransportado. Mas sabemos bem que logo o ex-vigilante chega às mesmas conclusões de Jon, e o paraíso se converte em prisão.

Ozymandias
Cena de Watchmen (Imagem: HBO / reprodução)

Ao fim do episódio, Veidt lê um livro (“Fogdancing”, de Max Shea, autor de “Contos do Cargueiro Negro”, e um dos artistas recrutados para projetar a lula gigante em 1985, e que muito provavelmente possuirá um papel simbólico relevante na trama principal. O Guarda Florestal adentra o aposento com mais um dos bolos de aniversário que apareceram anteriormente; em uma conversa um tanto quanto angustiada, revela ter sido a primeira criação de Manhattan, o sr. Phillips original.

Se Laurie Blake (Jean Smart) associar a origem do vigilantismo a um trauma, o que pensar do Guarda, um justiceiro mascarado que em muito se assemelha a figuras como o Zorro ou o Cavaleiro Solitário? Após a experiência traumática de ver seu primeiro mestre, Jon, abandonar Europa, o Guarda é aquele que se certifica de que Adrian Veidt jamais faça o mesmo. Interessante pensar que fantasias de trauma e escapismos ainda tomam lugar, mesmo no paraíso projetado por Dr. Manhattan.

No bolo de aniversário há uma ferradura ali colocada pela sra. Crookshanks, seguindo os planos de seu mestre. Veidt se alegra e põe-se a escavar os fundos da masmorra com a ferramenta, deixando-nos na expectativa de seu retorno para o universo principal da série.

O passado, o presente e o futuro ao fim da temporada

Dr. Manhattan - HBO
Cena de Watchmen (Imagem: HBO / reprodução)

O que temos, até o momento, é um episódio cuidadoso, fiel à personagem superpoderosa imaginada por Alan Moore, e uma atuação igualmente meticulosa entregue por Yahya Abdul-Mateen II, que materializa um Dr. Manhattan tomado de todas as contradições que o fazem ser quem é.

Às portas do último episódio de Watchmen, perguntas ainda esperam por resposta: qual o propósito do Relógio do Milênio? Qual o propósito de Lady Trieu com o clone de sua mãe, Bian? Onde estão Dale Petey, Laurie Blake e Wade Tillman? O que está em jogo após a captura de Manhattan pela Kavalaria? Não sabemos o que esperar, e o futuro parece tão incerto quanto o túnel do amor atravessado por Jon em sua forma humana. Uma coisa é certa: estaremos lá para presenciá-lo. Ou será que já estamos?


Edição e revisão realizada por Isabelle Simões.

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Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
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