História de um Casamento: a complexidade da vida conjunta sem favoritismos

História de um Casamento: a complexidade da vida conjunta sem favoritismos

Do breu, surge a face de Scarlett Johansson. Sob a forte luz do holofote e sua metalinguagem, “História de um Casamento” começa. É uma entrada marcante, que prende a audiência e, aliada à narração, desperta curiosidade e cria expectativa sobre a trama que surgirá. O novo filme de Noah Baumbach segue a linha de suas produções anteriores – sendo a quarta em que repete a parceria com o Adam Driver –, com uma mistura complexa entre drama e comédia que o diretor parece ter aperfeiçoado até finalmente resultar neste roteiro. 

O título é uma explicação muito singela da narrativa, apesar de verdadeira. A trama trata do processo de divórcio entre Nicole (Johansson) e Charlie (Driver): como essa separação se torna cada vez mais difícil enquanto promessas antigas e oportunidades perdidas são relembradas, familiares são envolvidos e a criação do filho Henry (Azhy Robertson) é discutida. 

História de um Casamento

Evidenciando o desgaste da relação e a necessidade por ruptura, Charlie e Nicole seguem ritmos opostos ao longo do filme. Ela, mais emotiva, expansiva e transparente desde o início, já surge em um ápice, desesperada por mudança. Ele, por outro lado, sempre mais contido, vai perdendo o controle com as frustrações da disputa legal e atinge o clímax de sua exasperação junto ao clímax do roteiro. 

História de um Casamento - crítica
Cena de “História de um Casamento”. (Créditos: Netflix)

Os dois ocupam posições opostas na narrativa, mas ainda orbitam um ao outro por mais que tenham atingido esse ponto de repulsa; estão emocionalmente entrelaçados como é de se esperar de um casal que criou uma família e trabalhou junto ao longo de tantos anos. E isso está refletido na fala dos dois, o que faz com que a troca entre os pontos de vista não seja irritante nem cansativa: não há uma mudança brusca de tom entre eles, apesar das mensagens serem diferentes. 

Impressionante é como o filme consegue capturar essa complexidade da vida humana e expô-la com tanta facilidade (por mais que, na realidade, inúmeras horas de reescrita e ensaios estejam por trás do projeto). A bagagem entre eles é inegável e a narrativa consegue reproduzir isso com maestria, usando-a em seu favor para criar uma trama dinâmica sem precisar recorrer a reviravoltas baratas. 

O alto nível de verossimilhança que o roteiro consegue atingir faz com que todos os momentos de “História de um Casamento” (melancólicos ou felizes) tenham um impacto: nada ali é gratuito ou desperdiçado. Para uma história teoricamente banal, Baumbach consegue criar uma experiência na qual a audiência também se envolve no drama das personagens, simpatizando com as emoções vividas e incapaz de se distanciar daquele mundo sem antes ter algum tipo de desfecho. 

Quem está certo nessa história? 

Nicole (Scarlett Johansson) e Charlie (Adam Driver)
Nicole e Charlie deitados com Henry. (Créditos: História de um Casamento / Netflix)

Particularmente, é difícil não ficar do lado de Nicole pelo menos ao início, com uma visão mais ampla da situação. Os relatos dela sobre o relacionamento e todos os seus sacrifícios, antes vistos como decisões apaixonadas, constroem a definição de uma relação abusiva. Ela mesma diz em diversos momentos como foi diminuindo ao lado de Charlie, vivendo em função da felicidade dele e apagando seus desejos e sonhos, perdendo sua individualidade.

Como outros personagens apontam, Charlie tenta ser um marido melhor na fase errada. Os erros acumulados ao longo dos anos não podem ser reparados simplesmente com passividade durante o processo de separação. O período de negação dele ao fato de que irão realmente se divorciar também perdura, complicando seu comportamento. Ademais, suas ações não têm consequências – não para ele. Essa ausência de “punição” (combinada com o indefinido teor autobiográfico da história) nos faz ressentir o personagem de Driver um pouco mais.

Por outro lado, pode-se argumentar que Charlie sofre não da maneira tradicional, perante a sociedade, mas a nível pessoal, com as perdas emocionais. Ao seu ver, ele está sendo removido da vida da esposa por decisão unilateral dela e está sendo afastado do filho sem grandes possibilidades de remediar a situação. Em um filme “apenas” sobre a vida, prejuízos emocionais são consequências mais do que válidas.

Laura Dern e Scarlett Johansson em "História de um Casamento"
Laura Dern e Scarlett Johansson como Nora e Nicole. (Créditos: História de um Casamento / Netflix)

Além disso, o primeiro acordo que vemos entre os dois é de que não envolveriam advogados e que a separação seria totalmente nos termos deles, amigável. Nicole joga esse acordo por terra assim que conhece Nora Fanshaw (Laura Dern), uma representante legal com uma reputação estabelecida sobre agressivamente defender ex-esposas. Essa decisão pode ser interpretada tanto como uma maneira de se defender ou se vingar de Charlie, dependendo de qual perspectiva a audiência defende.

Evidentemente, isso ressalta o talento no roteiro de Baumbach, que não favorece nenhum dos lados. Os personagens secundários possuem um papel fundamental nessa dinâmica ambígua, navegando seus favoritismos assim como o público. Em certo ponto, é possível até mesmo se solidarizar com o casal e repudiar todas as demais personagens, como se fossem verdadeiros obstáculos ao desejo de resolução. E a história consegue se guiar em cima desse benefício da dúvida concedido aos protagonistas através de um jogo de perspectivas que não é forçado nem carregado de falso suspense. 

Adam Driver em "História de um Casamento"
Henry e Charlie durante uma das visitas do pai à Los Angeles, onde o garoto agora mora com a mãe. (Créditos: História de um Casamento / Netflix)
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Dentre outras decisões acertadas, o triunfo do roteiro está em não declarar vencedores. Na verdade, ambos perdem (e muito) no processo. Há melhorias generalizadas, claro, mas elas são visíveis apenas em uma comparação direta entre o ponto inicial da narrativa e o seu final. O importante mesmo são todos os altos e baixos do percurso, o que – para aludir à metalinguagem da qual o próprio filme se utiliza ao ter seus protagonistas como artistas – é justamente o que assistimos. 

A vida é feita do conjunto de todos os momentos de instabilidade, como são superados e as mudanças que resultam disso. Eventualmente, percebe-se que o principal não era se o casal conseguiria se divorciar: desde o início já era sabido que eles estariam eternamente conectados devido ao filho. E, mesmo que Henry não existisse, o argumento do filme é que as memórias que compartilham são muitas para que um distanciamento completo seja sequer possível. A única alternativa é aprender a conviver.

“História de um Casamento” e a corrida pelo Oscar 2020

Em dezembro, existem várias premiações do cinema norte-americano. Utilizando o resultado delas como um termômetro, críticos e jornalistas começam suas apostas sobre as indicações ao Oscar do ano seguinte. Dessa vez, a temporada de premiações não poderia ser diferente. 

estreia História de um Casamento
A première de “História de um Casamento” aconteceu em Nova York, no histórico cinema Paris Theather, que possui apenas uma sala. A Netflix “salvou” o local, que havia sido fechado em agosto, após 71 anos de funcionamento, e pretende exibir várias de suas produções nele. (Imagem: reprodução)

Houve um investimento pesado da Netflix na divulgação de “História de um Casamento” – o que aumenta muito as chances do filme ser visto pelos votantes e, consequentemente, as chances dele ganhar. Sendo assim, a produção já levou 16 prêmios até então, dominando nas categorias de Melhor Roteiro, Melhor Ator para Adam Driver e Melhor Atriz Coadjuvante para Laura Dern (com seu monólogo marcante sobre maternidade). Vale notar que também houve uma vitória importante para o compositor Randy Newman, famoso por clássicos da Disney, que fez um trabalho belíssimo na trilha do drama. 

Adicionando as recém-divulgadas seis indicações ao Globo de Ouro – o maior número dentre todos os candidatos –, é possível não somente visualizar o filme na cerimônia principal do dia 9 de fevereiro, como também a vitória de ao menos uma estatueta. As atuações realmente sustentam o filme, sendo capazes de reproduzir o roteiro de modo fiel e multifacetado. Apesar da direção ter responsabilidade nisso, a estratégia parece ser apostar na vitória de Baumbach como roteirista. 

Jennifer Jason Leigh e Noah Baumbach no tapete vermelho do Oscar em 2006
Jennifer Jason Leigh e Noah Baumbach no tapete vermelho do Oscar em 2006, quando ainda eram casados. (Imagem: reprodução).

E nenhuma disputa é completa em Hollywood sem uma dose de drama da vida real: situações dos bastidores podem alavancar a divulgação de um filme. Além de “História de um Casamento” contar com performances e elementos narrativos emocionantes que já costumam agradar os membros da Academia, a especulação sobre a veracidade dos eventos retratados na trama causou burburinho na mídia.

Noah Baumbach foi casado com a atriz Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados). E assim como a protagonista Nicole, ela também começou a carreira com uma personagem mais “sexy” e, anos depois, retornou a Los Angeles por ter aceitado um piloto para a TV (que nunca foi ao ar). Em 2012, Baumbach lançou o filme “Frances Ha”, um sucesso de crítica protagonizado por Greta Gerwig (que futuramente dirigiria Lady Bird).

Leigh também estava no elenco e, apesar de ela e Baumbach terem se divorciado em 2013 – tendo a guarda compartilhada de um filho –, especula-se que ele e Gerwig começaram a namorar antes dessa data. São muitas similaridades para que a imprensa deixasse passar batido. Ainda assim, apesar de Leigh não ter dado nenhuma declaração pública, o próprio diretor já comentou sobre esse teor autobiográfico em entrevistas, afirmando que observações que ele faz sobre a vida tornam-se, de fato, ideias para seus filmes, mas que esse não seria o caso com História de um Casamento.

Na verdade, o roteiro seria uma mistura das histórias de inúmeras pessoas que ele conhece e já conversou, não um relato pessoal. Baumbach também disse que mostrou o filme à ex-esposa antes de finalizá-lo, para que tivesse tempo de fazer alterações caso necessário. Entretanto, ela teria gostado sem problemas – afinal, a história não é sobre o casamento dos dois. 

Noah Baumbach, Laura Dern e Greta Gerwig no tapete vermelho do Gotham Awards
Noah Baumbach, Laura Dern e Greta Gerwig no tapete vermelho do Gotham Awards esse ano. Os dois estão com suéteres homenageando Dern, que também está no elenco de “Little Women“, adaptação de Gerwig muito esperada. (Imagem: reprodução)

Se esses questionamentos são válidos ou não, é uma outra discussão. Incontestável mesmo é a presença do filme na corrida pelo Oscar do ano que vem e todos os méritos da produção por estar alcançado o devido reconhecimento. Confira a seguir o trailer de “História de um Casamento”, disponível para assinantes da Netflix desde sexta-feira (6).


Edição e revisão realizada por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Graduada em Publicidade e Cinema pela UFMG, se interessa pelos mais diversos assuntos. Comediante por natureza e professora por acaso, se descobriu escritora por necessidade. Sonha em ser uma poliglota fluente, mas não consegue focar em estudar um só idioma por vez.
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