Não Olhe Para Cima: o que há de novo sobre crises

Não Olhe Para Cima: o que há de novo sobre crises

Há pouco ainda para se discutir sobre o filme Não Olhe Para Cima, mas há muito o que dizer sobre crise climática e ciência.

O filme original da Netflix, lançado em 2021, diz muito sobre a sociedade atual e o negacionismo científico. O diretor Adam McKay buscou através de um roteiro repleto de sátiras, fazer um paralelo entre a realidade e a ficção onde um cometa gigante se aproxima em direção da terra. O elenco é de grandes nomes e rende uma performance de destaque para Jennifer Lawrence, uma jovem cientista que é constantemente descredibilizada na mídia.

Atenção: o texto contém spoilers do filme Não Olhe Para Cima

Não Olhe Para Cima e o ambientalismo no audiovisual

A crise ambiental é um tema retratado há décadas no meio audiovisual, principalmente em obras de ficção científica. Blade Runner, Armagedon, Guerra dos Mundos, Star Trek e outros títulos, se empenham em demonstrar as mais variadas formas de possíveis extinções da humanidade. Temos também as utopias que representam sempre caminhos por onde o meio e a sociedade vivem em harmonia. Alguns perigos ou bençãos vêm dos céus, outros do nosso próprio planeta. Seja como for, o apocalipse entretém as pessoas.

Mas com o passar dos anos, a crise ambiental vêm se tornando cada vez mais grave. Atrelados a esta grande crise, surgem outros problemas, tais como: o aumento da desigualdade social, refugiados climáticos, danos físicos causados por agrotóxicos, e assim por diante. Não Olhe Para Cima parece rir de si mesmo ao retratar o quanto as pessoas deixaram de se importar com perspectivas distópicas, uma vez que todos aprendem desde cedo que conceitos desse cunho são apenas… distopia. Apenas filmes, livros ou videogames.

Jennifer Lawrence, Leonardo DiCaprio e Timothée Chalamet no filme "Não Olhe Para Cima"
Jennifer Lawrence, Leonardo DiCaprio e Timothée Chalamet no filme “Não Olhe Para Cima” | Imagem: Netflix
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Em certa cena do filme, a personagem Kate (Jennifer Lawrence) fala do cometa e a possível extinção das espécies terrestres na rua. Uma mulher, assustada, a questiona. E a personagem de Lawrence diz “é só para um videogame”. A explicação parece ser boa o bastante, pois a mulher se tranquiliza e segue com sua vida.

Portanto, é evidente que desastres ambientais são costumeiramente representados como distantes da realidade atual. Tão distantes que parecem ser mera ficção. Mas a crise climática é alarmante. De acordo com o relatório publicado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU em 2021, algumas mudanças no planeta resultantes da ação antrópica (humana) se tornaram irreversíveis, como o aumento continuo do nível do mar.

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Ciência como vela no escuro

“Nenhum outro planeta no sistema solar é uma boa casa para os seres humanos; temos esse mundo ou nada. Essa é uma percepção muito poderosa.” 

Carl Sagan é um conceituado astrônomo e divulgador científico a quem a frase acima é referenciada. Seus esforços em democratizar o acesso à ciência e a informação são mundialmente reconhecidos, e sua percepção sobre o planeta Terra, lembrada por muitos que persistem na luta por um mundo melhor.

O astrônomo é citado em Não Olhe Para Cima, mas as referências a grandes nomes da ciência param por aí. O filme não é uma homenagem ou mensagem de esperança. É na verdade um grito desesperado e profundamente irônico sobre a situação atual do planeta. E nem por isso deixa de ser verdadeiro. O combate pacífico e inteligente de cientistas como Carl Sagan são esquecidos ao longo da narrativa e também ao longo de crises reais, ao passo que a ignorância prevalece e se estabelece como uma praga.

O tom satírico do filme se sobressai ao tom alarmante, mas os dois parecem funcionar em equilíbrio. Ora o público é levado a rir da incompetência dos governantes, ora é levado a se desesperar pela iminente destruição do planeta. No entanto, há certa relevância em tratar as crises globais assim. Poucos filmes o fizeram. Entretanto, no fim, a sensação de desesperança prevalece. O método científico não consegue se equivaler à influência comprada com o dinheiro. E qualquer ideia de milhões parece não ser tão ruim assim.

Carl Sagan, a ciência como vela no escuro
Carl Sagan | Imagem: Reprodução

Em Não Olhe para Cima a maneira totalmente despreocupada com que todos reagem a situação faz referência a onda interminável de fake news e movimento antivacina nos dias de hoje. Contudo, o filme pecou em algo muito grave. Afinal, a ciência no mundo real segue sendo o que ela sempre foi: uma esperança em meio ao ceticismo inabalável; uma vela no escuro.

Imperialismo ambiental

Nenhuma obra é apenas uma obra, pois tudo o que é arte expande-se para além das fronteiras de si mesma. Algumas das interpretações do longa fazem de fato jus a uma ideologia problemática no roteiro. Determinados comentários recorrentes sobre o filme diziam sobre torcer para o cometa.

No próprio filme a narrativa dá indícios de que a extinção da humanidade (e lembrem-se: e de todas as outras espécies do planeta!) era algo natural, afinal de contas. Contudo, o mundo não é apenas Nova Iorque ou políticos negacionistas. Alguns flashes do filme mostravam outras culturas e espécies, mas não se apegava a elas, como se apenas os Estados Unidos pudesse salvar o mundo e apenas por ele o mundo merecesse ser salvo.

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Essa visão imperialista é recorrente em muitas obras que retratam a crise ambiental. A espécie humana como um todo carrega a culpa do que uma pequena porcentagem de pessoas – detentoras de grande poder econômico – fazem constantemente. Aqueles que mais são merecedores de críticas nunca são os verdadeiros culpados, mas sim financiam filmes caros sobre um dia, onde algum herói americano salvará a Terra.

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Torcer para o cometa remete ainda ao pensamento de que “um mundo melhor é um mundo sem a espécie humana”, como se o problema fosse a humanidade e não a poluição incessável ou o desmatamento. Essa ideia diz que os recursos são finitos e portanto a espécie humana deve se adaptar ao meio ambiente. Mas aqueles mais afetados nessa perspectivas são sempre os menos privilegiados: as classes sociais mais baixas.

Imperialismo ambiental retratado em "Não Olhe Para Cima"
Imagem do filme “Não Olhe Para Cima” | Imagem: Netflix

Não Olhe para Cima: compreendendo crises

Mas nem tudo é desesperança. Movimentos políticos seguem se esforçando em ligar obras fictícias a temas socioambientais, de maneira que a arte não aliene e sim fornece meios acessíveis para que a população se conscientize e desenvolva suas opiniões de maneira crítica. Algumas obras como Okja do diretor Boon Joo-Hoo e Princesa Mononoke, de Hayao Miyazaki, retratam mais do que uma camada dessa sociedade capitalista do século XXI.

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O tom satírico de Não Olhe Para Cima permite que o filme faça todas as piadas permitidas – e não permitidas – sem que seja criticado por isso. Talvez a intenção não fosse alertar ninguém, mas adentrar nas situações que seriam cômicas se não fossem trágicas. De uma maneira ou outra, os movimentos populares que tanto fazem falta neste longa do momento são recompensados na real sociedade.

A população não é apenas fantoche dos governantes, mas sim uma importante força que faz uma diferença enorme entre um desastre de nível astronômico e uma chance para a sobrevivência. A ciência e a resistência, portanto, são fatores primordiais nas decisões do futuro do mundo, o qual a espécie humana, embora falha e cômica, é capaz de destruí-lo ou salvá-lo. Conto com vocês para que seja a segunda opção!

Autora:

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Estudante de Letras na Universidade de São Paulo, apreciadora de boas histórias e exploradora de muitos mundos. Seus sonhos variam entre viajar na TARDIS e a sociedade utópica onde todos amem Fleabag e Twin Peaks.
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