O Golpe da Barata: insetos, fantasmas e violência sexual

O Golpe da Barata: insetos, fantasmas e violência sexual

Acima de tudo, a mim, aos sobreviventes de abuso e aqueles que não sobreviveram. Presentes, agora e sempre!” Com essa dedicatória, a quadrinista argentina Gato Fernández dá o tom de sua graphic novel de estreia, O Golpe da Barata. Lançada no Brasil em 2021 pela Comix Zone, a HQ conta uma história sufocante e aterradora de abuso sexual intrafamiliar. Por meio de seu alter ego, Lucía, Fernández revisita uma infância marcada por violência e medo.

O Golpe da Barata é uma história autobiográfica. No posfácio, Fernández fala sobre como sua dedicação aos quadrinhos a salvou do suicídio e serviu como válvula de escape para um segredo que insistia em se manter escondido, por mais que ela quisesse revelá-lo. A primeira versão da história, foi publicada ainda em 2017, em formato curto, na coletânea de quadrinhos DisTinta: Nueva Historieta Argentina. Quatro anos depois, Fernández terminaria o livro – se arrastando um pouco, como ela mesma diz.

Capa da edição brasileira de "O Golpe da Barata", HQ de Gato Fernández.
Capa da edição brasileira de O Golpe da Barata | Imagem: Divulgação
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Com toques de realismo mágico, O Golpe da Barata fala sobre como o abuso sexual pode afetar a visão de mundo, o desenvolvimento da sexualidade e as relações interpessoais de uma criança. Porém, para além do abuso em si, a HQ também retrata uma dinâmica familiar disfuncional, além de um mundo adulto fechado em si mesmo e repleto de seus próprios horrores. Ambos são elementos essenciais para o trauma de Lucía.

Lucía, as baratas e os ratos

Embora a capa da graphic novel já sugira que há algo de errado com a família de Lucía, não fica claro logo de início o que está acontecendo. Nas primeiras páginas, vemos o irmão de Lucía, Fede, assustando-a com uma barata. A cena é seguida por outra mais estranha, de uma menina acompanhada de ratos de paletó e chapéu em um bar com cara de saloon do Velho Oeste. Os ratos levam Lucía até um homem-polvo, que sobe com ela para o quarto. O que, a princípio, parece perturbador, logo se revela uma situação corriqueira: uma criança descobrindo a masturbação com um bichinho de pelúcia.

Contudo, há, sim, alguma coisa de perturbadora no mundo de Lucía. Para começo de conversa, o apartamento de Lucía está cheia de fantasmas, como diz a tagline que também serve de subtítulo para a HQ: Tem fantasmas em casa. E, embora as aparições estejam por toda parte, só Lucía consegue vê-las.

A quadrinista Gato Fernández
Gato Fernández | Imagem: Divulgação

Os fantasmas servem de metáfora para os abusos cometidos por Alberto, pai da protagonista – ou progenitor, como Fernández prefere chamar. Como almas penadas, os abusos se escondem a olhos vistos por todos os cantos do apartamento. Podem tanto permanecer invisíveis quanto ter sua existência negada pelos céticos, que preferem não acreditar nessas coisas. A única que não pode ignorá-los é Lucía. Afinal, eles aparecem todas as noites para puxar seu pé na cama.

As cenas de abuso de O Golpe da Barata são fortes e desconfortáveis. Ou seja, exatamente como devem ser. Os insetos que dão título ao livro – “os bichos mais nojentos do mundo”, segundo o irmão de Lucía – estão sempre presentes. Às vezes, é um inseto gigante entrando no quarto das crianças, à noite. Em outros momentos, são pequenas baratinhas que andam pelo corpo da protagonista enquanto Alberto a toca.

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Outras criaturas que também estão sempre presentes são os ratos. Desenhados com pênis humanos expostos, os ratos têm um papel dúbio: são figuras ameaçadoras, mas que também oferecem proteção. Eles observam Lucía constantemente, aumentando a sua vergonha, mas também tapam seus olhos à noite para que ela não seja obrigada a ver os estupros.

Lucía e os ratos na HQ "O Golpe da Barata"
Lucía e os ratos | Imagem: Divulgação

A vergonha, aliás, é um elemento importante da história. Lucía está em uma fase de despertar sexual, porém, suas experiências com brinquedos e objetos domésticos são marcadas pelos abusos. Os animais de pelúcia com quem ela brinca debaixo dos lençóis a xingam de puta, da mesma forma como sua avó ultracatólica se refere a sua mãe, ou lamentam não poder resistir a ela.

Até aqui, é possível que quem já está há um tempo na internet se lembre da webcomic americana Clarissa, de Jason Yungbluth, que fez algum sucesso na primeira década dos anos 2000. De fato, dá para traçar alguns paralelos entre as duas obras. Entretanto, enquanto Clarissa é sempre triste, assertiva e não hesita em apontar dedos para os seus familiares, Lucía é uma personagem mais complexa. Afinal, trata-se de uma obra autobiográfica.

Junto com os abusos, Fernández retrata também as pequenas alegrias do dia a dia da personagem e deixa claro, por meio do realismo mágico, que ela ainda não tem as ferramentas para processar a violência que sofre. Tudo isso deixa a narrativa bem mais real e angustiante.

Alberto, os fantasmas e a família

Os fantasmas da casa de Lucía não atacam apenas a ela. Na forma de demônios, se penduram em seu progenitor, Alberto, um homem que parece extremamente deprimido e anda pela casa como uma sombra. Fora dos momentos de abuso sexual, ele é retratado sempre com raiva e, às vezes, triste. É uma figura pesada, que torna todo quadrinho em que aparece mais tenso.

Alberto é um homem violento. Seus abusos não são apenas contra a filha. Fora do âmbito sexual, ele também é abusivo contra a esposa e o filho mais velho. Alberto grita com as crianças e com a mãe de Lucía, chamando-a de vagabunda idiota e a acusando-a de ter um caso. A única pessoa que escapa de seus ataques é a avó de Lucía, que está sempre disposta a passar a mão na cabeça do filho e também agride verbalmente a nora.

Painel de "O Golpe da Barata", HQ de Gato Fernández.
Alberto e os fantasmas | Imagem: Divulgação

A relação de Lucía com a mãe é a mais complexa de todas. Por um lado, o momento em que a mãe chega do trabalho parece ser um dos pontos altos do dia a dia da menina. Edith brinca e dança com os filhos, ao contrário de Alberto, que só aparece para agredi-los. Porém, ela não protege a filha dos abusos mesmo após ser alertada pela mãe de uma coleguinha de Lucía de que há algo errado acontecendo. Em outro momento, ela conta uma história de teor sexual aos filhos que deixa Lucía perturbada.

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Em um post no Facebook durante a pré-venda de O Golpe da Barata na Argentina, Gato Fernández diz que os testemunhos de sua mãe e de seu irmão foram essenciais para que seu progenitor fosse inocentado dos abusos. Segundo o relato, a Edith da vida real afirmou saber de tudo, mas não ver gravidade no que acontecia à filha. Na HQ, o descaso fica claro quando o que parece ser o fim do tormento de Lucía (o divórcio dos pais) se torna um pesadelo ainda maior: para não ser “dessas mães que afastam os filhos do pai”, Edith os leva para passar a noite no apartamento em que viviam, mesmo a par dos abusos.

Na HQ "O Golpe da Barata", Gato Fernández usa o realismo mágico para contar uma história autobiográfica de abuso intrafamiliar.
Lucía brinca de caçar monstros | Imagem: Divulgação

O Golpe da Barata é, com o perdão do trocadilho, um golpe após o outro. É um quadrinho importante, antes de tudo, para sua autora, que precisava tirar do peito parte da dor que carrega há tantos anos. Porém, é também importante para chamar atenção para casos de abuso sexual infantil, principalmente dentro da família, onde muita gente ainda insiste em achar que as crianças estão seguras.

Mas, mais do que importante, O Golpe da Barata é uma ótima HQ por si só. A história que conta é tensa e desesperadora, mas tem seus momentos de leveza, aproximando-se da experiência real que procura retratar. Os aspectos fantásticos, ao mesmo tempo que nos protegem, também tornam a narrativa mais aterradora – assim como os ratos de Lucía, que continuam lá, assistindo, enquanto ela junta forças para lutar.


Capa de "O Golpe da Barata"

O Golpe da Barata

Autor: Gato Fernández

112 páginas

Editora: ‎ Comix Zone

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Tradutora, jornalista, escritora e doutoranda em Linguística, na área de Análise do Discurso. Gosta de cinema, de ficção científica, de cinema de ficção científica e de batata. Queria escrever quando crescesse e, agora que cresceu, continua querendo.
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