Treta – 1ª temporada: a raiva como motor narrativo

Treta – 1ª temporada: a raiva como motor narrativo

Beef, ou Treta (2023), é a nova série da A24 que traz um retrato da solidão e impotência modernas. Nas duas semanas após o lançamento, a série de dez episódios ocupou espaço no top 10 Brasil e global da Netflix. Treta é o trabalho de Lee Sung Jin, roteirista e diretor que já participou de séries como Undone (2019), Dave (2020) e Tuca & Bertie (2019). Seu trabalho de estreia como criador é uma mistura de tragicomédia com drama psicológico.

A trama segue Amy Lau (Ali Wong), empreendedora angustiada com a venda da sua companhia e buscando passar mais tempo com a família, e Danny Cho (Steven Yeun), empreiteiro sem dinheiro e desesperado para trazer seus pais coreanos de volta para os Estados Unidos. A treta se coloca nos primeiros minutos do primeiro episódio: um Danny frustrado quase bate sua caminhonete no SUV branco de Amy, e as buzinadas e um subsequente dedo do meio desembocam em uma perseguição furiosa no trânsito.

O incidente é apenas o estopim de uma briga que cresce progressivamente durante toda a série, com desdobramentos cada vez mais absurdos, envolvendo cada vez mais pessoas. Os personagens ao redor de Amy e Danny começam superficiais, como espelhos simples para percebermos a complexidade dos protagonistas, mas Treta permite que a história avance e englobe boa parte deles.

Amy e Danny expressando raiva dentro de seus carros.
Amy (Wong) e Danny (Yeun) em imagem de divulgação da Netflix

A entropia na história de Lee Sung Jin

Apesar de ser uma história contínua, existe uma mudança de ritmo sensível: o quinto episódio tem eventos definitivos que dividem a série em dois atos. O primeiro é um olhar angustiante sobre quem são os personagens, qual o seu contexto e como o incidente inicial da história entra nisso tudo. A segunda parte se acelera em uma escalada desesperadora e eufórica, tanto para os personagens quanto para a audiência.

Amy é mãe de Junie (Remy Holt), de seis anos, e esposa de George (Joseph Lee). Seu marido é o principal cuidador da filha, passando a maior parte do tempo em casa, trabalhando nas suas obras de arte. Filho de um artista famoso e de uma infância abastada, ele nos é apresentado como um homem bem intencionado, ingênuo e ligeiramente desconectado da esposa. Logo de início, notamos sua positividade impositiva e a falta de espaço para negatividade na casa.

George está com as mãos sujas de argila, assim como a camisa e o avental. Ele está olhando pra baixo, assim como Amy, que está segurando o rosto do marido com com as mãos, mas olhando para sua obra de argila. Eles estão em um ateliê.
George (Lee) e Amy (Wong) em cena da série

Danny vive com o irmão, Paul (Young Manzino), que é mais novo, menos focado e completamente desinteressado nas opiniões dele. Treta já começa apresentando o desespero de Danny por não conseguir ser o provedor ideal para os pais e um exemplo para o irmão, que visualiza sucesso de uma forma bem diferente da tradição coreana e as expectativas familiares. 

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Esses quatro personagens – Amy, George, Danny e Paul – são o núcleo emocional da série, e episódio a episódio vão revelando suas crenças e traumas. Isso se desenrola não através de conversas francas, mas silêncio angustiado, falas ambíguas e ações impulsivas. George e Paul são construídos como contrastes dos seus pares, mas é o ritmo progressivo da história que permite que eles também se aprofundem no meio da bagunça, ainda que menos que os protagonistas.

Treta tem um enredo que segue um sentido único e irretornável: conforme avança, o grau de desordem cresce e a velocidade aumenta. Tudo parece impossível de reverter, e esse ritmo progressivo é implacável, empurrando eventos, personagens e audiência cada vez mais rápido ao limite. Apesar dos episódios curtos, de menos de 40 minutos, não é uma série leve. Tudo é elevado de forma exponencial.

Treta e suas camadas

Ambas as famílias são descendentes de asiáticos nos Estados Unidos, filhos de imigrantes. Amy tem descendência chinesa, George é japonês, a família de Danny é coreana. Trauma intergeracional – a dor repassada entre pais e filhos – é um dos temas mais explícitos em Treta. Junto dele vemos choque cultural, depressão, raça, classe social, gênero. A série se propõe a tratar de temas densos, e acerta ao entender que nenhum deles pode ser discutido sozinho no vácuo. Para falar do mal estar irremediável de Amy e Danny, precisam tecer uma rede com diversos nós.

Dinheiro, por exemplo, é um fator central na série, e um dos mais interessantes para observarmos essa complexidade. Cada personagem tem uma angústia diferente associada à sua condição financeira, e mesmo quando compartilham dessa condição, suas formas de lidar são diferentes. Ao amarrar todos esses componentes, Treta tem sucesso em contar uma história profunda, detalhada e específica, mas que permite identificação e empatia a cada camada.

Pintura realista de carcaças de vaca e cortes de carne, com o título em branco: "The Birds Don’t Sing, They Screech in Pain", com a legenda em português "Os pássaros não cantam, eles gritam de dor"
Arte de abertura do episódio 1 – “Os pássaros não cantam, eles gritam de dor”

Além de enredo e personagens, outras escolhas compõe a tensão da história: a música grave que anuncia o início de cada episódio, as pinturas que trazem os títulos, entre outras coisas. Cada episódio é nomeado a partir de uma citação ou referência artística, com a intenção de conversar com o comportamento cada vez mais primitivo e descontrolado dos protagonistas. Cada uma das obras de abertura é pintada por David Choe, que interpreta Isaac, primo de Danny e Paul.

Treta retrata raiva e angústia como um reflexo da impotência de Amy e Danny. A história se desenrola para nos explicar (e não necessariamente desculpar) seus comportamentos, desembocando em um final catártico. Os episódios isolados são angustiantes, e o conjunto da obra é uma jornada profunda.

O final catártico de Beef

Aviso: contém spoilers dos episódios 8, 9 e 10

A sequência dos três episódios finais é a mais arrebatadora da série. Em “O drama da escolha original”, vemos recortes da infância dos protagonistas, desde os bebês sorridentes e sem medo, passando por infâncias complicadas, e chegando ao ápice de seus “defeitos”.

Amy tem uma vergonha tão profunda que a materializa na forma de uma mulher nariguda e assustadora que sabe todos os seus segredos, e garante que ninguém poderá amá-la se ela revelá-los pro mundo. Danny tem um medo tão profundo do fracasso que sabotou as aplicações de faculdade do irmão, para tê-lo como igual.

O título do episódio 8 vem de um trecho de A Ética da Ambiguidade, de Simone de Beauvoir – um texto que discorre sobre o efeito dominó que o ambiente e as escolhas que temos desde a infância parece condenar o futuro. Conhecemos mais do processo depressivo dos personagens e como ele está enraizado faz tempo.

O episódio 9, “O grande criador”, podemos argumentar que Amy e Danny estão finalmente encarando as consequências de suas ações. Em vez de adiar mais e mais a verdade com outras mentiras elaboradas, é na sequência do sequestro e roubo que eles fazem as escolhas definitivas que mudam os rumos da história. Danny salva Paul da polícia abrindo o jogo sobre seus erros, o incentivando a deixá-lo pra trás, e Amy, após ter sido honesta com George e encarar seu divórcio no episódio anterior, assume a suas prioridades para salvar a filha.

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Ambos perdem suas contraposições, Paul e George, e são obrigados a encarar sozinhos seus medos e tensões. Em um último acesso de raiva impotente, Danny e Amy caem ladeira abaixo de um penhasco, presos mais uma vez em uma briga de trânsito.

Amy e Danny estão no centro da imagem, que parece ser em um túnel. Os dois estão sujos, com machucados no rosto, e Danny está com o braço amarrado como se tivesse quebrado.
Amy (Wong) e Danny (Yeun) em uma das cenas finais da série

No episódio 10, “Figuras de Luz”, o título vem de uma citação de Carl Jung: “Não se torna iluminado imaginando figuras de luz, mas fazendo a escuridão conhecida” (tradução livre).

Em uma viagem psicodélica no momento que imaginam ser o último de suas vidas, os dois são finalmente capazes de abrir mão da raiva e assumir a própria impotência. Se reconhecendo um no outro de uma maneira muito mais íntima do que a romântica, e finalmente possibilitando uma nova página. Mesmo quando tiveram sucesso financeiro durante a história, e mesmo que ele se tornasse sustentável ao longo do tempo, o buraco era muito mais profundo. A admissão do que eles tinham de pior possibilitou que pudessem, finalmente, começar a relaxar.

Não é possível resumir Treta em uma série sobre ódio, raiva ou depressão. Em sua complexidade, ela vai além. Ela é, certamente, uma viagem – nem sempre prazerosa, mas extremamente humana e bem construída.

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Bia é formada em economia, pesquisadora e escritora. Obcecada por internet e cultura, gosta de escrever para entender o mundo. É leitora assídua de todo tipo de ficção, ama debater filmes e faz perguntas sobre quase tudo - pelo prazer de buscar a resposta.
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