Bertha Lutz e a Carta da ONU: a brasileira que marcou a história

Bertha Lutz e a Carta da ONU: a brasileira que marcou a história

História em quadrinhos sobre a contribuição de Bertha Lutz (cientista, educadora, feminista e militante sufragista brasileira) na reunião para a elaboração da Carta da ONU. Sua participação como delegada brasileira, com plenos poderes, foi essencial para a inserção da igualdade de gênero, dentre outras questões importantes, neste Documento.

Bertha Lutz: bióloga, pesquisadora e sua importância no movimento feminista e na ONU

Muitos biólogos, especialmente herpetólogos (aqueles que estudam os répteis e anfíbios), provavelmente já ouviram falar de Bertha Lutz (1894-1976), tendo em vista que a mesma foi zoóloga e pesquisadora, descrevendo algumas espécies das conhecidas “pererecas”, dentre tantos outros importantes estudos, principalmente de anfíbios, no Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde trabalhou por quase todo o século 20. Porém, o que muitos não sabem é que ela também foi de extrema importância no movimento feminista e sufragista brasileiro e ajudou a constituir o documento que originou a ONU (Organização das Nações Unidas).

Bertha Lutz | Imagem: Reprodução

Mulheres e a origem da ONU

A HQ parte de um tipo de diário deixado por Bertha, onde ela relata sua viagem a São Francisco, em abril de 1945, como membro plenipotenciária da delegação brasileira, ou seja, tinha plenos poderes para representar nosso país na elaboração do Documento que originou a ONU.

A Hq "Bertha Lutz e a Carta da ONU" foi baseada no diário escrito por Bertha sobre sua viagem para participação na fundação da ONU.
A HQ foi baseada no diário escrito por Bertha sobre sua viagem para participação na fundação da ONU.

A obra detalha a participação dela e de outras mulheres que também foram delegadas de seus países, com ou sem plenos poderes. Claro que eram pouquíssimas e, para piorar, algumas não estavam de acordo com a ideia da criação de um subcomitê para dialogar sobre o status das mulheres.

Trecho da HQ "Bertha Lutz e a Carta da ONU", de Amma e Angélica Kalil.
Trecho da HQ Bertha Lutz e a Carta da ONU | Reprodução

Como Bertha cita em um anexo da HQ “É um estranho paradoxo psicológico que muitas vezes aqueles que são emancipados pelos esforços de outros, relutem em reconhecer a fonte de sua liberdade”. Porém, como Amma (desenhista da HQ) e Angélica Kalil (roteirista da HQ) citaram:

“Até mesmo as que se opuseram ou nada contribuíram para a inclusão da palavra ‘mulher’ na Carta da ONU tiveram trajetórias de vida interessantíssimas e subverteram de alguma forma a ordem do lugar destinado ao seu gênero. Suas histórias também merecem ser contadas. E nós merecemos conhecê-las.”

Dessa maneira, o gibi traz vários anexos com uma minibiografia de todas as mulheres citadas na HQ; assim como um texto escrito pela própria Bertha, em que foi baseada a obra, um excelente artigo da pesquisadora e consultora desse trabalho: Teresa Cristina de Novaes Marques e, por fim, alguns comentários da roteirista e da desenhista sobre este material.

Trecho da HQ "Bertha Lutz e a Carta da ONU"
Trecho da HQ Bertha Lutz e a Carta da ONU | Reprodução

Militância no Brasil

Mas Bertha Luz não só fez a diferença para a igualdade de gênero na ONU. No Brasil, ela batalhava pelo voto feminino e pela possibilidade de candidatura das mulheres. Também conseguiu ser eleita Deputada Federal em 1936! Todo esse ativismo e exemplo passam despercebidos pela maioria das brasileiras. Por quê? Como sempre, o trabalho de grandes mulheres em prol da ciência e dos direitos sociais é escondido, adulterado ou até apagado dos livros didáticos e mídias em geral. Consequentemente também do nosso conhecimento.

Há documentários a respeito de Bertha e de suas contribuições para a ciência e igualdade de gênero, porém a documentação doada por ela para o arquivo do Museu Nacional do RJ, que incluía gravações de sua voz, foi perdida no incêndio que destruiu a instituição em 2018. Como não se arrepiar de choque e tristeza ao saber disso?

Trecho da HQ "Bertha Lutz e a Carta da ONU"
Ativismo de Bertha Lutz.

Grandes mulheres brasileiras apagadas dos livros de história

Ainda hoje, as mulheres precisam brigar muito por direitos iguais, assim como tantas continuam ignorantes em se tratando de feminismo, combatendo o mesmo como se fosse algo pernicioso e ruim para a sociedade. Esse gibi trata de temas que, infelizmente, são muito atuais ainda e leva o leitor a querer saber mais sobre o assunto, não apenas sobre Bertha, mas sobre o movimento sufragista e o feminismo brasileiro, como também mundial. Materiais como este também deveriam ser mais divulgados nas escolas e universidades, já que a leitura é de fácil compreensão, prazerosa, toda colorida, inspiradora e necessária. A arte é fofíssima, assim como as letras dos balões e a edição em si.

Tendo em vista o desinteresse e a falta de informação da maioria dos brasileiros por leituras em geral, política, direitos humanos e igualdade de gênero, é lamentável não ter maior disseminação de obras como esta. Relatos de uma vida, ou mesmo de um acontecimento, como no caso desse material, podem ser o estopim para a aquisição de novas percepções. Não apenas sobre o tema dessa obra, mas sobre outros fatos históricos de pouquíssimo conhecimento pela população em geral. HQs jornalísticas e biográficas podem ser a porta de entrada para um mundo novo para diversas pessoas, independentemente da idade.

HQs biográficas e o incentivo à leitura

Obras como Fax de Sarajevo, Persépolis, Palestina, Notas sobre Gaza, O fotógrafo, A Odisseia de Hakim, Grama, Maus, Bordados e O Árabe do Futuro, por exemplo, podem expandir a mente do leitor para reflexões nunca antes tidas ao assistir a jornais, muitas vezes sensacionalistas e absurdamente tendenciosos; onde só um lado da história é contada, quando o é, pois vários países ditos subdesenvolvidos tem seus acontecimentos não relatados pela grande mídia, por serem considerados irrelevantes economicamente, dentre outras questões totalmente injustificáveis.

Esses fatos muitas vezes estarão lá presentes nas histórias em quadrinhos. Narrados de forma lúdica, criativa, estimulante e até divertida, em certos momentos, por mais densa e triste que possa ser o conteúdo, como no caso da já citada HQ, Bordados e Kobane Calling ou Como Fui Parar no meio da Guerra na Síria. Ambos narram fatos tristes, envolvendo principalmente mulheres, mas não deixam de ser uma leitura muito atrativa e dinâmica.

Algumas excelentes HQs biográficas ou jornalísticas: Kobane Calling, Maus, Palestina e Grama.
Algumas excelentes HQs biográficas ou jornalísticas: Kobane Calling, Maus, Palestina e Grama.

A quebra da consolidada opinião de que quadrinhos são apenas sobre coisas tolas e/ou infantis pode começar a partir da leitura de materiais como estes. Daí a importância da disseminação, principalmente nas mídias “fora da bolha” do mundo “nerd”, além de um forte incentivo do poder público.

Obviamente, dentro do grupo dos que já leem gibis, há muitos que nem chegam perto dos conteúdos citados aqui e também precisam urgentemente se informar e ampliar seus tipos de leitura, principalmente aqueles que conservam comportamentos machistas, misóginos e racistas.

Citando Teresa Cristina, no anexo desse quadrinho:

Sabemos que as palavras sozinhas não mudam o mundo. Já as palavras certas, quando recebem a energia política de ativistas, promovem a discussão que pode alterar os parâmetros da interação humana, definir o limite do tolerável e estabelecer a hora de parar com as práticas discriminatórias.”

Bertha Lutz e a Carta da ONU

Angélica Kalil (Autora), Mariamma Fonseca (Ilustradora)

Editora ‏Oh! Outra História!

128 páginas

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Colagem em destaque: Isabelle Simões para o Delirium Nerd.

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Gosto muito de ler, principalmente histórias em quadrinhos biográficas, jornalísticas e de ficção científica! Assisto desenhos, documentários e séries de ficção científica, como Star trek.
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