Chantal Akerman, cinema e o estrondo do silêncio feminino

Chantal Akerman, cinema e o estrondo do silêncio feminino

Chantal Akerman foi uma cineasta belga que, além de dirigir, também foi roteirista, atriz, montadora e professora de cinema e audiovisual. Akerman atuou entre 1968 e 2015 e tornou-se uma das vozes autorais mais influentes do cinema europeu do século XX. Em 2022, sua obra ganhou destaque nas notícias de cinema após a publicação da lista dos melhores filmes da história, organizada pela revista Sight & Sound. Assim, seu longa Jeanne Dielman (1975) aparece como o primeiro da lista, tornando a diretora a primeira mulher a ocupar a posição.

A corporeidade dos filmes de Chantal Akerman

Visto que as obras de Akerman se destacam por seu estilo único de longas tomadas fixas, o espectador experimenta uma experiência quase voyeurística em seu trabalho. Mesmo sem expor muito o que as personagens estão pensando ou a sua intenção, os longos silêncios nos filmes de Chantal estreitam a relação entre o filme e o corpo do espectador.

A realizadora atinge esse resultado por meio da manipulação do tempo, utilizando narrativas que, a princípio, parecem simples. Akerman expande, assim, o tempo fílmico e desafia o espectador a sentir-se desconfortável na posição de mero observador passivo. Suas obras nos convidam a estar presentes, refletindo durante cada segundo de seus filmes.

Como parte desse exercício de incômodo e reflexão, Chantal Akerman escolheu ter como protagonista de seus trabalhos o cotidiano, o mais comum e banal possível. No entanto, ao olharmos tempo suficiente, surgem dele as preciosidades que a diretora procura destacar. Percebemos, então, que mesmo as ações mais simples do dia a dia carregam emoções complexas.

“Em geral, as pessoas vão ao cinema exatamente para fugir do cotidiano. Se eu tenho uma reputação de ser difícil, é porque adoro o cotidiano e quero apresentá-lo.” – Chantal Akerman 

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Chantal Akerman - Retrato de uma preguiçosa (1986)
Tradução: “Hoje é sábado e eu vou fazer um filme sobre a preguiça.” – Retrato de uma preguiçosa (1986) | Imagem: reprodução

Assim como Jeanne Dielman (1975), alguns títulos celebrados da diretora são: Exploda Minha Cidade (1968), Eu, Tu, Ele, Ela (1974), Notícias de Casa (1977), Os encontros de Anna (1978). E muito mais curtas e longas que marcaram a sua carreira. Como O quarto (1972), Retrato de uma preguiçosa (1986) e os documentários Do Leste (1993) e Não é um filme caseiro (2015).

Outro aspecto compartilhado pelos filmes de Chantal é a presença de figuras femininas em seus enredos. O protagonismo feminino na obra da diretora belga eleva os debates sobre a representação do corpo da mulher no cinema contemporâneo.

A recusa de rótulos identitários por Chantal Akerman e sua busca pela liberdade artística

“Eu acho que é pobre e limitante pensar em meus filmes como simplesmente feministas você não diria que um filme do Fellini é um filme masculino. Quando pessoas dizem que existe uma linguagem cinematográfica feminista é como dizer que existe apenas uma maneira de as mulheres se expressarem. Não vou dizer que sou uma cineasta feminista, não estou fazendo filmes de mulheres, estou fazendo os filmes de Chantal Akerman.” – Chantal Akerman 

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Chantal Akerman no set em1986 | © Jean Ber - Chantal Akerman Foundation
Chantal Akerman no set (1986) | © Jean Ber – Chantal Akerman Foundation

Essa perspectiva da cineasta remete à sua forte crença de que seu trabalho não poderia, nem deveria, ser catalogado de forma generalizada. Chantal, uma mulher lésbica que fazia filmes sobre mulheres, recusava rótulos identitários. Seu objetivo era que a arte a libertasse dessas estruturas sociais.

No entanto, é impossível discutir a obra da diretora sem considerar sua grande influência no cinema de autoria feminina. Pensar nesse termo não significa, como Chantal propõe, limitar o cinema feito por mulheres, mas identificar os signos compartilhados dentro dessas produções.

Em suma, suas obras têm em comum o protagonismo feminino. Ao analisar o contexto do cinema da segunda metade do século XX, é importante destacar alguns fatores. Não apenas o advento dos blockbusters, os filmes “arrasa quarteirão” que moldam a cultura pop até hoje, mas também os debates sobre a representação das mulheres no cinema, impulsionados pela Segunda Onda do Movimento Feminista.

Pesquisadoras do audiovisual, como Teresa De Lauretis e Laura Mulvey, deixaram sua marca na época com ensaios importantes sobre a questão. A partir da psicanálise, Mulvey analisa a forma como a mulher é representada no cinema, estabelecendo o termo “male gaze” e destacando como essa representação, em sua maioria, é sexualizada, uma vez que parte do olhar desejante masculino sobre os corpos femininos.

Nos filmes de Chantal Akerman, a mulher aparece como agente de suas próprias ações, explorando uma relação com o corpo, mais especificamente com a nudez, de maneira naturalizada, ou seja, sem exibições e com uma carga performática realista. A obra de Akerman afasta a figura feminina do “male gaze” e emprega uma linguagem própria.

A banalidade nas vozes silenciadas

Em outras palavras, as mulheres retratadas nos filmes de Chantal Akerman são mulheres comuns, personificações de identidades comumente ignoradas em suas vivências. Ao falar sobre Jeanne Dielman, Akerman (2009) afirma que:

“Eu fiz esse filme para dar a todas essas ações que são tipicamente desvalorizadas, uma vida em filme.” 

O filme em questão apresenta o cotidiano aparentemente normal e tedioso de uma dona de casa. No entanto, ele convida o espectador a notar aos poucos os pequenos distúrbios que não se encaixam nessa ideia de representação, até desmoronar de uma vez. Jeanne Dielman é o grande marco do cinema de Chantal Akerman, conjugando de forma clara os aspectos da filmografia da diretora.

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Chantal subverte as expectativas do público que assiste aos seus filmes o tempo todo. Partindo da ideia de uma representação feminina adequada, podemos pensar na voz como uma ferramenta eficaz dessa representação. No entanto, os filmes de Akerman são repletos de silêncio. Esse silêncio pode ser interpretado como as vozes que não ouvimos ou ignoramos.

A cineasta recorre ao silêncio e à solidão para provocar o despertar da consciência de suas personagens. Por outro lado, essas personagens ganham destaque ao fazerem o que fazem todos os dias, sem recorrer a enredos extraordinários. Akerman lança luz sobre aquelas que existem de maneira silenciosa e não são percebidas.

Jeanne Dielman, de Chantal Akerman
Jeanne Dielman (1975), dirigido por Chantal Akerman | Imagem: reprodução

Sobre a escolha da atriz Delphine Seyrig para a protagonista de Jeanne Dielman, a cineasta (2009) diz que:

“Se nós vemos alguém fazendo a cama e lavando a louça, que nós normalmente vemos fazendo essas coisas, nós não iríamos realmente enxergar essa pessoa, assim como os homens são cegos para suas esposas lavando a louça.” 

Em resumo, essa fala revela a intenção presente nas obras de Chantal de representar as vidas silenciosas e, ao mesmo tempo, surpreender o espectador com a intensidade que existe no silêncio.

A jornada das heroínas comuns

As personagens de Chantal são construídas a partir de suas subjetividades, mesmo que essas não fiquem claras para o espectador. Não são os eventos externos que impulsionam suas ações, mas sim a forma como reagem ao mundo ao seu redor.

De acordo com a psicoterapeuta e pesquisadora estadunidense Maureen Murdock, a ideia da Jornada do Herói, presente na literatura e no cinema, também pode abordar o desenvolvimento interno da mulher. A principal diferença entre as Jornadas do Herói e da Heroína é que, no caso das protagonistas femininas, essa jornada ocorre no subconsciente da personagem.

Esse modelo de compreensão das representações da feminilidade no cinema é aplicável à obra de Chantal Akerman. Segundo a autora, essa jornada:

“Não segue linhas retas. É uma jornada que raramente recebe validação do mundo exterior, na verdade, o mundo exterior frequentemente o sabota e interfere nela.” (MURDOCK, 1990, p.26)

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Eu, Tu, Ele, Ela (1974)
Eu, Tu, Ele, Ela (1974) Imagem: reprodução

Por meio das personagens de Chantal, testemunhamos o despertar da consciência através da tensão que constrói momentos contemplativos e aborda o grande tema em questão: as expectativas dos outros e a recusa dessas expectativas pelas personagens (e pela cineasta). Essa tensão representa uma experiência comum nas vivências femininas. As mulheres nos filmes de Chantal Akerman são atravessadas pela espera depositada sobre elas pelos outros e pela sociedade, moldando como suas vidas deveriam ser.

Enxergando Chantal Akerman em Os encontros de Anna

Os encontros de Anna (1978) foi o sexto longa-metragem de Akerman, lançado após Jeanne Dielman e Notícias de Casa (1977). O filme segue Anna (Aurore Clément), uma cineasta belga que, em suas intermináveis viagens para promover seus filmes, tem encontros pontuais com pessoas que geram trocas de reflexões, medos, esperanças e silêncios.

Os encontros de Anna - Chantal Akerman
Os encontros de Anna (1978) Imagem: reprodução

Em muitos de seus filmes, principalmente nos curtas, Chantal incorpora o trabalho de atuação, colocando seu corpo em cena e no centro da atenção do filme. No entanto, em Os Encontros de Anna, a diretora não aparece fisicamente, mas está constantemente presente. Assim como em Notícias de Casa, onde compartilha cartas de sua mãe por meio de narração sobre imagens de Nova Iorque, neste filme, Akerman se coloca como um objeto indireto de suas reflexões.

O filme reforça os elementos discutidos até então, proporcionando momentos de silêncio e explorações banais do cotidiano, que nos permitem uma aproximação intensa das personagens. O espectador estabelece uma relação de intimidade com elas por meio de atos simples, como despir-se e deitar na cama, ouvir as mensagens da secretária eletrônica, entre outros.

Akerman trabalha no filme com a naturalização da nudez feminina. Distanciando-se de uma representação sexualizada pelo olhar masculino, ela apresenta o corpo feminino por uma lente realista e natural. Nos filmes da diretora belga, o sexo difere da intimidade. Embora Anna tenha encontros casuais com homens, o momento de maior troca de intimidade do filme ocorre na conversa entre a protagonista e sua mãe.

Os encontros de Anna (1978)
Os encontros de Anna | Imagem: reprodução

Ao pensarmos nas similaridades entre a trajetória de Anna e a de Chantal, podemos identificar como a diretora também se via como uma “mulher comum”. Presa em seu cotidiano e nas complexidades do dia a dia, apenas os momentos de silêncio permitem que reflitamos e atribuamos significado às nossas experiências.

Os encontros de Anna (1978)
Os encontros de Anna Imagem: reprodução

Por fim, o cinema de Chantal Akerman é construído pela exasperação passiva compartilhada por aqueles que não conseguem ser ouvidos, e a solidão que esse lugar proporciona.

Colagem em destaque: Isabelle Simões para o Delirium Nerd.

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Historiadora e mestranda em Cinema e Audiovisual, com pesquisas voltadas para as relações entre os lugares ocupados por mulheres no cinema brasileiro. Apaixonada por arte, cinema e educação.
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