[LIVROS] Meu Nome é Lucy Barton: Relacionamento entre mãe e filha e o vínculo com a realidade (Resenha)

[LIVROS] Meu Nome é Lucy Barton: Relacionamento entre mãe e filha e o vínculo com a realidade (Resenha)

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O conhecimento popular de que o que vivenciamos na infância, não apenas nos molda, mas nos assombra pelo o restante de nossas vidas nunca foi tão real quanto durante a leitura de Meu Nome é Lucy Barton. Ao longo das 159 páginas do novo livro da ganhadora do prêmio Pulitzer, Elizabeth Strout, vemos pelos olhos da própria Lucy como aquilo que vivenciamos em tenra idade pode nos marcar para o resto de nossas vidas.

Sinopse: “’Vocês só vão ter uma história […]. Vocês vão escrever essa única história de muitas maneiras. Nunca se preocupem com a história. Vocês só têm uma.’ O conselho de Sarah Payne, ficcionista e professora de escrita criativa, marca Lucy Barton em sua busca por uma voz literária no começo da carreira.

Hoje autora bem-sucedida e narradora deste romance, Lucy está há três semanas num hospital com vista para o edifício Chrysler, em Nova York, se recuperando das complicações de uma simples operação para extrair o apêndice. Sofrendo de saudade das filhas e do marido, ela recebe uma visita inesperada da mãe, com quem não falava havia anos.

Mas o que se segue durante as cinco noites em que as duas ficam juntas não são longas discussões de relacionamento ou uma reconciliação verbal. Estimulada pelo exercício da memória, a narradora convalescente lança um olhar aguçado e humano, sem sentimentalismos, para os acontecimentos centrais de sua vida: o isolamento e a pobreza dos anos da infância, o distanciamento de um núcleo afetivo desestruturado, a luta para se tornar escritora, o casamento e a maternidade.

Enquanto isso, Lucy ouve episódios envolvendo amigos, familiares e conhecidos que povoaram sua juventude em um vilarejo rural de Illinois e vê a intimidade com sua mãe se reinventar entre gargalhadas e silêncios. “Mamãe, você me ama?”, a menina do passado pergunta no presente. “Quando os seus olhos estão fechados”, é a resposta de quem nunca foi perfeita e nem poderá ser em seu amor, e talvez seja essa a única história possível para Lucy Barton.

Excelente ficcionista, atenta às relações humanas e aos momentos mais prosaicos de epifania e de revelação, Elizabeth Strout ilumina a relação primordial, ao mesmo tempo conflitiva e afetuosa entre mãe e filha.”

Meu Nome é Lucy Barton

Lucy Barton é uma autora bem-sucedida, casada, com duas filhas, que está internada em um hospital de Nova York com vista para o edifício Chrysler, por causa de complicações decorrentes de uma (simples) operação de retirada do apêndice. Normal, certo? Talvez até demais. A questão sobre Lucy, e talvez o que mais marca a sua história, é que a narradora – e protagonista da trama – teve uma infância extremamente difícil, tanto financeiramente quanto emocionalmente, situação que é tratada durante todo o livro através de paralelos com a atualidade da personagem e, as vezes, justificativas de o porque Lucy age e pensa de tais formas.

O que desencadeia a discussão constante da narradora (com ela mesma) sobre essa questão, é a visita que a mesma recebe de sua mãe, enquanto ainda está internada, fazendo com que alguns aspectos de tal tema sejam discutidos com a visita, personagem principal de diversas das situações que assombram a narradora até a vida adulta.

” (…) nós nunca sabíamos, e jamais saberíamos, como é entender plenamente outra pessoa.”

As reflexões feitas por Lucy sobre as mais diversas circunstâncias de sua vida – desde as condições de pobreza da infância até os elementos particulares de seu casamento – são uma porta para conhecermos a narradora e a nós mesmas, através de indagações extremamente humanas e reais, de forma que os mais simples questionamentos de Lucy também se tornam nossos próprios questionamentos e nossas dúvidas são refletidas nas dela.

Meu Nome é Lucy Barton
A autora, Elizabeth Strout

Parece-nos que a narradora promove um estudo sobre a própria humanidade, usando suas experiências pessoais. Lucy traz o seu trauma infantil para o foco narrativo, tanto consciente quanto inconscientemente, e mesmo que de forma involuntária, nos convida a participar de sua história, sendo esta pintada por reflexões cotidianas e críticas contundentes – embora sutis – às realidades presentes em nossas vidas.

“Na minha experiência ao longo da vida, tenho visto que as pessoas que mais receberam do nosso governo (…) são as mais aptas a ver defeitos em toda a ideia de governo.”

Por todos os casos e relatos retratados no livro, por vezes nos esquecemos que é justamente isso de que se trata: um livro. O meio de narrativa adotado por Elizabeth Strout é feito de forma tão primorosa e verossímil que nos esquecemos que se trata de uma leitura e não de uma conversa com Lucy Barton. A vida da personagem é belamente ilustrada, suas dúvidas relacionáveis e seus temores, curiosamente, são semelhantes àqueles que nos deparamos em nós mesmas.

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Apesar da plausível narrativa, as relações majoritariamente apresentadas na trama podem ser descritas como minimamente estranhas. É claro que os relacionamentos (o assunto principal do livro) são complicados e não possuem uma fórmula específica para o sucesso, ou mesmo, para o fracasso. A romantização feita por Elizabeth através de Lucy de certos acontecimentos, faz com que questionemos como algumas situações parecem escusáveis em nome de um amor deturpado por discriminações e abusos.

Frente a isso, ainda nos é passível a consideração de que Meu Nome é Lucy Barton se trata de um estudo humano sobre a humanidade – no sentido positivo e negativo da palavra – em que nos é possível trazer o que é apresentado no livro para a nossa própria vivência. A solidão, os traumas, os medos e os amores que nos são tão comuns e universais, conseguem ser retratados em poucas páginas através de uma história que apesar de ter apenas uma narradora-protagonista, consegue representar a todas nós em sua experiência.

“Mas esta é a minha história. E, no entanto, é a história de muitos.”

Tal afirmativa, ao longo dos diversos momentos de reconhecimento e de emoções compartilhadas, se faz a máxima do livro. Ao terminarmos de viver a história é com esta sensação que saímos: talvez não estivéssemos lendo a vivência de outrem, mas parte – ou a totalidade – de nossa própria.


Meu Nome é Lucy BartonMeu Nome é Lucy Barton

Autora: Elizabeth Strout 

176 páginas, 1ª edição (28 de julho de 2016)

Companhia das Letras

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Este livro foi cedido pela editora para resenha.

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