[SÉRIES] The A Word: Um estudo sobre uma família frente ao autismo

[SÉRIES] The A Word: Um estudo sobre uma família frente ao autismo

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The A Word – A Vida com Joe (no original: The A Word) é uma série surpreendente que está disponível no Brasil pela Globoplay. A produção britânica é baseada na série israelense Yellow Peppers, criada por Karen Margalit, uma das roteiristas de BeTipul, outra série que ganhou diversos remakes internacionais, incluindo In Treatment (EUA) e Sessão de Terapia (Brasil). Adaptada para a televisão por Peter Bowker (Monroe, From Here to There) com 2 temporadas completas, cada uma com seis episódios, The A Word narra a história do pequeno Joe, que aos cinco anos foi diagnosticado com autismo, com sensibilidade ímpar. Acompanhamos, também, o impacto que o autismo de Joe causa em sua família e, especialmente, em sua mãe.

Incomunicabilidade familiar

Em uma pequena cidade do interior da Inglaterra, vive a família Hughes, composta por Alison (Morven Christie), seu marido Paul (Lee Inglesa) e seus dois filhos, a adolescente Rebecca (Molly Wright) e o caçula Joe (Max Vento). A família vive imersa em uma rotina pacata, sem muitas emoções, mas com a chegada de Eddie (Greg McHugh), irmão de Alison, e sua esposa Nicola (Vinette Robinson), que tentam reconstruir sua relação depois de Nicole ter sido infiel. A rotina tranquila dá lugar a algumas tensões e problemas familiares não resolvidos que piora com as suspeitas de Nicole em relação à condição de seu sobrinho.

A série começa com a festa de cinco anos de Joe. Tudo foi preparado cuidosamente e, como em um tipo de teatro de negação, os pais não ignoram o fato do filho parecer alheio à sua própria festa de aniversário. Nicole, que é médica, tenta abrir os olhos de Alison para os problemas de comunicação de Joe, mas, como mãe, Alison se recursa a ouvir. O único que dá ouvidos a Nicole é o avô (Christopher Eccleston) que, escondido da filha, leva o menino para ser diagnosticado. A série começa neste ponto, com o diagnóstico do qual a mãe já desconfiava, mas se recursava a compartilhar com o resto da família. Com o diagnóstico, surgem conflitos e no meio de brigas e acusações temos Joe, alheio a tudo e todos.

The A Word

The A Word é uma das séries mais poderosas e originais (e negligenciadas) da televisão nos últimos tempos. É difícil encontrar ficções que explorem temas complexos como distúrbios do espectro autista. Podemos citar a segunda temporada de Atypical lançada recentemente, porém, diferente da obra da Netflix, que fica prejudicada pela superficialidade cômica, no universo de The A Word as questões fundamentais das relações humanas, como confiança, superação, amor, medo, aceitação e inseguranças são tratadas de forma mais realista e sutil. Conseguimos nos coloca no lugar e, ao mesmo tempo, criticar a conduta da desajeitada família de Joe, com toda dificuldade de comunicação que há entre eles e que vão além das relações com o menino. De várias formas, a série trata da incomunicação moderna como algo negativo que produz sofrimento e rejeição.

O conflito geracional se faz presente em várias situações. É interessante notar que a série não é parcial; de forma geral, conseguimos ver com clareza o ponto de vista de cada personagem. Na primeira temporada, o foco se concentra no núcleo familiar. Já na segunda temporada, a presença dos vizinhos como um tipo de representantes da sociedade se faz presente. Na parte técnica a série não dá razões para reclamar: a fotografia é excelente, iluminando as frias locações naturais britânicas. O grande destaque fica para trilha sonora, que, por sinal, faz parte do que é o personagem de Joe. Desde o primeiro minuto, podemos perceber que a música é o refúgio dele. Nesse sentido, as escolhas de músicas foram muito felizes. As atuações estão perfeitas e podemos citar em especial Max Vento, o jovem ator que dá vida a Joe. Sua interpretação rouba a cena desde o início.

The A Word

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Os dilemas da maternidade

Podemos enxergar claramente que a série é um estudo sociológico sobre uma família frente aos dilemas do autismo. Durante toda a temporada, os roteiristas nos fornecem diferentes frases e aspectos do problema. Os dois primeiros episódios são dominados pela negação da mãe que, de diversas maneiras, tenta buscar uma forma de refutar o diagnóstico do menino. Já o pai, em contraposição, busca uma solução prática como uma escola inclusiva.

A postura da mãe desde o primeiro encontro com um especialista é um exemplo clássico dos que se recusam a reconhecer o óbvio. Apesar de ter procurado aconselhamento especializado, ela não consegue aceitar que seu filho é diferente e, com medo, se torna superprotetora com Joe e negligente com sua filha mais velha, que passa a buscar sozinha seu lugar no mundo sem o exemplo e apoio de sua mãe. Algo muito positivo em The A Word é que eles não retratam somente o núcleo familiar Hughes. Também adicionaram uma mãe solo e seu filho autista adolescente na história. A segunda temporada foi muito feliz em ampliar e expor a história de outros personagens. Mesmo sendo menos focada em Joe, a continuação conseguiu se aprofundar na questão do autismo e ir além, através da dinâmica do centro especializado para crianças com autismo, por exemplo.

Quem assistir The A World esperando uma obra sentimental e melodramática ficará decepcionada. Tudo na série possui uma visão racional e prática. Seus personagens são humanos e suas mães sofrem, são inseguras e erram na busca por acertar. No centro narrativo temos o autismo, mas a obra vai além. Na segunda temporada, temos um aumento da visão feminina na narrativa. Nela, cada mulher esta vivendo seu próprio inferno. No caso de Alison, a carga de ser mãe de uma criança autista faz ela pensar muito em suas escolhas de vida como mulher. Rebecca ainda procura seu lugar no mundo e Nicola reflete sobre seus erros de forma consciente.

The A Word é uma das melhores séries dos últimos anos, apesar de pouco conhecida pelo público. Em geral, é uma obra necessária que merece ganhar mais espectadores(a). De maneira sutil, essa ficção nos dá importantes lições de vida. E tanto seu enredo quanto seus personagens são extremamente humanos. Até o momento não há notícias da confirmação de uma terceira temporada, mas fica aqui a vontade de que essa história continue por mais tempo.


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Graduada em Ciências Sociais. Cineasta amadora. Viciada em livros, séries e K-dramas. Mediadora do Leia Mulheres de Niterói (RJ).
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