Era uma vez… em Hollywood: a masculinidade violenta no cinema de Tarantino

Era uma vez… em Hollywood: a masculinidade violenta no cinema de Tarantino

No início deste ano, a controvérsia em torno da possível misoginia de Quentin Tarantino ganhou um novo capítulo. Durante uma coletiva de impressa do filme “Era Uma Vez Em… Hollywood“, o diretor foi questionado sobre o motivo de ter dado poucas falas a atriz Margot Robbie, intérprete de Sharon Tate no filme. Visivelmente incomodado, o diretor respondeu rispidamente apenas: “Eu rejeito a sua hipótese”.

Sua reação foi considerada um surto por diversos veículos, e o foco reacendeu as várias polêmicas envolvendo seu nome nos últimos anos. Em sua filmografia, figuram algumas das mais icônicas personagens femininas do cinema, como a noiva de “Kill Bill” nos volumes 1 e 2, Shosanna Dreyfus de “Bastardos Inglórios” e Jackie Brown no filme homônimo de 1997. Por essas personagens ele foi chamado algumas vezes de “diretor feminista”, título esse que o mesmo já declarou em entrevista não rejeitar. Mas nem todos parecem concordar com essa alcunha.

Aviso: contém spoilers de “Era uma vez… em Hollywood”!

A violência contra mulher nos filmes de Tarantino

Daisy Domergue
John Ruth e Daisy Domergue em “Os Oito Odiados”. Imagem: reprodução

Apesar de suas personagens femininas icônicas, a forma como o diretor retrata a violência contra as mulheres têm ganhado cada vez mais atenção, lembrando que o debate pegou fogo com o lançamento de “Os Oito Odiados“, em 2016. No filme, a personagem de Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) é agredida repetidamente pelo seu captor enquanto está amarrada, motivando críticos de cinema a questionar a necessidade dessa escolha. A crítica Laura Bogart chamou o retrato de Daisy Domergue de traição e atribuiu ao mesmo filme a alcunha de “misoginia hipster”: “Não é só por que Daisy é espancada e linchada – é que esse abuso é tudo que sabemos dela”, ela afirma.

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Em sua defesa, pesaria o fato de que a violência retratada nos filmes de Tarantino seria igual para homens e mulheres: “Isso é igualdade, cara, e é mais feminista pensar que um criminoso está sendo tratado da mesma forma a despeito de seu gênero. Eles não a tratam como uma princesa do conto de fadas porque ela é uma mulher, eles a tratam como um assassino porque ela é uma assassina”, escreveu Courtney Bissonet ao site Bust.

Se Tarantino não tem empatia por mulheres, ou se ele não tem empatia e ponto, é um terreno nebuloso. Afinal, seus filmes são odes à violência gráfica sofrida e prática por homens e mulheres, a qual muitas vezes é filmada para provocar risos. Mas é fato que Quentin Tarantino coloca frequentemente suas personagens em situações de brutalidade e algumas são perpetradas justamente pelo fato de serem mulheres, como no caso de abusos sexuais.

Ligações de Tarantino com Harvey Weinstein

Tarantino Harvey Weinstein
Quentin Tarantino e Harvey Weinstein na premiere de “Kill Bill Vol. 1”, em 2003. Imagem: BEI/REX/Shutterstock

Tudo isso ganhou uma camada de complexidade com as declarações feitas por Uma Thurman, em 2018, sobre o abuso sexual que sofreu por parte de Harvey Weinstein; o qual antes de cair em desgraça, produzia os filmes de Tarantino e cultivava com ele uma relação de amizade que parecia muito longe de terminar. Em entrevista ao The New York Times, Thurman disse ainda que contou ao diretor sobre os ataques sofridos e que este veio a confrontar Weinstein em 2001.

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Na época em que exposição do extenso currículo de abusos sexuais cometidos por Weinstein veio à tona, Tarantino admitiu publicamente que tinha conhecimento da má conduta do produtor e afirmou em entrevista ao The New York Times: “Eu gostaria de ter assumido responsabilidade pelo o que eu ouvi”. De fato, Tarantino permaneceu calado mesmo quando sua namorada, Mira Sorvino, contou ter sido assediada por Weinstein, pouco tempo antes do começo do relacionamento dos dois, em 1995.

Além das acusações contra Weinstein, Thurman revelou o motivo do azedamento de sua relação com Tarantino. Durante as filmagens de “Kill Bill”, Tarantino exigiu que ela dirigisse um carro em alta velocidade, manobra que normalmente seria feito por um dublê. A cena acabou em um acidente que a enviou para o hospital com ferimentos no pescoço e joelho. Os dois tiveram uma briga quando a mesma retornou do hospital: ele se negou a entregar as filmagens da acidente. A recusa se estendeu por quinze anos, quando finalmente ela pode ter acesso ao material. Contudo, ela afirmou que teve sua participação criativa nos filmes diminuída após a briga.

Sharon Tate em “Era Uma Vez…Em Hollywood”

Margot Robbie como Sharon Tate
Margot Robbie como Sharon Tate em “Era uma vez em… Hollywood”. Imagem: reprodução

Talvez Sharon Tate seja menos lembrada pela sua vida do que pelas circunstâncias macabras de sua morte: três seguidores de Charles Manson invadiram sua casa em Los Angeles, na madrugada de 9 agosto de 1969, e brutalmente assassinaram todos lá dentro, incluindo Tate, então grávida de nove meses, e seus amigos Jay Sebring, Wojcieh Frykowski e Angela Folger.

Considerado ainda hoje um dos mais traumáticos episódios da história recente norte-americana, o crime transformou as figuras de Tate e Manson em símbolos do medo e paranoia contra o movimento hippie nos anos 1970, e influenciou a cultura pop gerando diversos livros, filmes e músicas. “Era uma vez em… Hollywood” imagina um destino diferente para Tate, mas não se aprofunda na mulher real por trás da fama rainha da beleza e estrela em ascensão.

Sharon Tate e Margot Robbie
Sharon Tate e Margot Robbie. Imagem: reprodução

Margot Robbie de fato tem poucas linhas de diálogo em “Era uma Vez em… Hollywood“, mas para ser justa, é filmada de forma nostálgica e respeitosa. Portanto, o que vemos na tela são o que Tarantino imagina serem seus melhores momentos: feliz, radiante, a alma da festa. É possível que ele tenha decidido manter distância da personagem para não incorrer no erro de retratar, para o bem ou para o mal, alguém diferente de quem ela foi; algo comum em biografias, por exemplo.

O mesmo respeito não foi dispensado a outra figura lendária também retratada no filme. Uma cena protagonizada por Bruce Lee e Cliff Booth desagradou fãs e irritou a filha do ator, que afirma não ter sido consultada por Tarantino. Não obstante, Bruce Lee é uma das inspirações mais substanciais da obra e vida do diretor – que retira muitas de suas referências dos antigos filmes de artes marciais.

Recentemente, Tarantino defendeu sua versão de Bruce Lee no cinema, afirmando que seu retrato em tela foi retirado de relatos reais. Enfim, é evidente que o Bruce Lee de “Era Uma Vez… Em Hollywood” é um mero dispositivo de enredo para dar credibilidade ao personagem interpretado por Brad Pitt. 

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As esparsas cenas de Tate são interferências doces na trajetória tumultuada dos protagonistas Rick Dalton (Leonardo Di Caprio) e Cliff Booth (Brad Pitt). O primeiro é uma estrela de TV decadente que leva sua carreira a sério de uma maneira um pouco patética, mas nunca desagradável; possivelmente uma reflexão do diretor sobre si mesmo e como ele imagina que os outros o enxergam. O segundo soa como um personagem que já vimos diversas vezes em sua obra, o arauto da masculinidade violenta que sua cinefilia tanto aprecia. Mas até sobre isso ele parece fazer um comentário.

Tarantino e a violência gráfica em “Era Uma Vez Em… Hollywood”

Era uma Vez... em Hollywood
Tarantino e Brad Pitt no set de “Era uma vez… em Hollywood”. Imagem: reprodução

É possível que esta seja a mais estranha e também a mais íntima obra de Tarantino. Não se encontram os diálogos rápidos marcados por teorias e segundas intenções. Ao invés disso, muito tempo é dedicado na recriação de um lugar e um tempo pelo qual ele sente saudades. O tom permanece o mesmo até os últimos momentos do filme, quando um turbilhão de violência explode: as três figuras que, originalmente, invadiram e mataram Tate, são massacradas com requintes de crueldade pelos protagonistas.

“Isso é Tarantino”, você pode pensar. Mas toda a sequência parece desconectada do sentimento que “Era uma Vez em… Hollywood” carregava até então, e vem com um choque, principalmente porque duas das potenciais assassinas são mulheres. É possível que o momento tenha sido friamente calculado para este efeito, pois toda a violência é perpetrada por Cliff Booth, o símbolo da masculinidade que muitos admiram na cultura pop. Ele é o escolhido para fazer a justiça ficcional contra os autores de um dos crimes mais vis de Hollywood.

Acontece que no contexto fílmico de “Era Uma Vez Em…Hollywood” nunca é mostrado algo que justifique uma punição tão severa para os três. Eles são retratados como jovens pouco inteligentes e vítimas de lavagem cerebral. Já a pessoa de Manson, é vista apenas por alguns breves momentos em tela. Contudo, Booth torna-se o verdadeiro monstro inesperado do filme. Ele é quem deve ser temido, pois o herói pelo qual torcemos, se revela um psicopata incapaz de parar até esmagar em pedaços a cabeça de uma garota contra a parede. A justiça sanguinária que tanto ansiamos dessa vez, vem com uma dose de autorreflexão… é isso que esperamos, mas o que isso diz sobre nós, espectadoras?

Um gosto amargo

A punição é por um evento que não acontece dentro do universo do filme, pois se justifica exclusivamente com base no conhecimento e sentimento da espectadora sobre o fator externo. Não sabemos, contudo, se assistir duas garotas sendo completamente desfiguradas de uma maneira perversa, justifica um comentário sobre a celebração da violência e da vingança. E se não houver comentário nenhum, pior ainda.

De toda forma, o apuro técnico e a carpintaria com que Tarantino constrói seus filmes é algo a se apreciar. A direção de arte é realmente um espetáculo à parte. Cada quadro é extremamente evocativo desse período de Hollywood, as reproduções e referências são capazes de colocar em qualquer fã de cinema um sorriso no rosto. Por fim, isso nos deixa com um gosto amargo na boca, a incerteza sobre a serviço do que está todo esse refinamento.


Edição realizada por Isabelle Simões.

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Bibliotecária, tão fã de filmes quanto dos dramas dos bastidores. Comédias românticas são seu ponto fraco, mas dá chance para filmes de quaisquer gêneros.
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