Euphoria – 2ª temporada | Primeiras Impressões: o brilho está lentamente se perdendo

Euphoria – 2ª temporada | Primeiras Impressões: o brilho está lentamente se perdendo

Euphoria estreou sua segunda temporada em 9 de janeiro e garantiu que o sucesso não só se manteve, como continuou crescendo, mesmo após 3 anos de seu lançamento. De acordo com a própria HBO, o lançamento do segundo ciclo foi a série mais comentado da plataforma desde a season finale de Game of Thrones e bateu recordes de audiência na América Latina pela rede de streaming HBO Max.

Tendo Zendaya protagonizando e narrando os episódios ao ser Rue, personagem a qual lhe rendeu um prêmio Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática, retornamos ao mundo desses adolescentes problemáticos na eterna busca de entender quem eles são ou quem eles querem ser.

De acordo com o criador e diretor da série, Sam Levinson, essa nova fase da série terá uma abordagem mais obscura, cruel e real. Zendaya, inclusive, comentou para a Teen Vogue que terão momentos de Rue que não serão divertidos de assistir; nessa temporada, veremos a personagem chegar ao fundo do poço.

Rue (Zendaya) em cena da segunda temporada
Rue (Zendaya) em cena da segunda temporada de Euphoria | Imagem: HBO (divulgação)
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Vale ressaltar que com os novos episódios conheceremos mais dos demais personagens que, na temporada anterior, não foram tão explorados. Assim como todo o núcleo de personagens, veremos as personagens enfrentando as piores consequências de suas escolhas, mas também desenvolverão a maturidade prometida na adolescência.

A premissa da segunda temporada é de encararmos o doloroso processo de amadurecimento, ou seja, o glitter e o brilho – marca registrada de Euphoria – será substituído por um suspense e dramaticidade crua que só a HBO sabe oferecer. Com isso, iremos expor algumas das primeiras impressões do que foi assistido nos dois primeiros episódios da segunda temporada, “Trying to get to heaven before They colse the door” e “Out of Touch”.

Rue tem consciência de sua ruína – e de algum modo, não quer evitá-la

Ao assistirmos o episódio especial de Natal, “Trouble don’t last always”, sabemos que Rue tem noção de como sua dependência química afeta sua família e amigos; entende que ser adicta e suas recaídas maltratam quem lhe cerca e lhe quer bem.

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E que tudo isso também lhe tortura – e muito. Contudo, ela não consegue se livrar da dependência, decidindo manter o consumo e uso de drogas, inclusive experimentando outras que ainda não havia tido contato. Por mais que sua consciência indique o quanto aquilo é nocivo não só para ela, mas por todo seu cerco social, o uso das drogas lhe traz um conforto (ainda que falso, momentâneo e destrutivo) que nada será capaz substituir.

Rue em cena do episódio "Trouble don’t last always"
Rue em cena do episódio “Trouble don’t last always” | Imagem: HBO (divulgação)

Claro que isso não é somente uma decisão que ela reflita e pense, “ah, eu vou fazer assim mesmo”, mas a narrativa construída apresenta que a dependência sobressai qualquer discernimento para julgar aquela situação. Por mais que ela ame sua família, namorada e amigos, o vício no prazer temporário que as drogas lhe causam é maior que seu poder de escolha. Ainda que ela tome algumas decisões que o público não tão atento julgue ser egoísta, precisamos ver que esse é o recorte de uma realidade dolorosa da nossa sociedade: o adicto que, destrói-se, tanto no consumo que, pouco a pouco lhe mata, mas resiste às intervenções que lhe seriam benéficas.

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Nos dois primeiros episódios podemos ver que Rue recusa qualquer confronto; seja sobre sua atitude em relação com os outros, por exemplo, com Jules (Hunter Schafer), ou para afirmar a que caminho anda sua dependência (com Ali, seu “padrinho”, dos Narcóticos Anônimos), reagindo com deboche ou pouco caso.

Pelo andar de suas escolhas, é de se esperar que o uso das drogas se intensifique durante a segunda temporada de Euphoria, preparando o telespectador para o doloroso destino que Zendaya confidenciou ter sido doloroso de filmar.

Nate amplia sua toxidade e manipulação na segunda temporada

Nate (Jacob Elordi) mantém seu perfil másculo, dominador e intimidador que, ao observarmos, é uma máscara de alguém baixo, manipulador e com uma série de traumas mais profundos do que é possível imaginar ou interpretar.

Quando criança, Nate teve contato com o material pornográfico produzido por seu pai, Cal (Eric Dane). Ali, ele vê a verdadeira face de seu pai, que ao se aproveitar da posição de educador, atraia jovens gays e trans para filmar suas atividades sexuais, nutridas à base de violência e brutalidade. Como alguém tão jovem, ao ter contato com um material tão denso e cruel, a personalidade de Nate foi moldada em tudo que seria contrário aquilo que remetesse a imagem homossexual que ele tinha do pai.

Maddy (Alexa Demie) e Nate (Jacob Elordi) em cena da segunda temporada de Euphoria
Maddy (Alexa Demie) e Nate (Jacob Elordi) em cena da segunda temporada de Euphoria | Imagem: HBO (divulgação)

Em razão isso, Nate focou em construir uma imagem de macho líder de seus amigos e que teria, consigo, uma parceira fêmea, submissa, fugindo a qualquer vínculo fora do padrão hétero que ele decidiu adotar para sua vida. Mimado, Nate sempre recorreu à violência e jogo baixo para ter o que quisesse, assim como ele foi acostumado a ser.

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Por isso, seu relacionamento com Maddy (Alexa Demie) foi feito a base do padrão tradicional da mulher: corpulenta, vaidosa e submissa. Entretanto, Maddy possui uma personalidade forte e, mesmo sendo agredida por ele na temporada passada, ela não abaixava sua cabeça a todas exigências feitas por ele; em razão disso, entre idas e vindas, eles terminaram mais uma vez.

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Buscando sua mulher perfeita, Nate projeta seu desejo pela feminilidade, doçura, delicadeza e fofura, características vistas em Cassie (Sydney Sweeney) que refletem todo esse almejo que ele buscava para afirmar sua heterossexualidade. Além da excitação em se relacionar com a ex de um de seus melhores amigos, o personagem também tem sua masculinidade alimentada no iminente combate que Cassie pode ter com Maddy, uma vez que ambas, às escondidas, se relacionam com ele e as duas são melhores amigas.

Cassie (Sydney Sweeney) na segunda temporada de Euphoria
(Sydney Sweeney) na segunda temporada de Euphoria | Imagem: HBO (divulgação)

Cassie vem ganhando espaço nessa nova temporada: em sua incessável busca pela validação masculina, a personagem acaba não desenvolvendo a própria personalidade, pois tenta se moldar aos desejos dos homens que se relaciona. Com essa nova fase de Euphoria, poderemos ver a personagem imergindo no suspense – que são as consequências de suas escolhas – e como esse temor, entre o arrependimento e desejo, construirão seu desenvolvimento.

Mas não adiantando todo esse esforço, nem Maddy ou Cassie teriam Nate para si. De acordo com os flashs da intimidade construídos no segundo episódio, ele estaria apaixonado por Jules (Hunter Schafer). Além dela ser tudo que ele procura: feminina, delicada, “frágil”, ela possui personalidade combativa a ele. Ou seja, desafiava-o, peitando-a ante a maioria das ameaças que ele poderia lhe fazer.

Entretanto, pelo fato de Jules ser trans, isso faz com que ele, nutrido pela transfobia, não a enxergue como a mulher completa que ela, de fato, é. Ainda que ele nunca seja digno de tê-la – e ter qualquer outra parceira -, será interessante assistir essa perspectiva de Nate, além do seu desenvolvimento sobre como lidará com seus desejos, escolhas e as atitudes que assumirá.

Personagens, antes pequenos, agora terão protagonismo: Fez e Lexie

Ambos se mostrarão taciturnos, bem focados em seus objetivos – seja Fez (Angus Cloud) com sua rotina de tráfico ou Lexie (Maude Apatow) com seus estudos e ser uma adolescente comum, sem ser tão problemática.

Fezco (Angus Cloud) na segunda temporada de Euphoria
Fezco (Angus Cloud) na segunda temporada de Euphoria | Imagem: HBO (divulgação)

O episódio que abre a segunda temporada explora às origens de Fezco (Angus Cloud), desde sua criação até ao que lhe ligou com o tráfico de drogas. Como já vimos, ele é um personagem fiel aos seus amigos, mas podemos ver como essa fidelidade foi construída, de que ou quem a isso se baseou. Por mais quieto que ele seja, com esse episódio compreendemos suas camadas: podendo ser, além de fiel, meigo mas também extremo – na demanda do que o ambiente possa exigir dele.

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Lexia também ganhou um bom espaço dentro desses capítulos, a personagem vai assumir uma personalidade mais presente e chamativa e que, talvez, seja presságio de que ela será responsável por passagens futuras e decisivas na trama.

A série retornou como a qualidade esperada: a produção explora novos tons e cores, assumindo o perfil mais maduro e duro que a narrativa vai seguir a partir de agora. Assim como as maquiagens e figurino explorando a densidade contrária à explosão de cores da temporada anterior. A direção transparece a agilidade construída na série, com as jogadas de câmera e cortes de cena, além da sonoplastia e trilha sonora tralhando o suspense tão bem.

Autora:

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Ket tem 23 anos, é formada em Letras - Língua e Literatura Portuguesa, pela UFAM. Nasceu e criou-se em Manaus, onde ainda mora. Não é capaz de conceber uma realidade em que as mulheres não sejam livres, uma vez que sua vida inteira viveu em um lar matriarcal. Gosta de histórias tristes, é fascinada pela cultura Sul-coreana e chora com animes.
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