Dexter – New Blood: o acerto de contas entre pai e filho

Dexter – New Blood: o acerto de contas entre pai e filho

Com sua estreia em 2006, Dexter foi uma série que conquistou uma imensa quantidade de fãs desde o primeiro momento. Baseada na série de livros de Jeff Lindsay com o mesmo nome, publicados no Brasil pela Editora Planeta, a série exibe o cotidiano do personagem Dexter (Michael C. Hall), que trabalha para a polícia metropolitana de Miami como analista de sangue. Porém, o diferencial da história, que fascinou à tantos, é o segredo que Dexter guarda: ele é um serial killer.

A oitava e última temporada da série foi ao ar em 2013 como um verdadeiro divisor de águas entre os fãs, que parecem ter se concentrado em dois extremos: aqueles que amaram e os que odiaram o final proposto ao serial killer querido da televisão, se tornando um dos finais de série mais controversos da atualidade.

Portanto, após ser anunciado o revival da série, Dexter: New Blood foi recebido com euforia e uma certa dose de incerteza pelos fãs, ansiosos para descobrir se finalmente receberiam um final adequado, tão aguardado, ou se a decepção ocorreria novamente.

Atenção: o texto pode conter spoilers das temporadas anteriores de Dexter
Dexter (Michael C. Hall) em cena do revival Dexter: New Blood
Cena de Dexter: New Blood | Reprodução: Showtime

No começo da nova temporada, dez anos se passaram desde que Dexter matou pela última vez. Morando agora em Iron Lake, Nova Iorque, e com o nome de Jim Lindsay, uma apreciada referência ao autor do personagem, Dexter (Michael C. Hall) tenta recomeçar sua vida em uma cidade pequena, trabalhando como vendedor de armas numa loja local, encontrando amigos para conversas banais no bar às noites e namorando a chefe da polícia, Angela Bishop (Julia Jones) – uma escolha certamente questionável para alguém com o passado tão conturbado como o de Dexter, mas os fãs já sabem que o personagem é conhecido por fazer escolhas dúbias em alguns momentos.

Porém, a vida pacata do serial killer aposentado é abalada quando seu filho Harrison (Jack Alcott) aparece inesperadamente, com o propósito de conhecer o pai e confrontá-lo sobre suas ações no passado. A narrativa de Dexter: New Blood começa de forma lenta, nos apresentando aos novos cenários e personagens, assim como a nova rotina do anti-herói que resolveu deixar seus atos sombrios para trás. O desenrolar da nova trama começa gradualmente, quando uma nova possível vítima para Dexter – agora Jim – aparece, e ele se sente mais tentado do que nunca a agir de acordo com as vontades de seu antigo conhecido, o passageiro sombrio. 

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Um ponto extremamente positivo da história foi como o showrunner Clyde Phillips escolheu demonstrar a consciência de Dexter. Nas temporadas anteriores, o espectador era apresentado ao conflito ético do personagem pelos flashbacks de momentos de sua infância e adolescência com seu pai, Harry Morgan (James Remar), que o ensinou o código moral pelo qual Dexter começa a cometer seus assassinatos.

Em New Blood, a consciência dele toma uma nova forma: a de sua irmã Debra Morgan (Jennifer Carpenter), morta na temporada anterior. Debra aparece conversando com seu irmão sempre que ele se encontra diante de um dilema: seja a vontade de matar novamente, as ações para reconstruir o relacionamento com seu filho ou como uma lembrança dos erros que Dexter cometeu no passado. Deb é a voz que tenta impedir a todo custo que seu irmão recaia aos velhos hábitos, porém, acaba falhando logo no começo da temporada, quando o serial killer decide sair de sua aposentadoria. 

Jennifer Carpenter é uma atriz excepcional, revê-la no papel de Debra Morgan foi uma surpresa agradável. Mesmo que os fãs não possam retornar ao contato que tiveram com Deb ao longo de oito temporadas, foi uma escolha certeira transformar as memórias de Dexter com sua irmã em sua nova forma de confronto com seus impulsos duvidosos. 

Dexter e Debra Morgan (Jennifer Carpenter) em cena do revival
Cena de Dexter: New Blood. Deb e Dexter conversam | Reprodução: Showtime
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Contudo, o foco da nova temporada não é o relapso de Dexter em cometer assassinatos, mas sim seu relacionamento com o filho. Ele aparece na vida de seu pai após dez anos separados, alguns dos quais viveu na Argentina com a personagem de Hannah McKay (Yvonne Strahovski), que não retorna nesse revival. Agora um adolescente, Harrison (Jack Alcott) finalmente quer conhecer o pai que o abandonou durante a maior parte de sua vida, confrontá-lo sobre seus motivos e, quem sabe, construir um relacionamento entre pai e filho que nunca existiu.

Em um primeiro momento, Harrison é mostrado como um garoto desconfiado, inquieto e com muita angústia, sentimentos compreensíveis ao descobrirmos um pouco mais sobre a trajetória do adolescente. A personalidade dele em conjunto com os acontecimentos pelos quais Harrison passou ainda enquanto era um bebê, similares a uma situação vivenciada por seu próprio pai, levam os fãs a questionar se pai e filho podem possuir algo em comum, um certo “passageiro sombrio”, denominado por Dexter, o mais longo companheiro que o serial killer teve ao longo de sua existência. 

Cena de Dexter: New Blood: Dexter e Harrison conversam sobre seu relacionamento
Cena de Dexter: New Blood. Dexter e Harrison conversam sobre seu relacionamento | Reprodução: Showtime

Circunstâncias pelas quais Harrison passa na cidade de Iron Lake direcionam o público a começar enxergá-lo como um bom garoto, preocupado com seus novos colegas e habitantes de sua nova casa. Apesar disso, os fãs que acompanharam a série durante oito temporadas sabem que ela é conhecida por ir além do visível, daquilo que é apresentado como o certo na tela. Um grande exemplo disso é o próprio Dexter, demonstrado como um homem comum, com relacionamentos perfeitamente normais, se escondendo de todos com quem convive bem diante de nossos olhos. Portanto, a dúvida ainda persiste até os momentos finais: Harrison é similar à seu pai quanto a vontade incontrolável de cometer assassinatos?

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A resposta é concedida de maneira profunda, sem espaço para questionamentos. Além disso, ela leva a uma outra pergunta importante, difícil de ser enfrentada pelos fãs do personagem que, apesar de tudo, é extremamente querido: Dexter se tornou um dos vilões que ele tanto trabalhou para eliminar? 

O código elaborado por seu pai, com a intenção de prevenir que seu filho machucasse inocentes, começou a falhar? Somos leais ao personagem de Dexter, apesar de termos todos os motivos morais para torcer pelo pior final possível para o personagem. Porém, após oito temporadas nos apegamos a esse anti-herói e esperamos que ele saia impune todas as vezes. Em New Blood, somos levados a confrontar nós mesmos de certa maneira: é possível que nosso apoio também chegue longe demais? 

Cena de Dexter: New Blood. Harrison e Dexter em uma cena do crime
Cena de Dexter: New Blood. Harrison e Dexter em uma cena do crime | Reprodução: Showtime

O ator Michael C. Hall, veterano em interpretar o papel de serial killer, faz um ótimo trabalho voltando a vestir a pele de Dexter, com uma atuação tão boa, em alguns pontos até melhor, vista pelos fãs ao longo dos anos. As cenas contracenadas com Jack Alcott são cheias de tensão, englobando perfeitamente todo o clima de completo desconforto em que pai e filho têm que se conhecer tão tarde.  

Em entrevista para o site Deadline, o showrunner Clyde Phillips afirma que todos os acontecimentos programados ao longo dessa última temporada deveriam acontecer, tanto pelo personagem de Dexter quanto pela audiência, pois não havia outro caminho a ser seguido. A reunião de Harrison e Dexter era necessária, pois seu filho precisava entender quem ele é, entender que não foi abandonado por seu pai por não ser amado, mas como uma última tentativa de proteção.

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Enquanto à Dexter, ele finalmente consegue compreender uma emoção verdadeira e que, muitas vezes, não conseguia enxergar as consequências de suas ações até ser tarde demais. Dexter está disposto a fazer qualquer coisa para proteger o filho novamente, passando por situações difíceis para atingir seu objetivo ao longo de toda série, até o clímax final.

Harrison (Jack Alcott) em cena final do revival
Cena de Dexter: New Blood | Reprodução: Showtime

Para além da nostalgia de passar mais tempo com o serial killer favorito da cultura pop, Dexter: New Blood concede uma segunda chance à história de Dexter e entrega o desfecho que tanto aguardávamos: um final à altura. Apesar da construção da história se mostrar fraca em certas cenas e acontecimentos, o revival cria um fio narrativo consistente, que agrada mas que talvez não surpreenda.

A audiência pode não querer aceitar os acontecimentos dos últimos episódios, contudo, a narrativa de Dexter: New Blood não poderia ter terminado de outra maneira. Ao longo dos dez episódios, somos levados a observar pai e filho se tornando próximos com muito esforço, quebrando barreiras e revelando segredos profundos. No fim, essas barreiras são superadas e Dexter finalmente compreende como é sentir uma emoção genuína, o amor por seu filho. O público é desafiado a aceitar uma conclusão difícil para um anti-herói tão querido, porém, inevitável para Dexter e Harrison. 

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Historiadora e Pesquisadora de Cinema. Fã de horror, filmes, livros, hóquei e de um pug chamado Batata. Sempre pode ser encontrada com café.
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