Areia Movediça: os extremos de um relacionamento abusivo na adolescência

Areia Movediça: os extremos de um relacionamento abusivo na adolescência

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A cada ano que passa, uma constante em diversos países ao redor do mundo continua a ocorrer e a nos chocar pela brutalidade envolvida: os massacres em escolas de ensino básico. Diversas vidas são privadas de terem seus sonhos concretizados e muito se especula sobre as motivações por trás dos crimes. Em “Areia Movediça”, romance sueco escrito por Malin Persson Giolito, e traduzido por Alexandre Raposo, somos apresentados à Maja Norberg, uma jovem que tinha tudo para trilhar o mais lindo dos caminhos ao iniciar a vida adulta após o fim do colegial.

No entanto, nesta história tudo desmorona quando a garota se vê envolvida no tiroteio que culminou na morte de alguns colegas de sua escola e de um professor, protagonizado por seu namorado problemático, Sebastian Fergerman. Maja tentará provar que é inocente, mesmo quando todas as circunstâncias provam o contrário.

[AVISO DE GATILHO: A OBRA APRESENTA CENAS DE ABUSO FÍSICO E PSICOLÓGICO, CONSUMO DE DROGAS ILÍCITAS, DESCRIÇÃO DE ASSASSINATO, MENÇÃO A SUICÍDIO E TRECHOS EXPLICITAMENTE RACISTAS E GORDOFÓBICOS]

Maja nasceu em uma família com um bom poder aquisitivo, sempre foi uma aluna ótima e querida por todos ao seu redor. Ao se envolver com Sebastian, filho do homem mais rico da Suécia, Claes Fergerman, ela se vê prestes a viver um conto de fadas repleto de festas badalas e aventuras luxuosas, que não demoram muito para se tornarem altamente destrutivas.

O livro é narrado em primeira pessoa por Maja, que o inicia nos contando sobre o massacre ocorrido em sua sala de aula. Ela é encontrada em estado de choque no local do assassinato, cercada por armas, e tudo indica que ela foi cúmplice de Sebastian na morte de alguns colegas e do professor, Christer. Maja é presa temporariamente em uma cadeia feminina e intercala a narração de seus dias na prisão a espera de sua sentença com os flashbacks sobre o início e o decorrer do relacionamento com Sebastian, envolvendo os amigos Amanda, Samir, Dennis e Labbe.

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Maja nos conta que desde a infância Sebastian tinha a atenção de todas as pessoas sem o menor esforço; sempre fora uma criança carismática, e isso fez dele alguém querido pela maioria, mas também cheio de si. A constante atenção, por sua vez, não partia do pai dele, Claes, que em várias passagens deixa claro, até mesmo verbalmente, que não gosta do filho e que não confia em seu potencial de ter um futuro brilhante.

A mãe de Sebastian, uma ex miss sueca, não é presente em sua vida, o que causou um enorme trauma na vida do garoto (tudo indica que Claes também fora abusivo com ela e a expulsou de casa). Juntando isto ao fato de que Sebastian se envolve com drogas e tem problemas psicológicos graves, vemos que aos poucos ele se agarra de forma sufocante à Maja, ao passo que cria uma dependência afetiva gigantesca na garota.

O relacionamento dos dois torna-se gradativamente abusivo e Maja se vê imersa em uma grande teia de mentiras, vícios e violências físicas e psicológicas.

A construção psicológica de Maja em “Areia Movediça”

Devido à narração em primeira pessoa, e levando em conta que Maja nos conta sua história logo após o episódio na escola, percebe-se que ela está em um estado profundo de letargia, por vezes é insensível e se contradiz quanto ao que passou. Em um primeiro momento, é difícil criar empatia pela personagem, que aos poucos vai se desfazendo da proteção emocional que criou para nos mostrar quem realmente é e porque merece ser absolvida.

Maja (Hanna Ardéhn) em cena da série "Areia Movediça", adaptação da Netflix.
Maja (Hanna Ardéhn) em cena da série “Areia Movediça”, adaptação da Netflix. (Imagem: reprodução)

Maja é descrita como uma menina popular e mimada pelos pais, que não a impedem de fazer o que bem entende, nem de se envolver com pessoas de alto poder aquisitivo — para eles, isto é motivo de orgulho. No entanto, o status pregado por uma sociedade elitista e decadente e a constante busca por aceitação na adolescência fazem com que Maja anule muito de sua opinião própria e de seus costumes para seguir os comportamentos autodestrutivos (como o consumo de drogas pesadas) das demais pessoas com quem passa a conviver. Percebe-se, então, o poder de influência que as circunstâncias exteriores têm na vida de muitas pessoas, para o bem ou para o mal.

Não só Maja, como todos os outros personagens de destaque, como Sebastian e seu pai, são minuciosamente descritos, até mesmo em suas perversidades, o que torna a obra um estudo psicológico criminal muito relevante e fiel à realidade. Isto deve-se ao fato de que a autora é advogada e tem muita experiência no assunto (ela trabalhou no maior escritório de advocacia da região nórdica e na Comissão de Bruxelas, Bélgica).

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A relação de Maja e Sebastian em “Areia Movediça”

Antes de Sebastian, Maja havia se relacionado com outros garotos, mas vê no protagonista alguém diferente de todos eles; Sebastian se torna uma figura onipresente em vários momentos, quase um personagem mítico na vida dela. Ao narrar como se conheceram na infância, nos primeiros anos escolares, e em como Sebastian foi quem deu seu primeiro beijo, percebe-se que ela nunca o esqueceu, mesmo dentro dos demais relacionamentos.

A forma como ele sempre a cercou, mesmo em boa parte de sua vida se desconectando da personagem, diz respeito à essa trama de manipulação que desde sempre existiu partindo dele para ela, mas que Maja, estando perdidamente apaixonada, não percebia até ver as consequências catastróficas no fim.

Sebastian cria uma falsa sensação de que depende muito de Maja, ainda mais pelo fato de a garota perceber que a família dele é extremamente disfuncional; Claes é o tipo de pessoa que acredita que o dinheiro compra tudo, e faz com que Sebastian tenha o que deseja em detrimento do próprio amor e aceitação do pai.

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A protagonista se compadece da situação, uma vez que sua família é o oposto da de Sebastian, e aceita até mesmo comportamentos errados por parte dele, como o vício em bebidas alcoólicas e drogas ilícitas e acessos de raiva e violência, para que assim ele se sinta amado.

Maja (Hanna Ardéhn) e Sebastian (Felix Sandman) em cena de "Areia Movediça".
Maja (Hanna Ardéhn) e Sebastian (Felix Sandman) em cena de “Areia Movediça”. Imagem: Reprodução.

Mesmo morrendo no massacre, Sebastian continua influenciando negativamente a vida de Maja, pois mesmo após todos os episódios de intenso sofrimento sendo vítima de um relacionamento abusivo, ela terá agora que provar que não sabia dos planos de Sebastian de assassinar os colegas e o professor.

Ao acompanharmos o relacionamento como espectadoras, ficam claros os alertas de que a garota estava cada vez mais se envolvendo com uma pessoa abusiva ao extremo. O livro mostra uma realidade que não foge à de muitos adolescentes e se propõe a nos fazer questionar o nosso próprio histórico de envolvimentos com pessoas abusivas, sejam elas parceiros amorosos, familiares ou amigos.

“Há várias fotos de mim e Sebastian em nossa viagem pelo Mediterrâneo. Pareço feliz, sem problemas, uma pessoa que grita e ri quando o namorado espirra água antes de ela entrar inteiramente na piscina. Estou sorrindo e meus olhos estão brilhando. Pareço feliz, apesar do fato de agora, tanto tempo depois, ter dificuldade de me lembrar que me senti feliz.

Talvez a sorte seja um tipo de azar no sentido que demora um tempo para a ficha cair. A princípio, você não sente nada. O sentimento vem mais tarde, talvez muito tempo depois de o que o provocou ter desaparecido. Só agora, passado tanto tempo, percebo que Sebastian nunca pareceu feliz. Nem mesmo naquelas primeiras fotos.” (pág. 137)

É interessante como a autora costura ao longo da trama de forma bem sucinta a manipulação sofrida por Maja, que se sente culpada por tudo o que acontece de ruim com Sebastian: quando ela se dá conta de que deveria ter fugido há muito tempo do relacionamento, já é tarde demais.

Samir, Dennis e os preconceitos da elite

Como já citado, o universo de “Areia Movediça” é formado por uma sociedade elitista, e por conta disto somos apresentadas ao racismo, xenofobia e diversos outros preconceitos explícitos. A começar por Samir Said, um imigrante do Oriente Médio, que se destaca por ser muito estudioso e por fazer apontamentos pertinentes à raça e classe.

Durante a palestra de uma economista estadunidense, Samir questiona a relação da economia na Suécia e a diferença de classes que claramente existe no país e no mundo, a qual também afeta a vida dele e de sua família, que vive nos subúrbios da cidade. Samir é vítima de bullying, principalmente vindo de Sebastian, que faz o possível para diminuí-lo em frente aos colegas de escola sempre que possível.

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Dennis, um personagem imigrante de Uganda, é descrito de várias formas pejorativas por Maja, que também faz comentário gordofóbicos a respeito dele. Ele aparece pouco na história, menos do que Samir, e poderia ter um destaque maior na trama de outros jeitos, pois é citado como um traficante que fornece drogas para o grupo de Sebastian (o que reforça um terrível estereótipo racial).

Estas questões importantes acabam ficando em segundo plano na obra, que foca principalmente na relação entre Sebastian e Maja. No entanto, por se tratar de uma narrativa em primeira pessoa, compreende-se que a superficialidade com a qual os temas são tratados partem da própria ignorância de Maja e de seu círculo de amizades — a única pessoa branca que demonstra se importar com pautas sociais é Christer, que segundo Maja se “autointitula ativista social”.

Livro e filme: como a série adaptou um conteúdo tão extenso?

“Areia Movediça” ganhou uma adaptação em seis capítulos pela Netflix (2019), dirigida por Per-Olav Sørensen e Lisa Farzaneh, e roteirizada por Camilla Ahlgren, de “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (2009), a qual conseguiu abordar de forma muito fiel os pontos principais da obra.

O conteúdo do livro é extenso e Maja, ao narrar sua história, detalha muito diversas situações, o que torna o início um pouco cansativo. A série, por sua vez, é objetiva e instiga ainda mais os espectadores a chegarem ao final e descobrirem qual foi a sentença dada à protagonista, que se condenada por participação no crime poderá ficar presa por quatorze anos.

Valendo-se de ótimas interpretações e de uma protagonista cativante, “Areia Movediça” nos faz torcer para que Maja (Hanna Ardèhn) seja absolvida no fim, levando em conta toda a sua jornada ao longo da série. Sebastian (Felix Sandman) está fiel ao livro, um personagem cruel e explosivo, assim como a doce amiga de Maja, Amanda (Ella Rappich).

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Samir (William Spetz) é um personagem com muito potencial, mas que no fim da série é projetado para carregar o peso de tentar ser o  vilão e atrapalhar o curso do julgamento; outra adaptação de personagem que incomoda é a de Dennis (Suheib Saleh), o único personagem negro na série continua representado como o traficante que cada vez mais alimenta os vícios de Sebastian e de seu grupo. Na série, poderiam modificar a função do personagem (além disto, Dennis tem pouquíssimas linhas de fala e tempo em cena).

A série serve como complemento para o livro e possui um ritmo narrativo diferente, mais palatável, mesmo acompanhando o que acontece pelos olhos de Maja. Existem muitas mulheres com participações brilhantes ao longo dela, como Lena Pärsson (Maria Sundbom Lörelius), a promotora principal do caso, e Jeanette Nilsson (Rebecka Hemse), uma das investigadoras. Susse (Marall Nasiri) é a carcereira que cuida de Maja no período em que o caso está em andamento no tribunal e faz o papel da mãe que a protagonista não poderia ter naquele momento (a relação das duas é muito bonita de ser acompanhada).

Outros assuntos abordados na série são a culpabilização da vítima e a excessiva banalização dos crimes e sensacionalismo por conta da mídia.

Por fim, “Areia Movediça” é uma obra que nos faz questionar, nos surpreende e informa acerca de episódios tão doloridos já vividos por diversas pessoas ao redor do mundo. É importante para que possamos sempre nos atentar aos comportamentos de quem nos cerca, a fim de ajudá-los sempre que possível. Junto à Maja, afundamos pouco a pouco nesta areia de desilusões, mentiras, vinganças e descobrimos que o pior do ser humano ainda pode ser encontrado lá no fundo.


Areia Movediça

Malin Persson Giolito

Tradutor: Alexandre Raposo

367 páginas

Editora Intrínseca

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Edição e revisão por Isabelle Simões.


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É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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