No Longer Home: um recorte de vidas reais

No Longer Home: um recorte de vidas reais

No Longer Home é um jogo sobre enfrentar o medo do futuro, sobre mudanças e frustrações. Lançado em 2021 pela Humble Grove, o jogo é parcialmente baseado na experiência de vida dos criadores do game, Hana Lee e Cel Davison. Dois amigos que, assim como no game, foram obrigados a se separar após a faculdade.

No decorrer da história de No Longer Home, passeamos pelo apartamento de Ao e Bo enquanto presenciamos os momentos onde os personagens empacotam seus pertences, têm um último churrasco com amigos antes da mudança e revivem as memórias dos anos em que moraram juntos.

Através de diálogos e pensamentos das personagens e de seus amigos, seus medos, sonhos e frustrações são trazidos à tona. Após os dois se formarem na faculdade, ambos compartilham o mesmo sentimento de “eu poderia ter feito diferente” ou “poderia ter me dedicado mais”.

No Longer Home: um recorte de vidas reais
Imagem: Humble Grove.
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Por mais que seja curto e que os diálogos e demais interações sejam somente por texto, o jogo é extremamente imersivo. O que faz com que a nossa identificação para com as personagens e a narrativa aconteça de forma instantânea. As reflexões de No Longer Home são tão profundas que quando o jogo termina ficamos com aquela sensação de que seria incrível conhecer mais sobre esses dois personagens.

O jogo também nos deixa uma pontada de tristeza ao perceber que não acompanharemos toda a jornada de crescimento. Que aquele é apenas o recorte do ponto de partida de um novo capítulo das vidas dos personagens.

É nesse aspecto que No Longer Home se destaca de outros jogos do gênero. O jogo inclusive recebeu uma indicação ao The Game Awards na categoria Games for Impact, cujo vencedor foi Life is Strange: True Colors.

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A narrativa do jogo

Não existe um grande objetivo ou nenhuma missão ou mistério a resolver no jogo, somos simplesmente espectadoras de duas vidas reais. E conforme guiamos o personagem pela casa e interagimos com os objetos, descobrimos mais sobre nós mesmas através desses personagens.

O prêmio a ser alcançado no final é perceber que ainda o personagem seja obrigado a sair de casa e ir rumo ao desconhecido, sempre haverão aquelas memórias. Ainda que tenha tantas coisas que o personagem poderia ter feito diferente, ter expressado melhor seus sentimentos, ter sido mais próximo de seus amigos, eventualmente tudo aquilo passará e não há como mudar o que já passou, mas sim construir um novo futuro.

E o mais importante, a narrativa de No Longer Home nos mostra que está tudo bem em ter medo, em não querer passar por uma mudança tão brusca e abandonar seu porto seguro. Está tudo bem ter inseguranças. Essa é uma das mensagens principais.

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A narrativa de No Longer Home
Imagem: Humble Grove.

A trilha sonora instrumental (e original) também ambienta lindamente a narrativa. Ela cresce ou se mantém apenas como plano de fundo nos momentos necessários, transmitindo os sentimentos dos personagens. Além disso, supre a ausência de dublagem para as falas das personagens.

O cuidado que os criadores tiveram com a animação é outro ponto forte do game. As camas desarrumadas, salas bagunçadas, caixas espalhadas pelo corredor trazem ainda mais o sentimento de identificação para as jogadoras.

E por mais que grande parte do jogo se passe dentro do apartamento de Ao e Bo, as animações de transição entre os cômodos; alguns detalhes do cenário se alterando no decorrer da história, conforme a mudança se aproxima; a rotação de câmera dentro dos cômodos, torna o game ainda mais rico em detalhes. Sempre existe algum detalhe ou interação nova em cada cômodo.

Reflexos reais de No Longer Home

No Longer Home também é sobre solidão e um toque de melancolia.

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Tendo em vista que o mundo vive uma pandemia já há dois anos, se torna ainda mais importante a discussão dos reflexos que esses anos deixaram nos jovens adultos da geração. Pessoas que assim como Ao e Bo (ou como Hana e Cel) têm que enfrentar decisões difíceis e interromper seus sonhos. Que se sentem estagnadas em suas vidas ou forçadas a seguir determinado caminho por não ter outra opção.

Talvez o jogo não tenha o mesmo impacto para pessoas que estão fora desse público de jovens adultos, pois o crescimento das personagens diz muito sobre essa fase de início da vida adulta, através de todas as incertezas e dilemas que o acompanham. Mas a linguagem simples e a fluidez com que embarcamos na narrativa, vivenciando todo o cotidiano e as interações básicas de Ao e Bo, ajudam a construir uma bela jornada digna de ser assistida.

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Minha experiência pessoal com No Longer Home foi reflexiva e até um pouco nostálgica. Durante seu lançamento, eu havia recém me formado na faculdade e logo quando assisti ao primeiro trailer, durante a E3 de 2021, senti uma conexão com a história retratada no jogo. Fato que refletiu na rapidez com que imergi nos personagens e me vi, de certa forma, representada ali dentro.

E talvez foi ter me identificado tanto com a história que o final me deixou esperançosa sobre o futuro. Afinal de contas, decisões são aterrorizantes e, em algum momento, temos que abandonar nosso porto seguro. Mas a vida segue, portanto, um dia de cada vez.

Autora:

Escritora que nunca terminou seu livro, estudo narrativa e sou apaixonada por distopias. Também adoro animes, cultura japonesa e joguinhos indies... também sou arquiteta e urbanista quando sobra tempo.
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