Saboroso Cadáver: o horror e a crueldade na obra de Agustina Bazterrica

Saboroso Cadáver: o horror e a crueldade na obra de Agustina Bazterrica

Com metáforas e descrições de cenas brutais, a escritora argentina, Agustina Bazterrica, apresenta um futuro improvável, mas que guarda semelhanças com nossa realidade, e isso dá o tom perturbador desta obra. Saboroso Cadáver é um horror distópico onde a violência e a linguagem também são personagens. Foi lançado no Brasil pela editora Darkside Books.

Sobrevivência como justificativa para a perversidade

A história de Saboroso Cadáver acontece em uma sociedade decadente e assujeitada ao capital, em meio a uma pandemia que afeta os animais. A princípio, o governo se vê obrigado a acabar com todos eles, pois seu consumo pode matar, contudo, ao longo do texto, entendemos que há outra história, mais perversa. Com isso, a população se desespera, a violência cresce, e cria-se o medo com base em um discurso ardiloso de dominação. Sem a proteína animal, e em meio à crise, o governo libera o consumo de carne humana, com normas sanitárias e de abate.

Marcos Tejo, o protagonista, trabalha em um dos mais importantes frigoríficos, que fornece carne para vários fins, bem como visita curtumes, laboratórios e clubes de caça que compram seus produtos. Dirige a parte administrativa e apresenta a indústria para novos trabalhadores, descrevendo em detalhes a linha de abate. Nenhuma dessas funções o agrada, mas se incomoda, afinal sabe que está errado, mas precisa cumpri-las.

O horror e a crueldade em "Saboroso Cadáver", livro de Agustina Bazterrica
Edição da Darkside Books | Imagem: DarkBlog
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Além do peso do trabalho, vive dramas pessoais que o fazem um homem melancólico e contraditório, perdeu o filho ainda bebê; sua mulher foi para a casa da mãe, seu pai está em um asilo com demência, ao mesmo tempo tem constantes desentendimentos com a irmã.

Um dia, recebe de presente uma “fêmea” para usá-la como quiser, mas Marcos não sabe o que fazer e a deixa em um galpão. Ela não fala e não entende a situação. Como a legislação proíbe apenas a reprodução, ele a mantém confinada. Logo, caso transgrida a lei vai para o abatedouro municipal.

Quais os limites da perversidade e individualismo humano?

Em Saboroso Cadáver, quando o canibalismo torna-se legal, o abate começa a funcionar com imigrantes e marginalizados, pessoas excluídas. Mas os assassinatos saem do controle e o governo coloca ordem através de regras mais rígidas. Então, a matança ocorre com humanos criados e destinados para esse fim, os chamam de produtos, cabeças, carne especial.

Um dos caminhões-jaula está capotado na beira da estrada, destruído. As portas quebraram com o impacto ou foram quebradas. Vê Carniceiros com facões, pedaços de paus, facas, cordas, matando as cabeças que estavam sendo transportadas ao frigorífico.

Vê o desespero, a fome, uma loucura furiosa, um ressentimento conquistado, assassinato, vê um Carniceiro cortando o braço de uma cabeça viva […] vê mulheres com bebês nas costas esfaqueando, cortando membros, mãos, pés, vê o asfalto cheio de vísceras […]” (p. 172)

Edição de "Saboroso Cadáver", pela Darkside Books
Edição da Darkside Books | Imagem: DarkBlog

A violência em Saboroso Cadáver tem voz

Como se a violência conversasse com o leitor e contasse a história, ela acompanha as personagens em um ambiente nublado e sangrento, como uma sombra. Todos são cúmplices. O texto de Bazterrica perturba, pois ela faz um desenho perfeito da cadeia da carne, mas não com o gado, mas com sujeitos silenciados, desumanizados, transformados em produto comestível, e a linguagem tem um papel importante nessa construção de sentido.

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O discurso das personagens de Saboroso Cadáver indica marcas de linguagem comuns do cotidiano de frigoríficos, a autora as usa como estratégia para tirar a identidade dos sujeitos-produto. Algumas delas, como: isso; lote; cabeça; carne premium e geração pura, os transformam em animais de produção, eles fazem parte do mercado, não têm nome nem voz. Alguns são carne de exportação, outros são jogados aos miseráveis que ficam na volta do matadouro esperando os restos.

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Pessoas devoram-se, cada um por si. Não há ética nem emoção, em nome do lucro as empresas exploram corpos como um negócio, ao mesmo tempo, quem ganha é o mais forte. Uma história muito próxima da nossa. Detalhes no texto chamam atenção para a violência doméstica e contra a mulher, como as relações de dominação que Marcos sustenta com uma conhecida, que trabalha em uma espécie de açougue, e a “fêmea” que ele tranca no galpão.

Livro de Agustina Bazterrica
Edição da Darkside Books | Imagem: DarkBlog

Há pistas no livro sobre os governos estarem por trás desse colapso mundial, por exemplo, a desculpa de superpopulação. Por outro lado, os poderosos espalham a notícia sobre um vírus letal. Por medo, todas as pessoas se livram de seus animais, e as criações são dizimadas. A estrutura de poder é tão forte que é capaz de dominar povos inteiros em todo o planeta.

Canibalismo simbólico em Saboroso Cadáver

As indústrias e os donos do capital aparecem em Saboroso Cadáver como os empresários mundiais da carne, participantes do clube de caça e os detentores de poder. Da mesma forma, o modo capitalista de produção, a exploração e as desigualdades estão presentes na obra. A violência é tão naturalizada quanto a que vivemos diariamente em nossa cultura patriarcal, de exploração, racista e conservadora.

Vivemos em um mundo onde o capitalismo devora os trabalhadores, pessoas são marginalizadas e excluídas e perdem seus direitos. As indústrias produzem e exportam milhões de toneladas de carne, uma atividade cruel tanto para os animais quanto para os trabalhadores. Agustina Bazterrica, portanto, soube explorar muito bem temas que são reais, uma forma de denúncia para refletirmos sobre nossas próprias ações.

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Saboroso Cadáver é um romance de horror e triste, as personagens pregam um discurso de conveniência, justificado ideologicamente, com a retórica de que os humanos do criadouro não são humanos. O medo se constrói sob ameaça de aproximação com o caos. Assim, essa nova realidade é assimilada por aqueles que se consideram incluídos. A última frase do livro, talvez a mais cruel de todas, refere-se a um dos sujeitos/produto: “olhos tão humanos quanto os de um animal domesticado”.

A autora

A autora Agustina Bazterrica
Crédito: Denise Giovanelli

Agustina Bazterrica nasceu em Buenos Aires, em 1974. Formou-se em Artes pela Universidad de Buenos Aires (UBA). Em 2013 publicou o romance Matar a la Niña, e em 2016, o volume de contos Antes del encuentro feroz. Saboroso Cadáver ganhou o Prêmio Clarín Novela 2017 e o Ladies of Horror Fiction Award como melhor romance de 2020.

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Saboroso Cadáver

Agustina Bazterrica

1922 páginas

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Escrito por:

Gabriela é carioca, pesquisadora na área de Saúde do Trabalhador e frigoríficos, divide seu coração entre as Letras e a Veterinária. É escritora, e revisora de textos.
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