Sou de Virgem: a série afro-surrealista que desafia convenções

Sou de Virgem: a série afro-surrealista que desafia convenções

Foi descrevendo o trabalho do poeta negro Henry Dumas que nasceu a primeira versão do conceito de “afro-surrealismo” nos Estados Unidos em 1974. Amir Baraka, crítico musical e também poeta, fala da criação de um mundo que é simultaneamente diferente e conectado ao nosso, com histórias oníricas e mágicas, mas também dolorosamente reais. O termo elabora uma perspectiva unicamente negra, abordando o mundo contemporâneo através de seu absurdo.

afro-surrealistas reconhecem que a natureza (incluindo a humana) gera mais experiências surreais do que qualquer outro processo” (“Call it Afro-Surreal” (‘Chame de Afro-Surreal’), de D. Scot Miller, 2009, tradução livre)

O conceito foi resgatado em 2009 no manifesto “Call it Afro-Surreal” (‘Chame de Afro-Surreal’), de D. Scot Miller. O artista e editor é considerado o fundador do movimento contemporâneo, discutindo a presença e a força de artistas negres em São Francisco e no mundo.

A realidade é mais absurda do que a ficção

O afro-surrealismo difere do seu homônimo europeu do século XX: “Surrealismo Europeu é empírico. Surrealismo Africano é místico e metafórico”, nas palavras do poeta e primeiro presidente do Senegal, Leopold Senghor.

Jean-Paul Sartre, ao descrever o trabalho de Senghor, sintetiza: “é revolucionário porque é surrealista, mas é surrealista por ser negro.”. A perspectiva negra é definitiva para a forma e o conteúdo desse surrealismo.

O movimento também se diferencia do afrofuturismo, a ficção científica que combina elementos culturais, estéticos e filosóficos africanos e diaspóricos para imaginar um futuro sob perspectivas negras. O afro-surrealismo está comprometido com o aqui e o agora: o tempo não significa mais nada no absurdo contemporâneo. A realidade é mais absurda do que a ficção, e a partir do exagero estético e conceitual, o movimento pinta um retrato da vida contemporânea.

A estética de videoclipes de Kendrick Lamar, Childish Gambino e Flying Lotus, séries como Atlanta (2016) e Enxame (2023), filmes como Corra (2017): todos comentários claros sobre a sociedade atual e a realidade racial dos Estados Unidos. O exagero se torna uma ferramenta estética e conceitual para comentar a vida “real”.

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Poster do filme "Desculpe te incomodar". Lê-se o título no topo. O fundo é amarelo. Lakeith Stanfield, um homem negro, está segurando um telefone na orelha. Ele veste um terno roxo, um anel extravagante de mindinho, e uma bandagem cobrindo a testa, suja de sangue seco.
“Desculpe te Incomodar” (2018) – Filme Afro-surrealista de Boots Riley, o criador de Sou de Virgem | Crédito:

Boots Riley, “Sou de Virgem” e as metáforas literais

Boots Riley é uma das grandes vozes do audiovisual que incorpora o afro-surrealismo. Desculpe  te Incomodar, seu filme de 2018 estrelado por Lakeith Stanfield, conta a história de um atendente de telemarketing que tem um sucesso astronômico ao descobrir que possui uma boa “voz branca”. A dublagem intencionalmente malfeita é de uma voz anasalada, e se torna uma passagem só de ida para muito dinheiro, caos e exploração.

A estreia do roteirista e diretor foi bem recebida pela crítica. O conceito, inspirado pela sua própria vida no telemarketing, é escancarado: o absurdo traça de forma explícita o racismo contemporâneo e a exploração capitalista. As risadas que o filme causa são, frequentemente, de desespero.

Em março de 2023, o novo trabalho do diretor veio na série do Prime Video, Sou de Virgem. Jharrel Jerome interpreta Cootie, um jovem negro de 4 metros de altura. Com 19 anos, ele viveu toda a vida isolado com os pais adotivos Lafrancine (Carmen Ejogo) e Martisse (Mike Epps) na cidade de Oakland, Califórnia. Seu maior contato com o mundo é pela TV e quadrinhos, especialmente de super-herói.

A infância e adolescência superprotegidas alimentaram fantasias que vão desde o heroísmo predestinado até o desejo simples de provar o hambúrguer que ele vê nos comerciais. Seus pais tentaram prepará-lo para a dureza do mundo lá fora, mas tudo que Cootie deseja é ter acesso a ele. Os sete episódios nos levam em uma jornada para entender o porquê, independentemente do quanto ele possa desejar, a realidade não foi feita para acomodar alguém como ele.

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Cena da série "Sou de Virgem": Cootie, um homem negro de dread de 4 metros de atlura, está debruçado sobre um balcão de fastfood para fazer um pedido. Ele claramente não cabe no estabelecimento. Vemos Flora de uniforme, pronta para anotar o pedido atrás do caixa.
Cootie (Jharrel Jerome) e Flora (Olivia Washington) em cena da série Sou de Virgem | Imagem: Reprodução

O tamanho de Cootie pode ser entendido como um comentário literal sobre o espaço social do jovem negro hoje: perpetuamente percebido como espaçoso e ameaçador. Todos os absurdos da série –  um menino gigante, movimentos que desobedecem a física, monólogos niilistas em desenhos animados, personagens com habilidades extraordinárias – servem propósitos metafóricos claros. Esses absurdos são cirúrgicos e literais nas críticas que se propõe a fazer.

Flora (Olivia Washington) é atendente de fast-food, interesse amoroso de Cootie e superveloz. Sua agilidade surreal foi entendida como problemas de desenvolvimento na infância, e durante a história entendemos que ela está constante diminuindo velocidade para poder se conectar com o mundo. A relação de Flora e Cootie é uma janela interessante para entender ambas as personagens – a ingenuidade infantil dele, o cansaço da adaptação dela.

É interessante notar que as habilidades e momentos extraordinários, como variação de tamanho, voos, supervelocidade e projeção psíquica, são reservados a personagens negras. Em paralelo a eles, temos o Herói (Walton Goggins), um homem branco endinheirado e bem-nascido, que produz quadrinhos sobre si mesmo e usa um super traje para sobrevoar a cidade como um vigilante. Seu superpoder é o dinheiro.

A fantasia do super herói

O Herói é um fator central, tanto para a trama quanto para o simbolismo da história. Logo no primeiro episódio de Sou de Virgem, assistimos a seu monólogo existencial em uma entrevista de TV e entendemos simultaneamente quem ele é e o que ele significa para Cootie. Crescendo com acesso limitado ao mundo, as fantasias heroicas são um dos poucos bálsamos que ele tem. Entendemos a profundidade da ingenuidade de Cootie ao observar sua relação com o Herói.

Ganhamos mais intimidade com a personagem na metade final da série, mas sua essência é possível de captar desde o início: existencialismo, dinheiro, privilégio e a busca pelo propósito. A fantasia de salvador executada à perfeição, mas sem gerar a satisfação desejada.

Aqui, é interessante notarmos o contraste: Cootie também chega a sonhar com heroísmo e propósito, mas seus desejos são muito mais mundanos em comparação. As grandes ambições iniciais de Cootie são tão simples quanto provar um hambúrguer de fast food, arranjar um emprego e conseguir uma namorada. Ele quer experienciar o sonho da vida comum, ter acesso ao mundo lá fora. Enquanto isso, o Herói sonha com megalomanias como marcar a história, mudar o mundo, ser lembrado para todo o sempre.

Super-heróis são uma fantasia americana que reflete tanto a ingenuidade de Cootie quanto o pensamento sem nuance de Jay, o Herói. O folclore simplista de heróis e vilões é perfeito para se contrapor à complexidade dos problemas reais. A série debate raça e exploração capitalista e, ao encaixar temporariamente a trama em um formato como esse, escancara o quanto vivemos problemas profundos e estruturais – nada simples de se resolver.

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Cena da série "Sou de Virgem": O Herói, com um traje tecnológico branco, carregando um papel do seu tamanho escrito "Deed". A cena é surreal, com um fundo escuro e estrelado, e com uma dezena de pessoas de rosto coberto e vestidas de policiais atrás dele.
O Herói (Walton Goggins) em cena da série Sou de Virgem | Imagem: Reprodução

O capitalismo descrito em detalhes em “Sou de Virgem”

Jones (Kara Young) é uma mulher negra e sáfica, organizadora de um movimento popular contra despejos em Oakland. Ela é amiga de Cootie e companheira de movimento de Lafrancine, mãe dele. Ela fala diversas vezes que os problemas que enfrentam são estruturais e as soluções não são simples, independente dos desejos e super habilidades que possam ter.

Seu papel cresce e se torna cada vez mais relevante durante a história. Sua habilidade é a retórica, que consegue projetar imagens imersivas em seus discursos carregados de teoria e ideologia. Mais de uma vez durante a série, Jones explica com imagens como funciona a exploração capitalista, o exército de desemprego e a necessidade de mobilização popular. Jones é a ferramenta de Boots Riley para literalmente desenhar a sua mensagem: o capitalismo é inescapável, e se mobilizar contra o sistema é essencial.

Sou de Virgem é uma viagem estética e conceitual com mensagens claras. A série afro-surrealista está disponível no Prime Video, com sete episódios.

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Bia é formada em economia, pesquisadora e escritora. Obcecada por internet e cultura, gosta de escrever para entender o mundo. É leitora assídua de todo tipo de ficção, ama debater filmes e faz perguntas sobre quase tudo - pelo prazer de buscar a resposta.
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