[LIVROS] Por que “Sonata em Auschwitz” é mais necessário do que nunca?

[LIVROS] Por que “Sonata em Auschwitz” é mais necessário do que nunca?

No início da leitura de Uma Sonata em Auschwitz, o mundo era de determinada maneira. Era um mundo em que o holocausto era um fantasma constante e assustador, o qual nos certificava que a memória de tal acontecimento sombrio da história da humanidade estava viva nas mentes das pessoas, de forma que não poderia – ou pelo menos seria difícil – de se repetir.

Esse pensamento, infelizmente, caiu por terra com a divulgação de uma pesquisa da empresa de pesquisa Schoen Consulting, encomendada pela Conferência em Alegações Materiais Judaicas contra a Alemanha, em que foi constatado que:

  1. 2/3 dos jovens de 18-34 anos (millenials) não sabem o que é Auschwitz;

  2. 22% não tem certeza do que seja o holocausto e;

  3. 41% acreditam que 2 milhões ou menos de judeus foram mortos nos campos de concentração ao longo do regime nazista.

Na imagem: “O trabalho liberta”. Entrada do campo de Auschwitz-Birkenau (reprodução)

Saber dessa notícia após ler um livro, na verdade, após ler um relato sobre as atrocidades (especialmente psicológicas) efetuadas dentro e com o aval do regime nazista, é extremamente perturbador. Isso ainda se acirra se pensarmos na época de crescimento nacionalista, xenófobo, racista e imperialista que – mais uma vez – vivemos, com o aparecimento de figuras públicas abertamente fascistas e contrárias a plena igualdade étnica-racial, social e econômica.

A obra de Luize Valente, escritora e documentarista brasileira, consegue nos levar perigosamente para dentro da história, não apenas de Auschwitz, mas também de tudo aquilo vivido pelos judeus – sem contar negros, homossexuais, ciganos e etc – decorrente do regime nazista que maculou a história recente, europeia e mundial.

Na imagem: Luize Valente (reprodução)

Com uma proposta de romance, a trama inicial do livro se mistura e se transforma em uma história que trata, na verdade, de umma mistura entre descobrimento (tanto particular quanto coletivo) e identificação universal. Uma busca de plenitude pessoal e familiar, em meio a assuntos tão intensos e necessários quanto a discussão do holocausto, nos transporta a um igual reconhecimento da importância do relato.

Adele, a vítima protagonista da história em questão, não escolhe esconder nenhum dos sofrimentos que ela, seus amigos e semelhantes vivenciaram ao longo das páginas do livro, o que torna a vivência através de suas experiências ainda mais direta e intensa, de forma que, por vezes, é preciso interromper a leitura para nos recuperarmos do que acabou de ser lido e, por conseguinte, sentido.

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“O mundo continuava do mesmo jeito. Injustiças, opressão, racismo, antissemitismo existiriam para sempre. No pouco mais de meio século que a separava do fim da Segunda Guerra Mundial, quantos confrontos se haviam sucedido?”

Apesar disso, Sonata em Auschwitz ainda consegue nos entregar uma história de esperança e amor, na qual até mesmo aqueles que a primeira vista seriam os vilões, se mostram como, mesmo que em pequena medida e na determinada situação, heróis. Afinal, é um oficial nazista alemão que salva a vida de uma bebê judia de Auschwitz e permite que ela tenha, ao mínimo, uma chance.

A trama ainda nos dá um incrível exemplo de representação feminina, conseguindo apresentar uma gama incrível de personagens, tanto no passado quanto no presente. Adele, Amália, Frida, as Hayas e as demais, foram todas belas e profundamente apresentadas e representadas pela autora, de maneira que não apenas conseguimos visualizar perfeitamente o que transcrevem, mas também sentir o que nos contam – seja direta ou indiretamente.

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Inclusive, não é exagero dizer que a narrativa se torna ainda mais fácil de ser compreendida, em razão da grande presença feminina nela; já que os sentimentos, fatos históricos e vivências são cristalinamente passadas através das falas e lembranças das personagens femininas, as verdadeiras protagonistas da obra de Valente.

No mais, uma maneira fluida, clara, verdadeira, detalhada e completamente emocional, pinta a narrativa extremamente necessária de Luize Valente, principalmente diante do nosso atual cenário político e social. A obra, mesmo que de certa forma fictícia (não na parte da veracidade do holocausto, é claro) é importante e forte. Com certeza vale a leitura, agora, mais do que nunca.

É difícil ler o livro e não sentir o peso que da história de Adele – e que tantos(a) outros(a) – carrega e faz transbordar nas nossas vidas. Como voltar normalmente ao cotidiano após ler tal relato? Como permanecer vivendo ao saber que isso aconteceu e, infelizmente, continua acontecendo?

“No fundo, o que queria ter dito era: as pessoas só sentem quando é com elas.”

Essas são perguntas extremamente difíceis, com respostas aparentemente impossíveis. É muito difícil sair de nosso conforto para realmente fazer alguma coisa em relação as injustiças do mundo, já que muitas vezes parecemos tão pequenos e impotentes diante do tamanho da injustiça e daqueles que a fazem. “Por que o povo alemão não impediu?” é uma pergunta que ecoa desde o fim de regime nazista e que, na verdade, pode ser repetida até hoje em diversas e distintas situações.

“Uma coisa que aprendi em Auschwitz é que a gente até consegue viver sozinho, mas sobreviver? (…) Ninguém que sobreviveu aos campos sobreviveu sozinho. E verdadeiros amigos morreram para que sobrevivêssemos.

De longe, somos apenas uma voz, é verdade. Mas o que a soma de diversas únicas vozes não pode fazer? Acreditamos que poderiam ter impedido o holocausto, assim como se esforçam para hoje impedir novos casos de genocídio e discriminação de raça, etnia, gênero, sexo e etc. Nos resta, contudo, esperar que a empatia universal seja mais forte que o comodismo.


Sonata em Auschwitz

Luize Valente

Editora Record

378 páginas

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