[LIVROS] O Suave Tom do Abismo: Uma bela e terrível metáfora sobre a sociedade brasileira

[LIVROS] O Suave Tom do Abismo: Uma bela e terrível metáfora sobre a sociedade brasileira

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Pense em como seria acordar e perceber que a luz desapareceu, deparando-se com um terrível breu que envolve a tudo e a todos, contaminando vidas e mudando destinos. Assim é o universo criado pela escritora brasileira Diedra Roiz na trilogia O Suave Tom do Abismo, publicada pela Editora Vira Letra. Os personagens e suas vivências são apresentados paulatinamente e a leitora é levada a torcer por alguns e a odiar outros. A leitura é fluída e os três volumes podem ser devorados em poucas horas. Mais do que uma bela narrativa, em O Suave Tom do Abismo as leitoras encontrarão uma bela e terrível metáfora sobre a sociedade brasileira.

O presente texto se propõe a apresentar a coleção. Falaremos sobre os principais personagens e, a partir da vivência deles, discutiremos o eco que cada um tem na sociedade brasileira. Alguns fatos do enredo serão omitidos, afinal, boas surpresas são sempre bem-vindas.

LIVRO UM: ABSORÇÃO

O Suave Tom do Abismo

Absorção é o primeiro livro da coleção. Nele, a leitora encontrará a descrição dos cenários que ambientam a trama e também alguns personagens que estarão presentes até o final da história. Ao observar a capa, percebemos uma pequena chama envolta por escuridão. Tal visual se encaixa perfeitamente com o clima do livro um, pois o desenrolar dos acontecimentos são permeados por dor, sofrimento e medo.

A sociedade em O Suave Tom do Abismo é dividida entre Cidade Alta e Cidade Baixa. A concentração de riqueza não é a única coisa que divide os ricos e os pobres, mas também a luz. A Cidade Alta é iluminada e pode ser vista de longe por todos os habitantes da Cidade Baixa. Mas não se enganem: a luz aqui está relacionada com ostentação de poder, e não com o conhecimento. Mesmo os membros da Cidade Alta não tem acesso livre aos livros; sabem apenas o que lhes permite viver confortavelmente e manter o domínio sobre a sociedade. Ou seja, mesmo para os privilegiados, alguns temas são proibidos.

“Perda de tudo. Vida, alegria, esperança, amor pelos outros e por si mesma. Um tanto faz de quem não se importa mais, por não ver em nada uma diferença.” (2015, p. 98)

A família Bonnet é destaque na Cidade Alta, pois tem se mantido no poder ao longo de gerações. Conduzem com mão de ferro a Cidade Baixa, onde exercem seu poder por intermédio do representante da Casa do Senhor, o reverendo Samuel. Ele não tem o mesmo poder que a família Bonnet, mas é uma figura de autoridade e, lamentavelmente, acaba impondo a vontade daqueles que representa pelo uso da força.

A Cidade Baixa é escura, pobre e humilhada. Por não possuírem direitos, os que vivem nas vilas são reféns do medo. Talvez o maior exemplo seja a personagem Álex. Desde muito jovem, ela percebeu-se diferente, mas foi na juventude que tal fato tomou forma quando a jovem moça de cabelos escuros apaixona-se pela melhor amiga e se surpreende ao perceber que é correspondida.
O amor das jovens é narrado de forma bela, porém, em um mundo com tantas interdições, um final feliz é praticamente impossível para os que fogem à norma. Álex e a namorada são surpreendidas por Samuel e graças a ele, são brutalmente estupradas em um ritual de purificação e correção. A violência sofrida deixará Álex introspectiva e arredia. É perceptível que ela não vive, mas sobrevive. Entretanto, sua história muda ao conhecer Sofia.

Sofia é uma Bonnet de nascimento, mas não de alma, e é uma das melhores personagens criada por Diedra Roiz. Seus ideais estão distantes do que sua família almeja e, por um acaso do destino, conhece Álex. O envolvimento das duas acaba por mudar destinos.

LIVRO DOIS: REFLEXÃO

O Suave Tom do Abismo

Apesar de todas as agruras de que são vítimas, os membros da Cidade Baixa buscam espaços para resistir. Mesmo assim (como metaforizado na capa do livro dois) a chama cresceu, mas ainda é insuficiente para combater a escuridão. Entre os rebeldes, ainda encontramos preconceitos e de certa forma opressão, particularmente no que diz respeito a uma das melhores personagens do livro dois, Máira, uma mulher trans que almeja a liberdade acima de qualquer coisa.

Máira nasceu homem, porém, identificava-se como mulher. Agraciada com um pai sábio, Júlio Bevilhaqua, que a entendeu e amparou, a jovem viveu segura por um tempo. Infelizmente, o segredo de Máira foi exposto e, semelhante ao que aconteceu com Álex, ela foi punida publicamente e passou a ser considerada uma pária. No entanto, sua reação ao ocorrido determina seu destino.

“Ser diferente não exime ninguém dos próprios preconceitos. Muitos estão aqui por falta de escolha e não por ideologia. Só lutam contra a opressão que os atinge. E acabam reafirmando a intolerância, a injustiça e as estruturas perversas do poder.” (2016, p.191)

A tragédia não a abateu: Máira uniu-se à rebelião que desejava o fim dos privilégios da Cidade Alta e, em pouco tempo, tornou-se uma das líderes do movimento. Apesar disso, o preconceito contra sua identidade de gênero a persegue mesmo entre os rebeldes e a mágoa de Máira é captada sutilmente em seus diálogos. Sua participação na história torna-se ainda mais interessante quando ela se descobre apaixonada por Sofia e precisa lidar com diversas questões, especialmente por amar a mulher que deveria destruir.

LIVRO TRÊS: TRANSMISSÃO

O Suave Tom do Abismo

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Diedra Roiz encerra a história de forma brilhante. A terceira e última capa ilustra bem o clima de Transmissão. Antigos medos são superados e novos destinos são traçados. Mesmo que as injustiças não tenham sido completamente cessadas, é possível vislumbrar um futuro melhor para todos e, quem sabe, o surgimento de uma nova esperança. Alguns segmentos narrativos foram concluídos de forma deleitosa, sobretudo os que envolvem Álex, Sofia, Máira e Samuel.

Álex, Sofia e Máira amadureceram muito ao longo dos três livros. Suas feridas foram cicatrizando e é praticamente impossível não simpatizar com elas. Álex tornou-se corajosa, destemida e uma das maiores defensoras dos ideais da rebelião, acreditando na liberdade como bem maior. Sofia entendeu que a política deve ser exercida com a participação do povo e não por ele. No final, temendo tornar-se uma verdadeira Bonnet, acaba abandonando a vida na Cidade Alta e vai viver no acampamento dos rebeldes. Máira, por sua vez, aprendeu que para que uma revolução aconteça, também é preciso poupar vidas.

“– Um recomeço. Uma mudança total. Um início do zero.
Sofia sorriu e, de mãos dadas com Álex e Máira, também olhou em frente:
– Um novo mundo.” (2018, p. 385)

Samuel, no entanto, permaneceu um canalha sádico do começou ao fim. Usou de modos escusos para se manter no comando da Casa do Senhor, justificando seus desejos como divinos e impondo terror por onde passava. Seu final não poderia ter sido diferente e, por mais drástico que tenha sido, quem chegar às últimas páginas de O Suave Tom do Abismo ficará feliz com o que aconteceu a ele.

O Suave Tom do Abismo e a Sociedade Brasileira

Diversos temas relevantes serão encontrados em O Suave Tom do Abismo e a leitora mais atenta perceberá que, na verdade, a trilogia é uma excelente metáfora sobre a sociedade brasileira.

A divisão entre Cidade Alta e Cidade Baixa é bastante semelhante à da nossa sociedade; uns com tanto, outros com tão pouco. Mais do que isso: a família Bonnet, sucedendo-se no poder ao longo de gerações, permite um vislumbre de nossa organização política, já que, no Brasil, algumas famílias transformaram o exercício político em um negócio lucrativo no qual pais e filhos se sucedem. Além disso, o uso de um espaço que deveria ser utilizado para culto religioso e aperfeiçoamento do ser humano é contaminado pelo desejo de poder e acaba tornando-se um meio de alienação e dominação à semelhança do que Samuel fazia na Casa do Senhor.

Aliás, se analisarmos as redes sociais, ou mesmo se conversarmos com vizinhos e parentes, veremos o aumento crescente de tipos como Samuel. Violento, intolerante e ambicioso, o reverendo utilizava-se do poder que tinha para exercer influência e se beneficiar. Boa parte das atrocidades cometidas na história tiveram a participação dele. Homofóbico, transfóbico e machista, ele é o típico “cara do bem”, que diz agir em nome da moral e do bem comum, mas que não passa de um manipulador covarde.

A transfobia e lesbofobia também estão presentes na história e são trabalhadas de forma exemplar. Diedra nos faz sentir o sofrimento das personagens, apresentando o ato vil da violência como algo desestruturante, perturbador e que deve ser combatido a todo custo. Sabemos que, infelizmente, o número que atentados contra as pessoas trans se mantém elevado no Brasil, assim como o número de assassinatos e estupros corretivos contra lésbicas, que vem crescendo. Justamente pela abordagem da autora, acreditamos que o livro deve ser lido e discutido com os jovens para que, quem sabe, consigamos melhorar nosso triste quadro social.

Para finalizar, deixaremos a recomendação da leitura. Apesar do tom sombrio inicial, a história cresce em beleza e representatividade social. O fim será melhor que o começo e, com certeza, a leitora se emocionará ao se permitir caminhar em meio à escuridão, em direção à luz.


Absorção

186 páginas

formato: eBook Kindle

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Reflexão

186 páginas

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Transmissão

382 páginas

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Nerd, pedagoga, escritora, leitora, gamer, integrante da casa de Lufa-lufa, amante de ficção científica (Star Trek, Star Wars e Doctor Who) e literatura fantástica. Deseja ardentemente que o outro lado da vida seja uma grande Biblioteca.
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