Monique Moon: do mundo dos jogos à ilustração

Monique Moon: do mundo dos jogos à ilustração

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De Osasco, São Paulo, Monique Moon é ilustradora, animadora de jogos, compositora e sound designer. As ilustrações de Moon seguem o estilo em preto e branco, tem um tom dramático e são carregadas de simbolismo. Moon conta que suas inspirações vêm de diversas fontes diferentes, músicas ou filmes, histórias e artistas, simbolismo místico e satanismo. “Tudo pra mim é uma inspiração de certo modo, acho difícil afunilar em poucos nomes.”

A ilustradora utiliza como inspiração diferentes momentos de sua vida durante a criação das ilustrações. “Minha experiência como mulher trans, que envolve a dor de ser rejeitada e também a rebeldia do processo de auto-aceitação em um mundo ao qual você não pertence. É como se eu tivesse criado um universo à parte, no qual toda experiência que eu vivo, reflete nesse universo de uma maneira agressiva e melancólica ao mesmo tempo, que é minha natureza.”

Em seu perfil no facebook, ela faz uma crítica à romantização do sofrimento do artista e a transformação desse sentimento em arte. Ela publicou: Se eu soubesse que essa merda ruim que eu tenho dentro mim fosse sumir se eu parasse de desenhar, eu pararia sem pensar duas vezes. Nada vale mais do que meu sossego, não quero nome, não quero reconhecimento, não quero ser foda, não quero nada disso.”

Monique Moon

Imagem/Foto: Reprodução/autora

Ainda sobre o seu processo de criação e a transformação das suas experiências em arte, Moon diz: “Geralmente quando eu passo por algum momento muito marcante na minha vida, seja de bom ou ruim, é o clique pra conseguir transpor esse sentimento no papel. É um processo de catarse que sempre traz uma carga emocional muito pesada e, às vezes, é bem difícil de lidar. Eu fico semanas remoendo aquilo antes de conseguir desenhar.” Segundo Monique, a ilustração que ela acredita ter chegado ao máximo da sua capacidade foi a peça “Ninho”. Essa peça acabou definindo grande parte da estética, narrativa e simbolismo que eu tenho usado até hoje”.

Monique prefere as histórias em quadrinho onde o drama está incluído. A HQ “Azul é a cor mais quente” foi bastante marcante porque “é trágica igual a vida real, pois uma hora está tudo bem e, de repente, acabou”. A graphic novel de Julie Maroh, publicada em 2010, conta a história da relação entre Clementine e Emma. A história foi transformada em filme de mesmo nome e lançada em 2013, com as atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos.

Para lidar com os momentos de bloqueio criativo, ela procura fazer coisas diferentes, como sair ou tocar algum instrumento, jogar videogame, limpar a casa, ouvir música. O importante é fazer qualquer coisa que não envolva desenhar e, de repente, quando menos se espera, a inspiração volta e a coisa flui novamente. Nos momentos de dúvida sobre o próprio trabalho, ela acha que o melhor é aprender a não deixar isso transparecer, porque acredita ser um sentimento que não vai embora nunca. “Eu tenho muita dificuldade em aceitar que sou boa o suficiente em alguma coisa.”

Monique Moon

Imagem/Foto: Reprodução/autora

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Além de ilustradora, Monique também trabalha e estuda jogos digitais – e eles vieram antes do envolvimento com a ilustração, que até o ano passado ela tinha apenas como hobbie. Ela conta que, em 2011, chegou a desistir de trabalhar com arte. Não conseguiu continuar os estudos, pois precisou trabalhar de outra forma. Nesse tempo, a vida foi acontecendo e os videogames eram a única coisa com a qual ela ocupava seu tempo livre. “Acabei usando eles tanto como entretenimento quanto como válvula de escape, e alguns jogos eram a única coisa que importava pra mim. Eu respirava games, então quando eu descobri o curso foi uma escolha fácil.”

Em 2017, Monique apresentou seu jogo “Masmorra da Tortura na CCXP. No jogo, o personagem pede uma caricatura para a dupla e, sem querer, Monique o joga dentro de uma masmorra de onde ele precisará enfrentar algumas criaturas para conseguir sair. Na vida real, a pessoa também fazia o pedido da caricatura e recebia o desenho, além de um link próprio para o jogo personalizado com o seu próprio avatar em pixels.

Criado em colaboração com seu colega de faculdade Raul Tabajara, o jogo veio de uma brincadeira feita por ele, a partir da criação de uma caricatura de outro colega de classe, onde colocou no protótipo de um jogo que estava criando na época. Apesar de ter feito toda a animação em pixel art, o processo de criação foi complicado, já que ela nunca havia trabalhado com animação ou pixel, além da trilha sonora. Foram mais ou menos 4 meses para concluir o jogo, ela comenta: “e isso não é nem perto do suficiente pra entregar algo apresentável, porém depois de muitas noites viradas a gente conseguiu fazer algo a nível comercial. O jogo foi um sucesso na CCXP, principalmente com as crianças. Elas adoraram.”

No dia 8 de março, a editora Skript anunciou o lançamento do livro “Mulheres & Quadrinhos“, onde serão publicados contos, relatos, artigos científicos e ilustrações sobre a relação das mulheres com o mundo dos quadrinhos. Monique é uma das envolvidas nesse projeto. Além deste, Moon disse não estar trabalhando em nenhum projeto específico, apenas seguindo como freelancer e buscando consolidar seu estilo e otimizar o processo de produção. Quando perguntei qual dica ou conhecimento ela gostaria de passar para quadrinistas e ilustradoras, ela disse “Nunca pare de desenhar e estudar, como eu fiz”.

Para ver mais trabalhos da Monique, siga seu Instagram aqui!


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Formada em Direito e estudando Jornalismo, já esteve muito perdida na vida, agora talvez esteja um pouco menos. Metade Frankie e metade Grace, segue escrevendo, tentando cumprir as metas de leitura e ouvindo podcast. Acredita fortemente que um dia vai tomar rumo nessa vida.
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