A importância de existir personagens divorciadas na ficção

A importância de existir personagens divorciadas na ficção

Da mesma maneira que o audiovisual busca nos entreter, seus mecanismos – televisivos, cinematográficos, teatrais – também espelham retratos da realidade. A importância de se ver representada transmite a sensação de acolhimento e a compreensão. Portanto, ao vermos personagens na ficção com os quais nos identificamos, enxergamos outras percepções e resoluções de problemas, compreendendo melhor nossa própria condição. Além de, é claro, sentir-se protagonista de algo.

Ao contar histórias de amor é comum vermos o processo em que o casal se apaixona e fica junto, ou quando sofrem por não poderem ficar juntos. Mas e quando não há algum sofrimento? E se o divórcio for benéfico e a confusão se transforma em alívio? Quando aquela dor não é pelo (agora ex) esposo, mas por como os filhos receberão a notícia? São tantas camadas, possibilidades e histórias que deveriam ser contadas, mas não são. Seja pelo preconceito, medo ou tentativa de apagar que fracassos existem em relacionamentos e que não são necessariamente torturas.

Reflexões sobre o divórcio e seu impacto na vida das mulheres

Quando um casamento se encerra, independente do motivo, o homem sairá por cima e a mulher terá de se resguardar dos julgamentos e boatos alheios. Para ele, o fim de um relacionamento talvez seja uma libertação, mostrando que aquele compromisso é uma imaturidade. Além disso, o homem provavelmente encontrará apoio em sua família e amigos. Agora a circunstância muda completamente quando se trata da mulher: não importa qual seja a causa, aquele casamento ter chego ao fim foi sua culpa, a decisão do compromisso foi um erro. E o divórcio? Uma decisão pior ainda.

Também não é de se surpreender que homens divorciados possam apresentar uma confiança maior em iniciar novos namoros e compromissos, enquanto uma mulher pode levar anos para se recuperar do desgaste que foi aquele matrimônio, findado em anos de uma dependência emocional possivelmente traumática.

Além dos julgamentos e da reconstrução de seu psicológico, essa identidade feminina necessita de um processo de reconhecimento nessa nova fase. Isto é, faz-se necessário descobrir quais as maneiras que a mesma se enxergará dentro do próprio universo, como se entenderá enquanto indivíduo, possivelmente com o dever de reconstruir sua própria autoestima – que pode ter sido abalada com aquele término devido a diversos papéis de gênero que são moldados desde cedo (bem aquela circunstância de se questionar o porquê não foi o suficiente e assim adiante).

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Não que o contrário não aconteça. Ou seja, um homem também pode passar por todo esse processo de recuperação enquanto sua ex-parceira se encontra confortável em prosseguir com a vida pós-término. Mas pensando em níveis estatísticos bem rudimentares – as pessoas do prédio em que você mora, os clientes do escritório ao lado do seu trabalho, a rua em que você brincava quando criança ou a sua turma do 7º ano do ensino fundamental – a quantidade de casos de mulheres separadas, divorciadas ou abandonadas se sobressai em relação ao número de homens na mesma situação.

Como foi citado anteriormente, o audiovisual busca expor retratos da nossa realidade. Então, feita nossa reflexão sobre o divórcio e o impacto social do mesmo na vida das mulheres, refletiremos sobre como esse assunto foi abordado – não indiretamente – em uma série estadunidense e um drama sul-coreano.

Quando ela é fabulosa, esplendida e sua única preocupação é a filha (e salvar o mundo do apocalipse diariamente)

divórcio em Umbrella Academy
Personagens divorciadas: Allison em “Umbrella Academy” | Via: Netflix

Allison Hargreeves (Emmy Raver-Lampman) é popular, talentosa, bonita e charmosa. É uma grande estrela de Hollywood com filmes de sucesso e capas de revistas maravilhosas. Em sua juventude, foi a Número 3 da equipe de super-heróis Umbrella Academy, formada com seus outros irmãos, e com seu poder Rumores (ao falar “eu ouvir um rumor…” Allison domina a mente de quem ouve e é capaz de manipulá-lo a fazer o que ela quiser) ela conduz os grandes vilões e bandidos da cidade para suas devidas punições. Ou seja, Allison praticamente nasceu uma estrela.

Se não fosse pelo pai autoritário e controlador, talvez ela tivesse tido uma relação mais saudável com os seus poderes. Na primeira temporada de Umbrella Academy, lançada em 2019 na Netflix, encontramos Allison com a carreira consolidada e estável. Participando de eventos, sendo reconhecida e aclamada nas ruas e locais; em seu ofício, Allison até poderia admitir estar completa. Mas no que centrava sua vida pessoal, a personagem estava perdida: divorciada recentemente, ela estava proibida de encontrar com a própria filha, Claire de cinco anos.

Seu esposo optou pelo divórcio após ver a filha sob os efeitos de Rumores no momento em que Allison a estava fazendo dormir. Como a personagem era mundialmente conhecida por ter esse poder, os poderes superiores tiraram seus direitos sobre a filha no processo de separação.

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maternidade e divórcio em Umbrella Academy
Allison e sua filha, Claire | Crédito: Netflix

É interessante observar essa narrativa – por mais superficial que ela tende a ser durante a série, afinal, o fim do mundo estava ocorrendo e Allison e seus irmãos deveriam impedir. Somos capazes de entender não somente o quanto a personagem amava sua filha – todas as suas preocupações e decisões giravam em torno da filha -, mas como também a maternidade poderia ser cansativa.

Allison nunca utilizou o seu poder em Claire para colocá-la contra o pai ou manipular o poder de escolha da filha; a personagem relata que usou rumores apenas quando estava muito exausta e a filha, como a criança bebê que era, estava com um comportamento em que ela, como mãe, não enxergava nenhuma saída. O pai ficou abismado ao enxergar a filha sob os poderes – é compreensível sua revolta, mas também é explícito que ele não se esforçou para enxergar o contexto do poder usado ou entender o lado de Allison.

personagens divorciadas
Allison em Dallas, durante a sua viagem no tempo | Crédito: Netflix

Em 2020, a segunda temporada de Umbrella Academy estreou e Allison acaba sendo transportada para a década de 1960-1970: longe da filha, ferida – nos capítulos finais da temporada anterior, a personagem sofreu um acidente grave – e sem entender o que aconteceu, ela tem que se reconstruir dentro de um cenário completamente adverso ao que ela estava habituada. Em seguida, ela fica presa nesse período por alguns anos e acaba se casando novamente, com alguém que ela confortavelmente ama e vive uma rotina interessante pelos direitos raciais, já que ela estava vivendo o auge da segregação racial estadunidense.

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Em algumas reviravoltas na história, Allison encontra a possibilidade de pode retornar ao tempo atual – ao seu tempo natural – e por mais que ela ame seu esposo, ela entendia a necessidade de respeitar a ordem das coisas e compreender que seu esposo pertencia naquele tempo, não podendo tirá-lo dali. Além dela não se permitir ficar longe da filha ou abrir mão de sua realidade, carreira e conquistas. Portanto, da mesma maneira que a personagem conseguiu se reconstruir, ela seria capaz de retornar ao seu mundo.

Quando ela é a melhor da sua área, mas uma pausa na carreira se mostrou necessária

Dan-i em "Romance is a bonus book"
Personagens divorciadas: Dan-i em “Romance is a bonus book” | Crédito: Netflix

Kang Dan-i (Lee Na-young) era a melhor de sua área: inteligente, sagaz, esperta e muito esforçada, ela chegou a ganhar prêmios de destaque no ramo publicitário antes mesmo de concluir a faculdade. E assim seguiu a sua carreira, em uma excelente ascensão, mesmo com o casamento e nascimento da sua filha alguns anos depois. Contudo, mesmo ela amando seu emprego e suas inúmeras oportunidades, Dan-i preferiu dar uma pausa para focar na criação de sua filha pequena, com o cuidado e atenção que ela acreditou serem essenciais e que somente uma mãe poderia oferecer.

Com isso em mente, pulamos para sete anos a frente, período atual em que Romance is a bonus book (2019), k-drama produzido pela tvN e distribuído pela Netflix, se passa. Agora, vemos que Dan-i está há um ano divorciada, sem emprego, desabrigada e com todos os centavos contados. Ela já foi a tantos processos seletivos que a sola de salto alto descolou e já não possui criatividade o suficiente para responder às mesmas perguntas feitas pelos diferentes entrevistadores.

Ainda que ela seja uma profissional única, o fato dela ter feito essa pausa de sete anos pesou muito na perspectiva dos empregadores sobre ela. A área em que atuava se modernizou de maneira incontrolável e ela acabou ficando obsoleta para algum retorno imediato ao mercado de trabalho. Mesmo que ela mostrasse ter a capacidade de aprender rápido, nenhum empregador gostaria de perder tempo lhe ensinando.

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Kang Dan-i (Lee Na-young) em "Romance is a bonus book"
Casamento de Dan-i na abertura de “Romance is a bonus book” | Crédito: tvN

Todavia, Dan-i encontra uma oportunidade imperdível de emprego e ela só se torna possível se a mesma omitir sua formação. Arriscado e até um pouco humilhante, esta era a sua última chance. Com sucesso, ela é contratada para uma vaga temporária de meio período. E a partir disso, vemos a jornada de Dan-i se reencontrando como indivíduo – e é extremamente satisfatório observar tal desenvolvimento.

São muitos processos que a personagem admite se encontrar e um dos mais emocionantes é o de se reconhecer com o próprio nome. Por muito tempo, a sua identidade se resumiu à “mamãe”, “minha esposa”, “ei, moça” e a personagem descreve o quão construtivo é poder encarar o seu reencontro com ela mesma, profissional e em um ambiente que ela sentia falta de estar.

Por mais que ela não se arrependa de ter dado a pausa na carreira para cuidar da filha, Dan-i descreve uma realidade dura, tanto para o oriente quanto para o ocidente: a maneira como as empresas são cruéis com mães. Enquanto são apresentadas mulheres que tiveram que optar em não constituir família para dar continuidade a carreira, Dan-i construiu seu lar e para retornar ao mercado de trabalho enfrentou muitos julgamentos.

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personagens divorciadas na ficção
Dan-i trabalhando | Crédito: Netflix

Assim como a vemos retornar aos poucos àquela figura profissional, também a vemos saindo, paquerando, ousando e se apaixonando novamente. Mesmo com medo dos julgamentos – 37 anos, divorciada, com uma filha pré-adolescente -, Dan-i acredita estar recebendo uma segunda chance de viver e experimentar a sensação de liberdade.

Em dados

Em uma pesquisa feita pela revista Crescer, 94% das participantes admitiu ter dificuldades em conciliar a dupla jornada de profissional e dona de casa/mãe; assim como Dan-i, 64% tiveram a carreira prejudicada pela maternidade – e isso não quer dizer que elas não amem seus filhos e filhas, mas o se tornar mãe, principalmente quando não há rede de apoio e sem o auxílio ideal de esposo/pai, se constitui em algo bastante doloroso.

21% das mulheres entrevistadas pela Catho encontraram dificuldades em conseguir um emprego após a maternidade – levando até três anos para conseguir algum, batalha enfrentada da mesma maneira por Dan-i. Esses dados falam sobre a maternidade, mas levando em consideração a condição da nossa publicitária trabalhada acima como exemplo, todo esse cenário se agravou pela irresponsabilidade de seu ex-esposo que, pelo ego fragilizado, não foi capaz de dividir com a até então esposa a necessidade de dividir as despesas.

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É preciso colocar personagens divorciadas e separadas em uma posição de evidência, já que muitas mulheres da vida real ocupam esses espaços. Mas também importa contar suas histórias não circundando o término, a traição ou o buraco que (teoricamente) ficou em suas vidas após a separação.

Faz-se necessário, assim, apresentar processos reais de superação, desde o retorno ao ambiente de trabalho, com conversas sobre suas inseguranças, assim como o combate aos preconceitos. Dialogar que as mulheres, solteiras, casadas, virgens, enamoradas, apaixonadas (ou não) são e podem ser independentes, fortes e donas de seus destinos, além de merecerem o crescimento tanto fora quanto dentro da ficção.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Ket tem 23 anos, é formada em Letras - Língua e Literatura Portuguesa, pela UFAM. Nasceu e criou-se em Manaus, onde ainda mora. Não é capaz de conceber uma realidade em que as mulheres não sejam livres, uma vez que sua vida inteira viveu em um lar matriarcal. Gosta de histórias tristes, é fascinada pela cultura Sul-coreana e chora com animes.
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