X-Men: revisitando a primeira trilogia dos mutantes no cinema

X-Men: revisitando a primeira trilogia dos mutantes no cinema

A primeira trilogia cinematográfica dos X-Men ajudou (para o bem ou para o mal) a iniciar a longa trajetória das adaptações de quadrinhos de super-heróis para o cinema, nos últimos 20 anos. Lançados ao longo da década de 2000, os 3 filmes trouxeram discussões muito interessantes. Ao contrário de vários super-heróis em outras histórias, os mutantes são discriminados e temidos pelos humanos “normais”, e precisam toda hora se defender de perseguições promovidas por governos e militares, criando paralelos com as várias comunidades discriminadas na vida real.

AVISO: o texto a seguir contém spoilers dos filmes X-Men, X2 e X-Men: O Confronto Final
X-Men. Imagem: reprodução

A política é muito bem retratada nos filmes dos X-Men

O primeiro filme dos X-Men, após um prólogo mostrando como Magneto e Vampira descobriram seus poderes de formas trágicas na adolescência, começa com uma cena numa audiência no senado, onde a Dra. Jean Grey argumenta contra uma proposta de lei que visa identificar e registrar os mutantes. O senador Robert Kelly é um dos maiores defensores dessa lei, e quer saber se os mutantes são perigosos. Jean responde que essa “é uma pergunta injusta, afinal a pessoa errada por trás do volante de um carro pode ser perigosa“. Ele insiste “nós registramos as pessoas para dirigir” e Jean rebate “mas não para viver“.

Senador Kelly no primeiro filme dos X-Men
Senador Kelly no primeiro filme dos X-Men | Imagem: reprodução

O grande problema dos x-men é que alguns mutantes realmente usam seus poderes para o mal, e isso é a justificativa perfeita para os humanos que já tem um posicionamento contrário a eles. O senador argumenta: “o que impedirá uma menina com poder de atravessar paredes de invadir um banco, ou a Casa Branca?“. De fato, mais à frente, Magneto realiza um ataque contra o senador, tentando transformá-lo em mutante artificialmente, dando mais razões para que o senador confirme suas crenças.

Todavia, o arco do Senador Kelly é um dos melhores no filme. Após sofrer o ataque de Magneto, ele procura a ajuda de Jean Grey, justamente quem antes temia, por recear ser mal tratado como mutante se procurasse um hospital tradicional. E ela e o professor Xavier o acolhem.

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O grande desafio dos x-men é provar que, assim como pessoas comuns cometem crimes, mutantes também podem fazer coisas nocivas, mas a comunidade inteira não merece ser discriminada por conta dessas ações individuais.

O primeiro filme mostra muito bem a importância da política na vida das pessoas, sobretudo as que vivem à margem da sociedade. Uma simples lei pode mudar da noite pro dia a vida de todos ali. Mística, quando sequestra o senador Kelly dentro de seu helicóptero, diz a ele “pessoas como você são o motivo pelo qual eu tinha medo de ir pra escola quando era criança“.

A tática suja dos militares

Uma das técnicas mais antigas para justificar o ataque a um inimigo, é forjar um atentado como se tivesse sido cometido por ele. E é exatamente o que o coronel William Stryker faz no segundo filme, X2: X-Men United. Manipulando o mutante Noturno para tentar assassinar o presidente dos EUA, Stryker consegue aprovação para uma missão de captura de vários mutantes, sob a justificativa de medida de proteção.

O vilão William Stryker em "X2: X-Men United"
O vilão William Stryker | Imagem: reprodução

Logo em seguida há uma sequência bastante assustadora na escola de Xavier, onde os militares comandados por Stryker sequestram crianças mutantes para seu novo experimento. A interpretação excelente de Brian Cox no papel também confere um ar sinistro ao novo vilão, que eleva bastante a qualidade o filme, o tornando um pouco mais sombrio que o primeiro.

Como Stryker também está ligado ao passado misterioso de Wolverine, o filme tenta incluir esse enredo na história, mas infelizmente acaba não o desenvolvendo tanto quanto poderia. Mas pelo menos o roteiro insere alguns ótimos diálogos que mostram como Stryker consegue aliciar apoiadores para seus planos: falando manso, puxando o saco, enaltecendo quando necessário. Magneto aparece fazendo o mesmo com Pyro, o elogiando em um momento dentro do jato dos x-men. Esse elemento sutil mostra de forma muito eficaz o que faz desses vilões figuras poderosas e perigosas.

Mutantes unidos, mas com visões distintas

Professor Xavier e Magneto na primeira trilogia dos X-Men
Prof. Xavier e Magneto | Imagem: reprodução

X2: X-Men United mostra o time de Xavier e Magneto se unindo contra um inimigo comum, e é então que podemos ver mais claramente seus valores diferentes em relação aos conflitos com os humanos. Enquanto Xavier busca apenas parar os planos de Stryker, Magneto quer se aproveitar da máquina construída, e a redireciona para tentar eliminar todos os humanos do planeta. Magneto também não se importa com ninguém além de si próprio e seus ajudantes imediatos, não hesitando em sacrificar outros mutantes no caminho, se for preciso.

A força bruta nem sempre resolve tudo

Mística. Imagem: reprodução

Uma das melhores cenas de X2: X-Men United é quando Magneto insiste que Mística invada a base secreta de Stryker, ao invés de Wolverine, pois ela sabe operar a sala de controle, e ele não. Magneto até brinca “o que você iria fazer, Wolverine? Arranhar tudo com suas garras?“. Como a maioria dos filmes de ação e de super-heróis mostra sempre os mocinhos resolvendo tudo na base da porrada, é um alento ver uma cena em que estratégia e habilidade são priorizadas, ainda mais em se tratando de uma personagem mulher. A cena da invasão é uma das melhores cenas de Mística na primeira trilogia dos X-Men.

O terceiro filme dos X-Men não é tão ruim quanto você pensa

Apesar do X-Men: O Confronto Final ter desagradado bastante os fãs com um terceiro ato ruim e mortes desnecessárias de personagens importantes, ele tem provavelmente a melhor premissa de todos os filmes da trilogia.

O Fera em "X-Men: O Confronto Final"
O Fera. Imagem: reprodução

A invenção da cura para os poderes mutantes é uma das melhores narrativas em termos de potencial para criar conflitos de diversas naturezas. Além de ser algo que afeta toda a comunidade mutante, vários personagens têm visões diferentes sobre como lidar com o assunto. Magneto considera a ideia ofensiva, e sabe que em breve a cura será usada de forma compulsória contra os mutantes (e ele estava certo). Professor Xavier, por outro lado, considera uma questão de escolha individual. O Fera se opõe à ideia e recusa endossá-la publicamente, mas não condena as pessoas que a procuram. E Vampira vê na cura uma forma de acabar com o sofrimento que sua mutação a causa, impedindo-a de tocar nas pessoas.

É interessante notar que, no terceiro filme, o presidente dos EUA da vez é favorável aos mutantes, e até cria um ministério próprio para eles, colocando o Fera como ministro. Mas mesmo assim, nos bastidores, os altos funcionários do governo continuam temerosos quanto ao assunto, apesar da face pública favorável, e planejam vários ataques na surdina. É muito bom o filme inserir esse nível de nuance, para mostrar como as questões são mais profundas do que a parte pública e visível da política.

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O terceiro filme dos X-Men também traz uma cena bastante impactante em seu início, quando o Anjo criança tenta cortar as próprias asas para esconder sua condição mutante do pai. Essa cena evoca situações bastante similares de pessoas que estão em comunidades discriminadas, tentando mudar o que são para serem aceitas e não perseguidas. É uma cena de cortar o coração, e traduz de forma muito direta a essência do discurso principal dos quadrinhos.

O Anjo criança em X-Men
O Anjo criança. Imagem: reprodução

A ética do Professor Xavier é contestada

Numa das aulas, Xavier aparece falando sobre a questão ética de usar os poderes mutantes para conseguir vantagens em situações da vida. Um pouco depois, ele entra em contradição quando recebe Jean Grey resgatada do lago Alkali, com sua dupla personalidade supostamente fora de controle.

Nessa cena, ele explica a Wolverine que Jean Grey foi a mutante mais poderosa que ele já havia encontrado, e que criou bloqueios na mente dela para que seu poder ficasse adormecido e não fosse usado de forma perigosa contra os outros. Wolverine, então, o questiona sobre a ética de usar tal intervenção sem o consentimento de Jean. O professor se irrita, e diz que não deve satisfações a ninguém, muito menos a ele.

Essa cena é muito interessante para botar em xeque um personagem antes tido como a epítome da sabedoria dentro da narrativa. Tal questionamento humaniza o Professor Xavier e cria um retrato mais nuançado e realista.

Magneto estava mais certo do que nunca

O terceiro filme dos X-Men também mostra Magneto em seu ápice, sempre excelentemente interpretado por Ian McKellen, que é capaz de transformar até diálogos pueris em uma obra-prima. Aqui ele mostra que estava certo sobre a intenção do governo em usar a cura contra os mutantes de forma compulsória, as colocando em seringas dentro de revólveres.

Magneto e seu exército.
Magneto e seu exército. Imagem: reprodução

Ele logo busca formar um “exército” de mutantes para tentar acabar com a fonte da cura: um garoto que consegue anular os poderes dos outros. É então que, na batalha final, os x-men são colocados em uma situação muito estranha. Eles combatem e matam os mutantes de Magneto para proteger os soldados humanos que de fato estavam usando a cura de forma ilegal e compulsória.

Magneto diz, com razão, que os x-men são traidores da própria causa, e é impossível não concordar com o personagem nesta cena. Imaginem se um grupo de mulheres/negros/lgbtqia+ chegasse para combater manifestantes de seu mesmo grupo, em defesa do grupo opressor?

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Os X-Men lutam contra outros mutantes para defender soldados. Imagem: reprodução

Essa cena é de uma moral bastante torta. A posição conciliadora do Professor Xavier é compreensível em diversos aspectos, mas tudo tem limite. A mensagem que cenas como essa passam é a de que opressores são vítimas e manifestantes são terroristas. Aquela visão de que o bom marginalizado é o que concilia e nunca se revolta com violência e, no fim das contas, defende os interesses do opressor.

Nem tudo são qualidades, é claro

Obviamente, os filmes também possuem vários defeitos. O maior deles é não conseguir desenvolver muito bem os personagens. Nos quadrinhos dos X-Men é possível desenrolar com calma várias histórias ao longo das edições, mas os filmes possuem duração bem menor, e, com muitos personagens na narrativa, dividir a atenção entre todos faz com que o roteiro tenha que ser bem econômico em relação ao que revela deles.

Wolverine e Vampira.
Wolverine e Vampira. Imagem: reprodução

Mesmo Wolverine, que nos três filmes possui um pouco mais de protagonismo que os outros, tem o desenrolar de sua história de forma bastante apressada e resumida. Seu romance com Jean Grey sofre de credibilidade, sem desenvolvimento algum. Já o segundo filme dá a Wolverine o objetivo de descobrir informações sobre seu passado, mas, quando chega a chance de obter tais informações do vilão, o personagem abdica delas. O público, portanto, fica sem saber mais sobre o passado de Wolverine, e tal decisão do personagem também traz pouca mudança para sua vida a partir de então, desperdiçando uma das subtramas mais importantes do filme.

Stryker e Wolverine
Stryker e Wolverine. Imagem: reprodução

Vampira é uma personagem que expressa vários dos conflitos-chave da trilogia, principalmente no primeiro e no terceiro filme. Mas, infelizmente, isso é revelado por meio de muitas montagens elípticas. Por exemplo, no início do primeiro filme, vemos Vampira descobrir seu poder de sugar a energia de vida das pessoas, e na próxima cena já está fugindo para o Canadá, sem que possamos ver todo o tumulto emocional pelo qual ela passou até tomar essa decisão drástica. No terceiro filme, Vampira também simboliza uma das visões mais importantes sobre o uso da cura, mas a personagem permanece fora de cena pela maior parte do filme.

Vampira em X-Men
Vampira. Imagem: reprodução
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Da mesma forma, outros personagens importantes, como Scott Summers, são bastante negligenciados pelos roteiros. Até mesmo o Professor Xavier passa os três filmes incapacitado de alguma forma (em coma no primeiro, preso no segundo, e morto no terceiro).

Em filmes com um grande número de personagens, é mesmo difícil conseguir inserir todas as histórias de forma satisfatória dentro do roteiro. Em geral, os longas possuem momentos que tentam resumir a personalidade de cada um (como as respostas desaforadas de Wolverine) sem ter que criar de fato cenas mais completas que justifiquem ou expliquem boa parte do desenvolvimento do personagem.

No terceiro filme dos X-Men, em especial, seria muito melhor se mantivessem o enredo da cura, e tirassem a trama paralela envolvendo a Fênix Negra, que foi muito mal aproveitada, relegando a personagem a ficar parada atrás de Magneto e agir somente nos minutos finais, de forma totalmente insatisfatória.

Fênix Negra na batalha final do último filme da trilogia de X-Men.
Fênix Negra age somente nos últimos minutos da batalha final. Imagem: reprodução

Vilões coadjuvantes bobos enfraquecem os filmes

Embora o humor nos filmes seja usado de forma muito balanceada, com tiradas sarcásticas em determinados diálogos (em especial no segundo filme, na visita à casa do Bobby Drake), uma das fraquezas do primeiro e terceiro filme são os vilões coadjuvantes caracterizados de forma boba e debilóide. Toad e Sabretooth são tão paspalhos que tiram um pouco da seriedade do plano de Magneto. No terceiro filme há piadas similarmente bobas com outros personagens ajudantes do mesmo.

Juggernaut foi representado como um vilão coadjuvante bobo. Imagem: reprodução

Em X2: X-Men United, quando Magneto está acompanhado apenas de Mística, o filme se poupa desse elemento enfraquecedor, e mantem um ar mais sóbrio, com apenas as piadas que realmente funcionam.

A representação feminina também não é ótima

Como melhor explicado em outro texto do Delirium Nerd, a representação das mulheres nos filmes dos X-Men não é lá muito boa. Cansa ver Jean Grey ouvindo repetidamente que não consegue se controlar o suficiente para operar o Cérebro (máquina poderosa criada pelo Prof. Xavier), ou que o poder de Vampira é perigoso demais. Os X-Men pelo menos trazem mais mulheres do que os outros filmes de super-heróis, mas sua representação fica devendo bastante em termos de qualidade e igualdade.

Vampira. Imagem: reprodução

Há também o terrível fato dos diretores dos três filmes, Bryan Singer e Brett Ratner, serem notórios abusadores, acusados múltiplas vezes de abuso sexual, e também de comportamentos anti profissionais nos sets de filmagem. Esse é um problema constante não só em Hollywood, mas em todos os lugares. Enquanto não resolvermos o machismo e diversos outros problemas da sociedade, esses casos continuarão acontecendo.

É uma pena que, com os filmes seguintes, esses problemas de representação tenham ficado até mesmo piores, antes de ter uma ligeira melhora com Fênix Negra, mas ainda muito singela.

Jean Grey. Imagem: reprodução
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No geral, a primeira trilogia dos X-Men acerta com ótimos comentários políticos, diálogos bem escritos, além do esforço para incluir vários personagens na trama, reproduzindo diversos elementos dos quadrinhos nas narrativas. Também traz algumas cenas de ação memoráveis e bem executadas, embora alguns efeitos especiais do primeiro filme já tenham ficado um pouco datados. O elenco também é bastante bom, com destaque para os excelentes Patrick Stewart e Ian McKellen nos papéis de Xavier e Magneto. Em termos de filmes de super-heróis, a primeira trilogia certamente é uma das melhores adaptações feitas para o cinema.

Autora:

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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