Dance of Thieves: é possível quebrar estereótipos na fantasia?

Dance of Thieves: é possível quebrar estereótipos na fantasia?

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O livro “Dance of Thieves“, escrito pela norte-americana Mary E. Pearson e publicado no Brasil pela editora Darkside Books, dá continuidade, então, ao universo iniciado em As Crônicas de Amor e Ódio (“The Kiss of Deception, “The Heart of Betrayal” e “The Beauty of Darkness“). Primeiro de uma série intitulada Dinastia de Ladrões, aborda a política envolvendo um território menor do continente fictício de Pearson, que deseja ser reconhecido como um reino. E explora, assim, a relação da Rahtan Kasimyrah e do Patrei Jase.

Ambientado seis anos após os fatos de “The Beauty of Darkness”, o livro possui relação direta com a série predecessora. No entanto, não há a necessidade de que se tenha lido os livros anteriores. Apesar das referências, é possível compreender a jornada de Kasi e Jase, ainda que seja mais recomendada a leitura prévia. Isto porque parte da trama em torno da qual se dá a jornada dos protagonistas corre em torne de ameaças políticas anteriores.

Dace of Thieves
Imagem: Darkside Books/divulgação

Ameaça do retorno: a conexão entre “Dance of Thieves” e “As Crônicas de Amor e Ódio”

Após a sangrenta e devastadora guerra entre os reinos de Morrighan, Dalbrecht e Venda, uma nova ameaça ressurge. Antigos inimigos fugidos ao fim do conflito retornam para assombrar a rainha Lia. E apenas uma pessoa poderá cumprir a missão de roubar algo para Venda: somente a reconhecida ladra, Kasimyrah – ou Dez – poderá trazer o que foi pedido e, desse modo, evitar ainda mais mortes.

A história de “Dance of Thieves”, então, começa com um grupo de Rahtan em uma missão à Torre da Vigília de Tor. Kasi, Wren, Synové, Natiya e Eben formam, assim, o valente grupo de guardas da rainha. Segundo os indícios, a família Ballenger, governante do local, estaria abrigando o objeto de busca do grupo. Eles se dirigem, dessa forma, ao território estrangeiro. Contudo, acontecimentos imprevistos acabam por separá-los no decorrer da jornada.

A líder da missão, Kasi, acaba desaparecida após a interceptação de caçadores de mão de obra – traficantes de pessoas. E precisa se unir ao recém nomeado Patrei, Jase, para conseguir fugir de seus captores. Durante a sua fuga, os dois desenvolvem sentimentos ambíguos, viciados pela certeza de que podem não ter um amanhã. Afinal, de um lado, uma ladra a serviço da rainha. Do outro, um líder não reconhecido que pode estar envolvido em conspirações contra ela.

Dance of Thieves
Imagem: Darkside Books/divulgação

Entre o amor e o dever

Quando os protagonistas finalmente retornam, a necessidade de sobrevivência dá lugar à busca, enfim, de seus interesses individuais. No entanto, o sentimento permanece como um conforto e como uma ameaça. Ao mesmo tempo em que ambos se ajudam na superação dos fantasmas do passado, estão envolvidos em partes opostas de uma disputa.

Ela precisa levar a Venda algo que ele protege, e embora ela saiba o que ele sente por ela, entende que a prioridade dele é a proteção de sua família, e para isso ele será capaz de ir contra a sua rainha, inclusive apoiando seus inimigos. Consequentemente, Kasi se coloca numa posição perigosa. Ao mesmo tempo em que precisa do auxílio do Patrei, precisa aproveitar a proximidade com ele para explorar a região para, dessa forma, cumprir com a sua missão.

Ele precisa proteger sua família e seu território, mas embora ame Kasi, sabe que ela está a serviço de uma rainha que não reconhece o seu poder e, por razões exploradas ao longo da história, precisa negociar com os inimigos da aliança da rainha. No entanto, desconhece o fato de que esses inimigos também possam estar conspirando contra ele, o que justificaria as irregularidades nas relações com os vendanos e os constantes ataques.

Assim, apesar do meio-termo em que ele e Kasi encontram em discussões sobre as relações entre os Ballenger e os vendanos, eles sabem que chegará o dia em que seus objetivos os separarão.

Dance of Thieves
Dance of Thieves e a autora Mary E. Pearson (divulgação/Darkside Books)

Ação em fantasia em “Dance of Thieves”

“Dance of Thieves” consegue algo que “The Kiss of Deception” falhou parcialmente: ritmo. O primeiro livro de Pearson trazia uma história promissora, mas não parecia conseguir unir as partes de romance às partes de ação. Desse modo, apresentava uma primeira parte muito mais lenta, voltada ao desenvolvimento das personagens, e uma segunda parte com toda a ação da trama, mas sem tanto romance envolvido. De certo modo, isto lhe conferira aspectos muito dissonantes durante a narrativa. No entanto, também tornava cada uma das partes mais marcante.

O livro “Dance of Thieves” intercala melhor, consegue já introduzir ação nos primeiros capítulos e possui mais movimento ao longo de toda a história, também inserindo nesses momentos o desenvolvimento da relação entre Kasi e Jase. Contudo, isto sublima a ação e a fantasia do livro. O romance se sobressai, o que pode não atrair tanto aqueles que gostam do elemento fantasia. Este, por sua vez, aparece como uma introdução para livros posteriores, pouco explorado ainda, mas com elementos apresentados.

Relacionamentos amorosos mais maduros

É interessante observar como Pearson amadurece o romance em sua segunda série. Já não brinca com triângulos amorosos como com o trio Lia, Rafe e Kade. Até o momento, não existe nenhum empecilho ao romance de Kasi e Jase senão suas próprias vidas e seus deveres opostos.

Ainda não recorre mais à brincadeira de “quem é quem” utilizada em sua história inicial. Se em “The Kiss of Deception” Lia não sabia quem era Kade e quem era Jase, em “Dance of Thieves” Kasi sabe exatamente quem é Jase. O jogo, então, torna-se sobre quem sabe o que do outro. Como numa brincadeira de gato e rato, um sempre está à frente do outro. No entanto, continua a se utilizar de falhas comunicativas para justificar o clímax do relacionamento – recurso comum nos romances de modo geral.

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Em comparação, Kasi revela-se mais madura que a protagonista anterior, Lia, e isto se justifica pela vivência da personagem. Enquanto Lia era uma princesa fugida, Kasi fugiu durante toda a sua vida. Órfã, buscava nas ruas de Venda a sobrevivência e se torna, dessa maneira, uma ladra referenciada. Afinal, diante da crueldade do regime do Komizar que antecedeu o reinado de Lia, ter 10 dedos na mão era motivo de glória. Kais, portanto, não teve os confortos ou oportunidades de ingenuidade de Lia. Isto, consequentemente, afeta a descrição do romance desenvolvido.

Kasi e Jase estão envolvidos em jogos de poder, mas não se apegam tanto a recursos comuns de negação dos sentimentos. O apelo ao “fingimento” é curto e logo é descartado na história. Assim, esta segue com foco na admissão do que cada um dos personagens sente pelo outro, mas com a pergunta sobre como conciliarão os interesses distintos com essa relação.

Quebra de estereótipos de gênero

Pearson consegue trazer personagens distintas em sua narrativa. Kasi é uma personagem diferente de Lia, de Synové, de Wren, de Natiya e das irmãs de Jase, Pryia e Jalene. Synové é uma mulher desinibida, sensual e alegre, mas também perigosa e competente quando se trata do trabalho. Wren, por sua vez, é mais centrada, mas, ao mesmo tempo, sensível. Jalene parece a adolescente apaixonada em um primeiro momento, mas revela-se entregue à sua função dentro da organização da família no governo. E todas podem ser aliadas sem a imposta rivalidade feminina.

Em “Dance of Thieves”, Pearson não discute as diferenciações sociais entre homens e mulheres; coloca-as em papéis tipicamente masculinos, como a guarda da rainha; coloca-as como ladras; coloca-as como aquelas que investem nos homens. No entanto, ainda traz questões como vestimentas femininas ou mesmo insinuações de decisão sobre casamentos políticos.

Disso decorre um questionamento: é possível romper com alguns estereótipos de gênero, mas sem entrar na discussão do papel feminino? Ao mesmo tempo em que quem tratar essa quebra como algo natural transmite a ideia de que é possível atingir um patamar em que os estereótipos de gênero não existem, Pearson dá alguns indícios de que eles existem, ainda, em sua história. E ao dar esses indícios, sem discuti-los, coloca em cheque a sua desconstrução de gênero. Ou, pelo menos, torna-a parcial, ao ignorar outras espécies de padronização.

Dance of Thieves
Imagem: Darkside Books/divulgação

Ausência de diversidade na fantasia de Mary E. Pearson

Do mesmo modo, Pearson continua a ignorar a diversidade em sua narrativa. A relação entre o empoderamento feminino da autora e a falácia histórica já foi abordada em análise de “The Kiss of Deception” e volta a se repetir em “Dance of Thieves”. Pearson coloca mulheres em tantas posições diferentes que não pode utilizar senão a sua própria autoria como justificativa para o não rompimento com outros padrões. Trata-se de uma escolha de escrita – ou, não sendo proposital, não houve preocupação em inserir diversidade.

Uma vez que expande a história territorialmente, seria de esperar diferenças étnicas. Outras fantasias semelhantes, como “Neve e Cinzas ou “Uma Chama Entre as Cinzas“, o fazem. E por que não no universo de “As Crônicas de Amor e Ódio” e “Dinastia de Ladrões”? Pearson poderia, assim, suprir a lacuna que existe em seus primeiros livros. No entanto, todos os personagens, quando descritos mais detalhadamente, permanecem brancos e dentro de um padrão heteronormativo. Claro, Pearson não nega que haja diversidade em seu universo, mas não se preocupa em inseri-la descritivamente.

“Dance of Thieves e a Dinastia de Ladrões”

Enfim, “Dance of Thieves” funciona bem como um romance de fantasia. Contudo, peca em alguns pontos. Além das questões de diversidade, poderia desenvolver mais as tramas políticas, mesmo para um livro introdutório, e explorar melhor outros personagens além de Kasi e Jase. Apesar disso, dá indícios, ao final, do que há por vir. E promete, assim como “The Kiss of Deception”, ser sucedido por livros ainda melhores. A continuação, intitulada “Vow of Thieves”, está prevista para agosto de 2019.

Por fim, é um bom livro para quem gosta do gênero. Envolve com uma história movimentada, apresenta personagens femininas diferenciadas e cativa com seus protagonistas.


Dance of ThievesDance of Thieves (Dinastia de Ladrões 01)

Mary E. Pearson

512 páginas

DarkSide Books

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Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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Autora

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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