Feiticeira Escarlate: ela é mais do que eles dizem

Feiticeira Escarlate: ela é mais do que eles dizem

Você quebra as regras e vira o herói, eu quebro as regras e viro a inimiga. Isso não parece justo“-  Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) definitivamente não é a mesma personagem do primevo Era de Ultron, de 2015. Assim como o Universo Cinematográfico da Marvel  não é o mesmo. As ameaças agora não são apenas contra a boa e velha Terra, mas contra outros mundos, outros universos. E como o poder dos inimigos é maior, aumenta-se também o panteão dos heróis e a diversidade de seus poderes e habilidades. Wanda, deixa de ser apenas Wanda Maximoff e passa a ser em sua série própria, a lendária Feiticeira Escarlate.

Ao elevar de nível a epicidade dos filmes e o poder de seus personagens, a Marvel toma decisões arriscadas nas mídias audiovisuais. É preciso, afinal, dar tanto conteúdo às histórias dos personagens quanto às ações que eles provocam. Com mais de duas horas de filme, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura mal se basta para contar a história que pretende. A Feiticeira Escarlate permanece com muito a ser explorado, uma vez que sua personalidade conflituosa nunca consegue tempo suficiente de tela para que ela se estabeleça enquanto personagem. Esse desenvolvimento ineficiente de Wanda parece se estender para as demais figuras femininas da Marvel.

Mas o que ainda resta para falar sobre Wanda Maximoff?

Há sete anos Olsen a interpreta e ainda assim, a falta de desenvolvimento é gritante. Que entraves a personagem ainda possui para que atinja um ápice? O novo filme da Marvel – dirigido por ninguém mais ninguém menos que Sam Raimi – é um espetáculo da arte de dirigir, mas ainda não consegue trazer algo simples: criar uma narrativa que nos toque e personagens que se prendam a nós.

AVISO: O TEXTO CONTÉM SPOILERS DE “DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA” E “WANDAVISION”

Wanda Maximoff
Elizabeth Olsen como Feiticeira Escarlate em “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura” | Imagem/Reprodução: Disney

Um histórico de representatividade falha

Primeiramente, é preciso destacar que o atual desenvolvimento de Wanda se atrela ao aumento da representatividade de minorias nessa nova fase da Marvel. Tudo está conectado nesse universo (da loucura) compartilhado da Marvel. E claro, a maneira de contar as histórias também se assemelha: a famigerada “fórmula da Marvel”. Além da sucessão de eventos seguir um padrão, há esse padrão na representação das personagens.

As séries do streaming do Disney+ – que servem como um certo complemento das narrativas das telonas – trouxeram espaço para personagens secundários aos principais do Universo Cinematográfico da Marvel. E boa parte deles, é claro, são personagens de grupos minoritários. Dentre os quais Ms. Marvel (uma garota muçulmana, que será interpretada por Iman Vellani), Cavaleiro da Lua (um personagem judeu. Interpretado na série por Oscar Isaac, ator de origem latina), Sam, o novo Capitão América (interpretado por Anthony Mackie, personagem negro) e Wanda, uma mulher que deveria ser também romani e judia.

Wanda Maximoff nos quadrinhos
Feiticeira Escarlate | Imagem/Reprodução: Marvel Comics
Leia também >> Capitã Marvel: Ser uma boa feminista não é o bastante

Mas, no último caso, grande parte do potencial de representatividade foi perdido. Olsen é branca, carrega um sotaque russo e ainda faz piadas de cunho racista sobre sua personagem nos quadrinhos. Personagens de outras etnias sendo representados por atores brancos ocorreu diversas vezes na Marvel – vide a Maga Suprema (Tilda Swinton) em Doutor Estranho, cuja própria personagem é, além de tudo, estereotipada.

Essa ânsia por dar destaque a personagens que no geral ficam às sombras de outros como Capitão América (Chris Evans), Capitã Marvel (Brie Larson), Homem-Aranha (Tom Holland) e Thor (Chris Hemsworth), claramente vem de um interesse capitalista. De acordo com uma matéria do Washington Post, muitos membros da comunidade LGBTQIA+ têm se identificado com Wanda¹. Sua narrativa como pessoa violentada em diversos níveis e maneiras dialoga muito com o de outras pessoas que por algum motivo ou outro também passam por isso. Infelizmente, não há muitos personagens com quem se identificar, seja qual for o grupo em que você se insere.

Afinal, do que se trata “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”?

Em outra entrevista para o Washington Post, Benedict Cumberbatch disse que o filme, embora contenha o nome de seu personagem, não é apenas sobre ele². Em Multiverso Da Loucura (continuação do primeiro filme do Mago, lançado em 2016) amplia-se o Multiverso, que iniciou a se apresentar efetivamente na série Loki. Além disso, há a primeira aparição de América Chavez (Xochitl Gomez) nos cinemas.

O filme conta ainda com o retorno de artistas queridos do universo dos quadrinhos (como o próprio diretor e o notável Patrick Stewart) e com a agradável surpresa da aparição de outros que entraram agora nesse mundo. Todos esses pontos são os mais positivos do filme, que puderam manter intrigados os fãs e satisfeitos os críticos. Ora, as atuações e a direção são admiráveis.

Em contrapartida, Wanda se faz presente como Feiticeira Escarlate na tentativa de trazer seus filhos de volta sequestrando suas outras versões de outro universo. É claro que, para ela, essa motivação era suficiente para enfrentar quem quer que fosse, inclusive um conhecido que lutou ao seu lado na Guerra Infinita. E mais: ela estava disposta a sacrificar América Chavez se isso a permitisse controlar o multiverso e assim ter meios de proteger seus filhos de qualquer perigo.

Leia também >> Eternos: um ode à humanidade
America Chavez em 'Doutor Estranho no Multiverso da Loucura'
Xochitl Gomez como America Chavez em “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura” | Imagem/Reprodução: Disney

O amor de Wanda pelos filhos é usado como arma nas mãos da Feiticeira Escarlate. É difícil, nesse momento, reconhecer qualquer traço da Wanda gentil e disposta a melhorar que vemos no período entre Guerra Civil e Wandavision. Wanda não é uma heroína, mas decerto não é uma vilã. Ao final do longa vemos uma versão da personagem que não perdeu os filhos, e ela diz para a Wanda que conhecemos: “eles serão muito amados”. Mais do que a outra vida que Wanda poderia ter tido se as coisas fossem diferentes, nos perguntamos: Quem Wanda poderia ter sido?

Multiverso

O multiverso é um tema muito recorrente nos quadrinhos. Não à toa existe um nome para as Terras para que o leitor (ou espectador, no contexto do audiovisual) se localize nessa vastidão de possibilidades. Além disso, a realidade é virada de cabeça para baixo inúmeras vezes em incontáveis arcos. Wanda está presente em várias delas, como no clássico Dinastia M³.

Era de muito aguardo a exploração de outras realidades, não apenas para a adaptação de narrativas muito prezadas pelos fãs das HQs, mas pela esperança de ver personagens que antes não eram de domínio da Disney e por isso não podiam participar desse universo compartilhado. Entretanto, cada vez mais os filmes do MCU têm sofrido críticas negativas. Um dos pontos que mais incomodam parece ser o CGI. Não apenas seu uso demasiado, mas um CGI de baixíssima qualidade, sendo perceptível até para o mais desatento do público.

Os roteiros, antes sempre tão agradáveis – ainda que repetitivos – começam a se amargar. O multiverso decai à medida que as séries da tv e os filmes no cinema não se complementam, mas se contrariam; e nem mesmo as participações especiais dão conta de manter o ânimo dos fãs.Vemos, assim, um problema muito grave no MCU: as histórias individuais tornam-se de qualidade mais baixa e também o elo entre uma e outra. Os atores parecem estar lá apenas para atuar em uma cena que os fãs aguardavam, mas o fluxo narrativo continua a se perder pouco a pouco.

Wanda Maximoff: ela é mais do que eles dizem 

Por fim, há um retrocesso contínuo na história de Wanda nos cinemas (e na TV, com Wandavision): quando a personagem ganha mais destaque é para mostrar seu romance com Visão; quando ela ganha a série própria é para tornar-se novamente a vilã.

E o ponto mais decepcionante nessa trajetória é a maneira como sua feminilidade enquanto mãe e esposa é usada contra sua identidade, fazendo com que seu potencial só se alcance no sofrimento. Inúmeras etapas do desenvolvimento dela – pessoa e heroína – não estão presentes nas obras para o público.

O poder da Feiticeira Escarlate é apresentado – generalizando o que temos desse nome na série e no novo longa do Doutor Estranho – como capaz de eliminar a parte mais humana de Wanda e usar essa bagagem sentimental de luto e amor contra ela própria. Mas tudo fica nas entrelinhas e só é como é pela construção pífia de uma personagem tão querida nos quadrinhos.

Leia também >> As principais personagens femininas da Marvel
Elizabeth Olsen como Feiticeira Escarlate em "Doutor Estranho 2"
Elizabeth Olsen como Feiticeira Escarlate em “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura” | Imagem/Reprodução: Disney

Isso se reflete, evidentemente, em outras jornadas femininas nesse universo. Doutor Estranho é um filme com um protagonista masculino, mas com duas grandes personagens femininas ao seu lado: sua vilã e sua personagem secundária (sua protegida). O equilíbrio entre os problemas pessoais dele e dos outros personagens nunca chega. Não se aprofunda nem mesmo nos conflitos dele, aliás. Capitã Marvel permanece esquecida após seu filme solo; Ms. Marvel não terá (tal qual Wanda) metade dos poderes que possui nos quadrinhos (e na verdade, não terá o mesmo poder como um todo); Viuva Negra (Scarlet Johansson) teve seu final trágico sem mais, nem menos. Embora Wanda tenha mais destaque agora, sua jornada segue a pautar-se em sua dor pela perda dos homens de sua vida.

Com multiverso ou não, fica cada vez mais claro que o que deve ser priorizado nessa fase do MCU e nas fases seguintes é construção dos personagens. Capitão América tem um começo, meio e fim, digno do herói que foi nesse universo. O que desejamos é ver esse tipo de desenvolvimento em personagens que não vemos: mulheres, pessoas não-brancas, LGBTQIA+, judeus, muçulmanos, pessoas das periferias, pessoas não estadunidenses, etc. Wanda merece muito mais, justamente por ser muito mais do que apenas: uma adolescente inconsequente; a namorada de Visão; a mãe de Billy e Tommy (Julian Hilliard e Jett Klyne). E é muito mais do que apenas a Feiticeira Escarlate. Ela é o todo desses elementos, é uma personagem completa e complexa em si.


Para saber mais

Diversos textos do próprio Delirium Nerd serviram de base para as discussões aqui propostas e estão linkados ao longo do texto. Eles são muito recomendados para aqueles que querem complementar a leitura de “Feiticeira Escarlate: Ela é mais do que eles dizem”.

Obras usadas para análise:

  • Doutor Estranho no Multiverso da Loucura
  • Loki
  • Vingadores: Era de Ultron; Guerra Civil; Guerra Infinita e Ultimato
  • WandaVision

Referências Bibliográficas:

Autora:

14 textos

Estudante de Letras na Universidade de São Paulo, apreciadora de boas histórias e exploradora de muitos mundos. Seus sonhos variam entre viajar na TARDIS e a sociedade utópica onde todos amem Fleabag e Twin Peaks.
Todos os textos
Follow Me :