Helter Skelter e a busca doentia pelo padrão estético ideal

Helter Skelter e a busca doentia pelo padrão estético ideal

A busca pela aparência e corpo perfeitos está enraizada na sociedade há milênios. Desde épocas passadas, já havia um tipo de padrão estabelecido do que seria a beleza ideal para cada nação, especialmente tratando-se das mulheres. No Egito Antigo, por exemplo, a atração das pessoas pela feminilidade se dava por uma imagem específica. Esta normalmente apresentava-se como uma figura magra, com cintura fina, quadris largos e seios empinados.

Comparando com a atualidade, vemos que não houve grandes mudanças. Esse padrão acabou se espalhando pelo mundo afora e hoje é visto como referência, estampando diversas capas de revistas e sendo exibido com frequência nos principais desfiles de moda.

Em Helter Skelter, mangá escrito e ilustrado pela mangaká Kyoko Okazaki entre 1995 e 1996, acompanhamos a verdadeira realidade de uma personagem totalmente dependente da própria imagem. De maneira crua, a autora apresenta como é simples adoecer baseando-se na opinião alheia e nas diversas pressões que a indústria impõe através da promessa da “beleza absoluta”.

Helter Skelter é publicado pela editora New Pop no Brasil.
Helter Skelter é publicado pela editora New Pop no Brasil (Foto: Giovanna Csiszar / @sohmagio no Instagram)

Lilico: a personificação dos talentos artificiais

Logo na primeira página, a história apresenta diálogos e propagandas relacionadas a produtos com o objetivo de embelezar e emagrecer. Todas elas mostram figuras femininas realizando a divulgação, e Lilico está entre elas.

Como modelo, atriz e cantora, ela é considerada um grande exemplo para as mulheres da época, principalmente as mais jovens. O cabelo perfeito, os olhos claros e a pele sem imperfeições apenas evidenciam o motivo de tanta admiração.

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Representação de Lilico enquanto produzida.
Representação de Lilico enquanto produzida (Imagem: Reprodução /Arte Oficial)

Ao acompanharmos a narrativa, na maior parte do tempo sob o ponto de vista de Lilico, testemunhamos uma transformação de personalidade que acontece tanto diante das câmeras quanto nos bastidores.

A pessoa que ela se diz ser em entrevistas não coincide completamente com quem ela é quando está sozinha. Toda a segurança que a personagem transmite para os fãs desvanece quando ela passa tempo demais se observando no espelho.

Dúvidas constantes sobre a aparência e as habilidades artísticas fazem com que ela caia num abismo de insegurança, pois Lilico não passa de um produto fabricado, alguém com “data de validade”, como ela mesma menciona após notar que os efeitos das cirurgias plásticas estão se desfazendo.

“As únicas partes originais nela são os ossos, os olhos, as unhas, os cabelos, as orelhas e a vagina. O resto é tudo artificial.”

A decadência física e emocional em troca da fama

Após perceber que o segredo do grande sucesso está prestes a ser descoberto, Lilico passa a se comportar de maneira descontrolada. Abusar de substâncias, ter péssimas noites de sono e criar dependência emocional em torno do que as pessoas dizem baseadas apenas nas aparências, são ações típicas da personagem até o final da história.

Mesmo que expresse aversão a essas atitudes, Lilico continua vagando numa situação caótica de autodestruição. O significado da expressão em inglês “Helter Skelter”, que dá nome ao mangá, vem das palavras desordem e confusão, um retrato claro do que se tornou a mente de Lilico após virar uma mera vítima da indústria capitalista.

Helter Skelter, escrito e ilustrado pela mangaká Kyoko Okazaki.
“Sinto que vou me esvaziando a cada clique da câmera. Sempre tenho que me segurar para não gritar”, internaliza Lilico. (Imagem: Reprodução / Arte Oficial)

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Sob a mesma perspectiva, a protagonista também nutre repulsa à velhice, se aborrecendo apenas com a menção de rugas intensificando-se conforme a idade avança.

A presença da modelo Kozue Yoshikawa na agência onde trabalha destaca um de seus maiores temores, pois além de jovem, Kozue nasceu com tudo que Lilico sempre quis, mas nunca teve de forma natural.

Diante dessa realidade, a inveja torna-se um sentimento constante na rotina da personagem. De maneira profundamente tóxica, Lilico direciona os sentimentos para a assistente Hada, expressando desejos perturbadores, como lançar ácido no rosto de mulheres consideradas “ameaças” para sua carreira.

Embora seja compreensível sentir raiva diante do comportamento vergonhoso de Lilico, a pena gradualmente se instaura, impulsionada pelo culto doentio à imagem doentia que ela alimenta.

A voz da razão de Makoto Asada

Ao mesmo tempo que observamos o drama de Lilico, uma investigação policial está em curso. A clínica onde ela e diversas outras mulheres realizaram procedimentos estéticos está sendo acusada de utilizar métodos clandestinos com as clientes.

Baseada na persuasão e na promessa de uma juventude duradoura, a “doutora” responsável pelo local cobra preços exorbitantes por um tratamento que se revela efêmero.

Makoto Asada, detetive encarregado do caso, é tanto um personagem da trama quanto um narrador onipresente na vida de Lilico. Sendo um grande fã do trabalho dela, Asada observa atentamente cada movimento da personagem, seguindo seus passos enquanto ela se aproxima da inevitável queda.

Apelidando-a de Tiger Lily, ele também tece comentários perspicazes baseados na situação de Lilico conforme a história avança, fazendo com que sua presença se entrelace com a narrativa.

“A juventude é bela. Mas beleza não é juventude. A beleza envolve muito mais coisas. “

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Lilico no mangá "Helter Skelter"
Apesar de não perceber, Lilico mergulha em um estado depressivo profundo ao reparar que os dias de glória chegaram ao fim (Imagem: Reprodução / Arte Oficial)

A parte mais impactante do mangá ocorre quando Lilico atinge o limite. Em uma espécie de alucinação provocada por um remédio, ela volta para o passado e vê o detetive Asada como uma figura mediadora no ambiente hostil que se encontra.

A vulnerabilidade explícita nessa visão revela camadas mais profundas da psique de Lilico, mostrando vislumbres da vida antes de se tornar famosa. As manifestações desses pensamentos proporcionam ao leitor alguns insights sobre as razões que a levaram a abrir mão de tudo em busca de um sonho precoce.

Helter Skelter é uma obra-prima de Kyoko Okazaki!

O final da saga de Lilico é tanto surpreendente quanto previsível. Em um momento onde o fracasso era inevitável, ela habilmente aproveita a oportunidade para se reerguer, utilizando a condição física e mental como base.

O desfecho não apenas consolida a trajetória da personagem, mas também eleva a obra de Kyoko Okazaki a um patamar onde o mangá se destaca como um dos mais influentes na passagem do século XX para o século XXI.

O reconhecimento dessa obra rendeu o Grande Prêmio Cultural Osamu Tezuka em 2004. Além disso, a história foi adaptada para o cinema, sob a direção de Mika Ninagawa, em 2012.

No filme, a fetichização do corpo feminino é retratada de maneira semelhante ao que encontramos nas páginas. As cenas são explícitas, e as atuações capturam a essência de todos os personagens.

A atriz Erika Sawajiri é quem dá vida a Lilico no longa-metragem
A atriz Erika Sawajiri é quem dá vida a Lilico no longa-metragem (Imagem: Reprodução)

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A mensagem deixada pela jornada conturbada de Lilico para o público resume-se a uma reflexão citada durante a história.

Em meio a uma infinidade de cópias de Lilicos, devemos nos preocupar mais com o interior do que com o exterior. Afinal, “por mais bonito que seja um coelho, ele não passa de um pedaço de carne embaixo da pele.”

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Graduanda em Jornalismo com síndrome de Lady Bird. Criadora de conteúdo literário no @sohmagio, têm como filosofia de vida as obras da Ai Yazawa. Nas horas vagas, é fã e apreciadora da profundidade nas músicas do My Chemical Romance e da Taylor Swift.
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