“Nós Somos as Melhores!” é um filme-manifesto punk para todas as garotas

“Nós Somos as Melhores!” é um filme-manifesto punk para todas as garotas

Nós Somos as Melhores!” é um drama musical sueco de 2013 dirigido por Lukas Moodysson. A história é uma adaptação do quadrinho autobiográfico “Aldrig godnatt” (“Nunca Boa Noite”, em tradução literal) criado por sua esposa, Coco Moodysson. A narrativa acompanha três pré-adolescentes em Estocolmo, na década de 1980, quando decidem montar uma banda punk enquanto tentam navegar o início da puberdade e todas as questões que ela traz.

Klara (Mira Grosin) e Bobo (Mira Barkhammar) são melhores amigas há anos por frequentarem a mesma escola desde o primário. Agora com 12 para 13 anos, angustiadas com o mundo e os relacionamentos que as cercam, as garotas encontram nas vozes, melodias e letras marcantes das bandas punk certa validação do descontentamento que sentem. 

Amizade e protagonismo feminino em “Nós Somos As Melhores!”

We are the best - crítica
Hedvig (Liv LeMoyne), Bobo (Mira Barkhammar) e Klara (Mira Grosin) em “Nós Somos asMelhores!”. (Imagem: reprodução).

O filme traz a melancólica Bobo como a principal (talvez por ser a mais provável de conquistar a simpatia da audiência). Filha de mãe divorciada, ela é quieta, não muito combativa e se sente inadequada tanto por causa de sua aparência – um corte de cabelo bem curto na tentativa de se integrar visualmente ao movimento –, quanto perto dos garotos que deseja ou das meninas populares que a desprezam.

Klara, por outro lado, é um verdadeiro estrondo. De personalidade forte e um moicano bem espetado, não há nada nem ninguém que não retruque – um espelho da dinâmica em casa, marcada por discussões, muitas pessoas e muito barulho. Apesar disso, os pais não se opõem à empreitada musical da garota: o pai toca flauta, o irmão mais novo tem um teclado e o mais velho também já teve sua “fase punk”, mas agora ouve Joy Division – o que irrita Klara, que considera um absurdo, como se ele tivesse “desistido” do movimento

As duas juntas trazem um bom equilíbrio entre si, com Klara sempre empurrando em direção à ação e Bobo colocando os pés dela no chão. Seria um bom exemplo de opostos que se atraem – isso se Klara não dominasse tanto as decisões e acabasse influenciando Bobo alguns momentos quase que à força. Há uma competição por parte da mais quieta, como uma tentativa de se provar aos olhos da amiga que sempre fora mais sociável e expansiva. Apesar disso, por causa da idade das duas, a dinâmica funciona de forma natural ao longo do filme.

never goodnight - quadrinho
Um dos painéis de “Aldrig godnatt”, HQ na qual o filme é baseado. Tradução: 1) Klara e eu estamos trabalhando em um projeto escolar sobre poluição do ar. Nós queríamos fazer sozinhas, mas nosso professor nos forçou a trabalhar com Sandra e Anna. “Coco e eu temos muita informação aqui…” “O que tem no seu cabelo? É massa para biscoitos?2)Não, não é massa para biscoitos! É sabão.” “Eu quero tocá-lo também! Eu quero tocá-lo também!3)Eca, nojento!!!4)É uma pena… Você poderia ser bem popular se simplesmente mudasse eu estilo. Nós podemos te ajudar…” “Mas… eu quero ser assim“. (Créditos: Coco Moodysson).

A potência de fazer música por si mesmas

Depois de um passe errado na aula de Educação Física e uma discussão sobre “quão importante realmente é jogar basquete enquanto tem gente morrendo na África”, as duas têm a ideia de montar a própria banda punk. Começam ali mesmo na quadra a compor a primeira música do grupo: “Hata Sport!” (“Odeie o esporte!”).

Frequentando o Centro Juvenil da cidade, Klara e Bobo têm a oportunidade de começar a tocar com os instrumentos lá disponíveis – primeiro, como uma afronta aos garotos da banda de metal Iron Fist, que sempre ensaiavam no local; depois, por uma vontade genuína de criar arte.

Convidada pela revista Q, Coco Moodysson escreveu sobre como essa e as outras cenas musicais eram as mais importantes que seu marido acertasse o tom. A vontade era de conseguir transmitir para quem assistisse a sensação do primeiro contato com música ao vivo e com experimentação instrumental, e o impacto (também emocional) disso nos ouvidos e nos corpos.

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E “Nós Somos as Melhores!” consegue: o grande acerto do filme – depois da incrível elencagem das protagonistas – está mesmo nas cenas perpassadas pelas músicas. A repulsa de Klara e Bobo pela música disco nas apresentações no show de talentos da escola, por exemplo, traz um momento cômico embalado pela melodia nostálgica “Don’t You Want Me”, de 1981, da banda The Human League,. Em seguida, por mais que também detestem o gênero clássico, elas reconhecem o talento de Hedvig (Liv LeMoyne), a garota cristã que se apresenta todos os anos mesmo com todas as vaias. 

Depois, elas a convidam para banda com a desculpa de que ela precisava de amigas (o que, por um lado, não é mentira), mas focando na possibilidade de Hedvig aceitar ensiná-las a tocar algo e ajudar com a composição das canções. Convocada sem saber que o projeto de banda era punk, mais tarde Klara tenta a provocar mostrando a música “Hang Gud” (“Enforque Deus”), do punk underground sueco, mas a novata não se abala. 

Hedvig é uma menina doce, tão calma como Bobo, mas que não demonstra tanta ansiedade. Eventualmente, tem o cabelo todo cortado pelas novas amigas – com um resultado que quase fez com que a mãe católica chamasse a polícia. Entretanto, não foi por pressão social: a vontade de se expressar é a mesma para todas. O desejo por liberdade e o interesse pela música são denominadores comuns do trio. 

As questões de gênero em “Nós Somos As Melhores!”

nós somos as melhores
Bobo (Mira Barkhammar), Klara (Mira Grosin) e Hedvig (Liv LeMoyne). (Imagem: reprodução).

“Nós Somos as Melhores!” consegue construir personagens de 12 e 13 anos autênticas, sem parecer o resultado de uma mera vontade nostálgica dos criadores de reviver aquela época. Quando Bobo questiona Klara, pedindo que cite uma coisa que é boa sobre sua vida, a outra instantaneamente responde: “você toca na melhor banda do mundo”. Essa mistura entre a inocência e o início da formação de uma consciência política marca o filme como um todo e é deliciosa de assistir. 

Além disso, a história dá às meninas oportunidades de se expressarem de maneiras que são tradicionalmente vistas como masculinas: com raiva, barulho, baderna. Também há a negação de uma estética feminina (de maquiagem e cabelos longos) que ocorre paralelamente à busca delas por identidade, condizente com a faixa etária e com o movimento musical que as inspira. Tudo isso reforça o caráter juvenil das protagonistas e a sensação de que tudo é possível quando se é mais nova. 

Contudo, também é verdade que a narrativa traz, assim como outras produções do gênero coming of age, uma perspectiva mais heteronormativa, através de “problemas com garotos”. É um trecho um pouco irritante na história, como se o foco mudasse drasticamente e todo o potencial das personagens estivesse sendo desperdiçado em relacionamentos amorosos. 

Como dito anteriormente, a força de “Nós Somos as Melhores!” reside na relação intrínseca com a música, então distanciar-se disso é um tiro no pé. Finalmente, a própria Hedvig faz com que Klara e Bobo resolvam seus problemas lembrando que “a banda é o que importa, não um garoto”. A partir de então o filme volta ao eixo e o punk retoma a dianteira, com direito a uma performance eletrizante. 

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Um sucesso de bilheteria quando lançado e com 96% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, “Nós Somos as Melhores!” é uma boa indicação para mulheres e meninas, pessoas de todas as idades, principalmente em momentos que precisamos de uma inspiração maior. É difícil se decepcionar vendo meninas livres para se expressar. 


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Autora:

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Graduada em Publicidade e Cinema pela UFMG, se interessa pelos mais diversos assuntos. Comediante por natureza e professora por acaso, se descobriu escritora por necessidade. Sonha em ser uma poliglota fluente, mas não consegue focar em estudar um só idioma por vez.
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