A delicada retratação do suicídio em obras cinematográficas

A delicada retratação do suicídio em obras cinematográficas

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Escrever um texto sobre obras cinematográficas que abordam a temática do suicídio no Setembro Amarelo é uma responsabilidade e tanto. Digo isso porque faço graduação em Psicologia e antes de liberar esse artigo pedi para que algumas colegas lessem e me dissessem se estava condizente e se eu não estava fazendo como vários fazem em setembro e falando coisas desnecessárias.

Independente de ser “de coração” ou “com boa vontade”, o ideal não é abrir suas redes sociais para receber desabafos, mas sim indicar psicoterapias e tentar dar apoio àquela pessoa de outras formas, afinal, você mesmo pode não saber lidar com o conteúdo das mensagens que vai receber, e responder com um “é, complicado :/” jamais será o ideal, muito menos o suficiente. Uma ajuda imediata pode ser obtida pelo CVV no número 188 e também pelo serviço público de saúde em CAPS, CREAS/CRAS.

Particularmente, eu critico bastante filmes e séries sobre suicídio, uma vez que podem trazer conteúdos muito romantizados e sem seriedade sobre um assunto extremamente delicado. Nesse post, abordo longas que trazem o tema de forma variada.  

Obras analisadas sobre a retratação do suicídio

Elena” (2012) é filme biográfico de Petra Costa que narra a história da sua irmã Elena e a relação que tinham. Elena sonhava em ser atriz e fazer filmes, então decide ir estudar em Nova York. Na segunda ida, sua mãe e Petra vão também para que Elena não fique tão sozinha. 

Mesmo com a presença de familiares, Elena sofre bastante com dificuldades na universidade, que afetam todas as esferas de sua vida. Antes de cometer suicídio, ela dá indícios de que está em grande sofrimento e, como o filme a retrata sendo uma pessoa bastante intensa, dá a entender a quem assiste que havia grandes chances da atriz realmente efetuar o ato ao ficar sozinha.

Cena de "Elena", filme de Petra Costa
Cena de “Elena” (Foto: Reprodução)

Não posso afirmar que houve a intenção, mas uma das mensagens deixadas pelo filme – e uma das atitudes reafirmadas dentro da psicologia – é a importância de não deixarmos objetos que podem ser usados para autoextermínio ao alcance de alguém que já expressou vontade de morrer, assim como não é recomendado que essa pessoa fique sozinha. Elena acaba falecendo numa tarde em que ficou sozinha em seu apartamento, depois de algumas crises, por intoxicação de diversos medicamentos e também tinha marcas de agulhas pelo corpo. 

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Outro ponto que o filme aborda é o luto e a culpa de quem fica. Tanto a mãe quanto a própria Petra acreditavam que teriam sido as culpadas pela morte de Elena. Petra tinha 7 anos quando a fatalidade ocorreu e, portanto, apresentou sinais de depressão infantil e só se deparou realmente com a percepção da morte algum tempo depois, quando compreendeu que sua mãe também podia morrer. Ela desenvolveu alguns comportamentos obsessivos infantis, como fazer promessas e repetir gestos para que a mãe ficasse livre da morte. 

A delicada retratação do suicídio em obras cinematográficas
Cena de “Elena” (Foto: Reprodução)

De modo geral, o filme apresenta o suicídio de forma sensível, sem minimizar a dor de quem cometeu o ato, muito menos a dor de quem passou pelo luto. A elaboração da perda da irmã é desenvolvida de forma bem interessante. 

As Vantagens de Ser Invisível” (2012), dirigido por Stephen Chbosky, é um filme baseado em um livro homônimo de Chbosky. A obra aborda a vida de um adolescente descolocado que está lidando com o suicídio do seu melhor amigo, numa fase já naturalmente complicada da vida, o ensino médio.

Com uma narrativa envolvente acerca da adolescência, sexualidade e as diversas questões que giram em torno desses aspectos, o filme realmente consegue abordar a temática do suicídio, tendo como ponto fundamental a atitude de Candace (Nina Dobrev), irmã de Charlie (Logan Lerman), que já tem conhecimento prévio das batalhas psicológicas que o irmão enfrenta.

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Todavia, quando Candace recebe uma ligação de seu irmão com teor bastante grave, ela pede para que liguem para a polícia imediatamente, o que salva a vida de Charlie. Entretanto, mesmo que o jovem não tenha tentado autoextermínio antes, ele já demonstrava estar passando por dificuldades há um bom tempo.

Cena de "As Vantagens de Ser Invisível"
Cena de “As Vantagens de Ser Invisível” (Foto: Reprodução)

A construção do personagem não minimiza seus pesares, sempre pontuando sua relação com a solidão e com o peso da morte de sua tia, que aconteceu quando ainda era criança e é um fantasma que o assombra. Ou seja, pensamentos suicidas não têm uma única origem, e nenhuma motivação deve ser desconsiderada. Jovens lidam com a solidão e desajustamento de formas diversas, mas isso não pode ser considerado algo “bobo”, indigno de sofrimento psíquico. Não julgue o sofrimento dos outros nem os coloque em sua própria balança.

Ao contrário de “As Vantagens de Ser Invisível”, “Se Enlouquecer, Não Se Apaixone” (2010), de Ryan FleckAnna Boden, é uma grande ridicularizarão do assunto. A história também traz um jovem meio deslocado, que sofre com problemas teoricamente característicos da adolescência e do ensino médio, mas cujas dificuldades são completamente ignoradas e banalizadas ao longo da narrativa.

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Além de seus problemas serem vistos como estúpidos, o roteiro começa com um furo sem explicação: Craig (Keir Gilchrist) tenta cometer suicídio se jogando de uma ponte e está em um hospital para receber acompanhamento. Ao pedir para ser medicado – o que também já é um ponto equivocado, já que o jovem deveria ter recebido encaminhamento psiquiátrico e psicológico e não implorar por remédio – recebe um não do enfermeiro por ser menor de idade. Mas ao pedir para ser internado na clínica não houve nenhum contato com seus pais ou com algum processo de triagem, e isso não faz sentido algum.

A retratação do suicídio em "Se Enlouquecer, Não Se Apaixone"
Cena de “Se Enlouquecer, Não Se Apaixone” (Foto: Reprodução)

Craig é retratado o tempo todo como um grande idiota, obcecado pela namorada do melhor amigo e que não tem motivos para se matar, já que tem família, casa e comida. Ou seja, nunca devemos julgar o sofrimento alheio, nem acreditar que ter coisas vistas como relevantes pela sociedade burguesa – e que na verdade não passam de direitos humanos – jamais será sinônimo de felicidade ou garantia de saúde mental. 

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Os profissionais da saúde daquele hospital são estereotipados e nada convincentes. A médica quer forçá-lo a contar sobre seus problemas, ao invés de deixá-lo fazer o processo no tempo dele. A terapeuta ocupacional consegue ser ainda pior ao chamar todos que estão na sala para discutir sobre seu bloqueio criativo, em uma situação que Craig apenas diz não estar com vontade de desenhar. Tenho experiência em oficinas terapêuticas do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) e obrigar alguém a fazer uma atividade é inadmissível, ainda mais colocá-lo em uma posição humilhante diante de todos – e se você não sabe lidar com o fato de que nem todos querem participar da atividade que você propôs, é você quem precisa resolver essa questão na terapia. 

As internações ali também não fazem sentido. Craig conhece Noelle (Emma Roberts), 21 anos, que relata estar internada porque acharam que ela se cortaria de novo. Bom, isolamento nunca foi nem será tratamento psicológico – aliás, na quarentena estamos experimentando na pele o quanto o isolamento não ajuda na saúde mental – portanto, a garota precisava de alternativas de tratamento para que pudesse fazer o que julgasse ser mais interessante, sem passar pelo constrangimento que é ser internada sem sua vontade. 

A retratação do suicídio no filme "Se Enlouquecer, Não Se Apaixone"
Cena de “Se Enlouquecer, Não Se Apaixone” (Foto: Reprodução)
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Outros pontos problemáticos do filme são as imagens patéticas de sexualização do corpo feminino e uma competição ridícula de quem sofre mais e quem tem mais motivos para viver. Novamente, não devemos julgar o sofrimento do outro, muito menos acreditar que ter direitos básicos à moradia e comida é motivo suficiente para querer viver. O ser humano é imensamente mais complexo do que isso. No fim das contas, o filme parece ser uma grande lição de moral de coaching, dizendo que você precisa ser grata por ter uma família e onde morar, sendo que o filme nem explora as relações familiares e ambientais de Craig. Enfim, é péssimo.

Um último filme a ser analisado aqui é “Miss Violence” (2013), dirigido por Alexandros Avranas, que aborda o suicídio infantil. A construção narrativa do filme é um pouco confusa e inicialmente não temos explicação sobre a morte de Angeliki (Chloe Bolota), apenas somos inseridas em sua festa de aniversário e assistimos ao ato de forma “privilegiada”, enquanto toda a família está de costas. 

Setembro Amarelo: A retratação do suicídio em "Miss Violence"
Cena de “Miss Violence” (Foto: Reprodução)

Do mesmo modo que em “Elena”, em “Miss Violence” vemos a vida de quem fica e o processo de luto. Além da própria complexidade e dificuldade em lidar com a situação, o filme traz pessoas que espalham boatos sobre a morte de Angeliki; mães que agora têm medo que suas filhas continuem amigas das meninas da família e além do risco iminente de perderem a guarda das outras crianças. 

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Em seguida, o pai da garota decide tirar todas as portas dos quartos, para que ninguém esconda o que está fazendo – mal sabe a espectadora que quem esconde as coisas é ele, mas comento isso em breve. Existe uma dualidade nessa atitude, já que ninguém pode esconder o que faz, mas todos escondem seus sentimentos de luto e o assunto mal é tocado quando estão reunidos.

Aviso: gatilho de pedofilia

Por muito tempo não temos acesso aos possíveis motivos que levaram Angeliki ao suicídio, e esse é um ponto bem interessante, já que nós realmente não temos acesso a isso na vida real, exceto bilhetes e cartas que são deixadas. Acontece que o pai das garotas as prostitui e uma das filhas contou para a irmã sobre seu destino ao fazer 11 anos – o que mostra que não é uma coincidência que a morte ocorra no dia de seu aniversário. As cenas a seguir são absurdamente repulsivas, já que estamos falando de pedofilia, mas o filme ainda guarda um final surpreendente.

Cena do filme "Miss Violence"
Cena de “Miss Violence” (Foto: Reprodução)

Procure ajuda

Em conclusão, peço que não levem ao extremo verdadeiro filmes e séries que retratem o suicídio. Cada caso é um caso e existem ficções que banalizam completamente o assunto, prestando um desserviço à sociedade. 

É importante estarmos cientes do sofrimento alheio sem julgamentos e nos atentarmos aos sinais que algumas pessoas com pensamento suicida dão. Dizer constantemente que quer morrer e eventualmente pesquisar meios de fazer isso são fatores de risco. Após a primeira tentativa, é essencial que a pessoa faça acompanhamento psicológico e médico e não fique sozinha ou com objetos que podem ser usados para uma nova tentativa.

Caso não tenha recursos financeiros para a terapia, procure auxílio no CAPS, CRAS/CREAS ou unidade básica de saúde mais próxima. Busque o contato de psicólogos(as) que atendem em horário social, isso significa que as sessões terão um preço mais acessível, além de poder utilizar do serviço do Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo número 188, um serviço de acolhimento em momento de crise.

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Um dos papéis fundamentais de quem convive com pessoas que tentaram ou falam sobre tentar autoextermínio é acolher o sujeito e procurar ajuda. O apoio psicológico é necessário tanto para o familiar ou quem acolhe quanto para quem tem ideações suicidas, afinal, as demandas são delicadas e existe um forte fator de ansiedade que ronda o assunto.  

Antes de ser publicado, esse texto foi lido e revisado por Leticia de Souza Correia Santos, Stefany Lourenço de Sousa, Honiel Hamilton de Souza, Natália Cristina Ribeiro Pacheco e Camila Soares. Disponibilizo também em uma pasta no Google Drive alguns textos sobre o tema para quem se interessar.


Edição, revisão e arte em destaque por Isabelle Simões.


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Written by:

Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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