The Last of Us – 1ª temporada: o amor como motivação para viver em um mundo destroçado

The Last of Us – 1ª temporada: o amor como motivação para viver em um mundo destroçado

A primeira temporada de The Last of Us foi uma surpresa boa até demais. As adaptações de games para as telas sempre foram um pouco decepcionantes, mas TLoU veio para mostrar que é possível sim superar as expectativas dos nerds por aí! 

A HBO, reconhecida por suas séries de sucesso, sustentou a fama e entregou uma adaptação com mais pontos positivos que negativos, deixando um gostinho de quero mais na boca dos espectadores após sua season finale.

Seguindo os acontecimentos do jogo de forma linear, os episódios de The Last of Us exploraram com maestria o universo da pandemia do Cordyceps. Ao invés de focar apenas na dupla protagonista como é no jogo, os criadores do show decidiram mostrar diversas outras histórias. Essa decisão acertada ajudou em uma maior imersão naquele mundo, e contextualiza bem o período e como ele afetou a sociedade como um todo. 

Pedro Pascal e Bella Ramsey formaram uma dupla perfeita na primeira temporada da série.
Pedro Pascal e Bella Ramsey formaram uma dupla perfeita! | Divulgação/HBO

E os infectados?

Muitos fãs da saga vem dos jogos e esse grupo em específico tem sempre críticas a ressaltar. Uma dessas, de certo modo bastante relevante, é a pouca quantidade de infectados na série televisiva. Temos a presença dos infectados mais nos primeiros episódios, ainda mais no segundo, onde vemos os Estaladores pela primeira vez – uma caracterização e maquiagem muito bem feita, diga-se de passagem – e temos a real sensação de seu horror, pois a cena em questão conseguiu representar a tensão que os games nos dão ao enfrentar os infectados.

Contudo, somente no episódio cinco é que tivemos mais uma cena marcante envolvendo os monstros: uma ataque massivo de infectados e em meio a eles o terrível Baiacu (também chamado de Verme), a variante mais poderosa dos infectados, no qual foi muito bem caracterizada, com uma roupa e maquiagem feitas a mão e sem CG. Ou a assustadora Estaladora criança, que contou com uma dublê contorcionista mirim para ser interpretada. De fato, uma cena impressionante e uma das melhores de toda a série, mas bem que podia ter mais nos outros episódios, não?

O grande Baiacu em The Last of Us
O grande Baiacu, que só apareceu uma vez | Divulgação/HBO

Outra aparição dos benditos infectados foi no episódio sete, que conta como Ellie (Bella Ramsey) foi infectada, mas ainda assim foi somente uma única criatura. Quem jogou a DLC Left Behind sabe que havia bem mais monstros nessa parte da história, e apesar da relação da protagonista com Riley (Storm Reid) ter sido fielmente representada e até mais aprofundada, a falta de mais infectados tirou um pouco da tensão do momento em que Ellie é mordida.

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Fora isso, até o final da série, não houve mais nenhuma aparição dos infectados. Principalmente no último episódio é que eles fizeram falta, ainda mais que o nono episódio é bastante curto de duração. Se por um lado foi emocionante ver Joel (Pedro Pascal) abrir seu coração para Ellie sobre a motivação que ele encontrou para se manter vivo ou a cena com as girafas, por outro lado, a partida direta para o confronto de Joel com os Vagalumes cortou um pouco do clima. Teria sido interessante ver os protagonistas enfrentando mais infectados justo no último episódio da série, afinal, a trama gira em torno de um apocalipse zumbi. 

Craig Mazin já se manifestou dizendo que na segunda temporada haverá mais infectados, além de variações novas. Resta então esperar que o diretor cumpra a promessa, ao menos!

A importância da representatividade em The Last of Us

A importância da representatividade em The Last of Us
Impossível não se emocionar com esse casal, né? | Divulgação/HBO

Já tínhamos dito nas demais análises que a série acertou em focar mais nas relações entre os personagens, aprofundando ou dando uma nova perspectiva. Nos games, já havia sido mostrado alguns personagens LGBTQI+, entre eles a própria Ellie, como lésbica. Ou o personagem Bill, cuja sexualidade no game foi levemente sugerida.

Sim, temos que exaltar o belíssimo terceiro episódio “Long, Long Time”, em que não apenas a sexualidade de Bill (Nick Offerman) e Frank (Murray Bartlett) ficou evidente, como mudou a relação entre ambos, dando um final emocionante e digno para os dois, bem diferente do final trágico do game. Vale lembrar que The Last of Us não é somente humanos sobrevivendo a um mundo destroçado por uma pandemia de zumbis, mas sim uma história sobre encontrar no amor uma motivação para viver e não apenas sobreviver

Bill e Frank foram um grande exemplo dessa mensagem e a maneira em que a homossexualidade foi retratada foi bastante fidedigna, sem se prender a estereótipos, tornando os personagens orgânicos e muito carismáticos. Até mesmo quem tem suas “ressalvas” para ver personagens LGBTQI+ na tela se sentiu emocionado com esse episódio, pois basta ter sensibilidade para se sentir tocado por “Long, Long Time”.

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O episódio "Left Behind" deixou todo mundo com lágrimas nos olhos!
Left Behind veio para deixar todo mundo com lágrimas nos olhos! | Divulgação/HBO

É assim que a representatividade conta como verdadeira: quando seus personagens são retratados com naturalidade, dignidade, sem serem superficiais ou rasos. Não serem meros arquétipos ou trejeitos que de tão batidos torna um personagem assim quase uma ofensa à comunidade. The Last of Us não cometeu esses erros e entregou personagens envolventes, carismáticos e apaixonantes.

O elenco perfeito!

E os personagens só se tornaram tão carismáticos por conta do elenco acertado da série! Todos os atores e atrizes, dos núcleos protagonistas aos secundários, deram um show de atuação, impressionando o público e criando uma relação única entre si e com o público.

É quase impossível não citar os personagens Bill e Frank mais uma vez, quando os seus atores deram vida e amor aos personagens, ainda que em um único episódio dessa história. O mesmo com o garotinho Sam (Keivonn Woodard) e seu irmão mais velho, Henry (Lamar Johnson) – ambos conseguiram com maestria passar toda a complexidade e tensão desses personagens tão importantes para a caminhada de Ellie e Joel.

Sam (Keivonn Woodard) e Henry (Lamar Johnson) na primeira temporada da série
A jornada dos irmãos ainda arrepia a gente, né? | Divulgação/HBO

E falando na dupla, é claro que para Bella Ramsey e Pedro Pascal só restam elogios! A química entre os dois é quase palpável e deixa o público com o coração aquecido sempre que aparecem interagindo de maneira amistosa (do jeitinho deles!). Ressaltamos principalmente os últimos episódios, quando Joel se machuca e Ellie cuida de seu parceiro, enfrentando muito bem os obstáculos no caminho para que ele permaneça a salvo – e ela também.

Bella, que no começo sofreu críticas por conta de sua aparência, mostrou a todos para o que veio. Ramsey incorporou Ellie de maneira espetacular, a insolência misturada com inocência e coragem da personagem se encaixou perfeitamente à atriz. 

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Não só de atuações sobreviveu essa primeira temporada. Toda a parte técnica da série está excepcional, da maquiagem – que já foi citada – à trilha sonora, montagem e decupagem do show. Os momentos de contextualização e flashbacks funcionaram perfeitamente, além do roteiro bem construído e, ainda que mudando algumas coisas, fiel à cada parte da história.

A ambientação e desenvolvimento do universo de The Last of Us foi feita com maestria, com cenários de encher os olhos e até uma girafa de verdade! Os showrunners criaram uma adaptação digna, que aumenta as expectativas e esperanças para séries e filmes futuros baseados nos universos dos games. 

Expectativas superadas e o futuro de The Last of Us

As expectativas foram mais do que confirmadas, foram superadas! Estamos falando sim da melhor adaptação de um videogame já vista. Não que o páreo tenha sido duro, afinal, games sempre careceram de adaptações dignas (Resident Evil que o diga), mas nos últimos anos, houve boas e até ótimas adaptações em outras mídias. Como os filmes em live-action do Sonic ou até mesmo a excelente série Arcane da Netflix, baseada no League of Legends.

Mas The Last of Us é realmente um fenômeno. O primeiro jogo foi lançado há dez anos atrás e só no seu lançamento revolucionou a indústria dos games com sua trama e gameplay cinematográfica. Não que outras franquias não tivessem feito títulos com enredos assim, mas Neil Druckman focou em criar uma narrativa e personagens bastante profundos e carismáticos, que não apenas despertam empatia, mas que nos envolve pela trama e nos fazem nos importar de verdade com eles.

Nós rimos com suas piadas bobas, ficamos tensos quando os vemos em perigo, compartilhamos suas raivas, frustrações e tristezas e ficamos tocados nos momentos de emoção. E Craig Mazin e o elenco souberam muito bem emular todos esses sentimentos e sensações para a TV. Afinal, é isso que uma adaptação tem que entregar acima de tudo: a essência do original.

Cena da girafa em The Last of Us
Cena da girafa em The Last of Us | Divulgação/HBO
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O maior acerto foi o criador original trabalhar junto ao diretor. Druckman e Mazin tiveram uma ótima sintonia que é difícil de ver. Se por um lado o Neil soube aceitar as mudanças que a trama como um todo deveria ter para ser adaptada para uma série (como retirar as nuvens de esporos, por exemplo, presente no game), por outro lado, Craig não se julgou maior do que a obra e seu criador original, como muitos diretores os fazem de maneira arrogante. Não, Mazin respeitou todo o material e teve a sensibilidade certa para adaptar. Cem por cento perfeito não ficou, mas ficou bastante próximo.

Há franquias de games que estão há anos no mercado, mas não tiveram uma única adaptação para cinema ou TV minimamente digna. Tanto, que todo e qualquer fã de um jogo sua frio quando anunciam que haverá uma adaptação. Mas The Last of Us, em apenas uma década de existência, com somente dois jogos e uma DLC conseguiu fazer barulho o suficiente com sua qualidade excepcional para receber a atenção das demais mídias. 

Pedro Pascal e Bella Ramsey em um dos momentos mais emocionantes da primeira temporada de The Last of Us.
Quem aí vai sentir saudade desses dois? | Divulgação/HBO

Sua série elevou o patamar de qualidade: não é apenas um parâmetro para comparar uma adaptação de outro jogo, se tornou um exemplo a ser seguido. The Last of Us fez os primeiros meses de 2023 entrarem em ebulição e agora o público não vai aceitar menos que isso. Queremos ver atuações envolventes, tramas de nos tirar o fôlego e ferver na ansiedade para ver mais episódios a cada semana. 

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E sim, lançar um episódio por semana pode fazer os ansiosos de plantão roerem as unhas, mas faz com a série fique relevante por dias a fio até a sua conclusão. Com pelo menos três meses em exibição, The Last of Us deu o que falar durante todo esse tempo, o que rendeu a  confirmação de sua segunda temporada logo após a exibição de seus primeiros episódios. Pois é. Indireta dada.

Cena da season finale de TLoU | Divulgação/HBO

É claro que agora estamos com as expectativas bem altas para a segunda temporada. Mazin já adiantou que não não conseguirá adaptar todo o segundo jogo em somente uma temporada, então planeja ao todo fazer três temporadas. O mesmo disse que uma história não deve se estender tanto e por muito tempo. Portanto, é bom ver um diretor com essa preocupação, afinal, o que mais estraga uma franquia é a ganância de produtores e estúdios em continuar lançando títulos sem se preocupar com a qualidade, mas apenas com o lucro e mesmo que isso irrite os fãs. 

De fato, a trama de TLOU Parte II é maior e mais complexa que o primeiro game. Bella Ramsey já confirmou que deseja continuar a interpretar Ellie e Mazin disse que só irá trocar a atriz se Ramsey não quiser mais viver a Ellie. Para quem chegou entortando o nariz de com sua falta de semelhança com a Ellie do game, Bella conseguiu calar a boca de todo mundo entregando uma atuação visceral. E seu talento será ainda mais testado na segunda temporada.

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Expectativas altas também para quem deve interpretar a Abby, a nêmesis de Ellie no segundo jogo. É um papel de peso e tal atriz terá um árduo trabalho de disputar com Bella Ramsey os holofotes de atuação envolvente, além do desafio de suportar a carga emocional que Abby trás tanto para a própria atriz quanto para o público. Mas estamos ansiosas com o que está por vir!


Escrito em conjunto pelas autoras Marina e Tessa.

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